sexta-feira, outubro 28

Na barbearia

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A propósito do que vai por aí, dos que mentem, dos que se desdizem, se escondem, se retractam, fogem com o rabo à seringa, retiram comprometedoras páginas dos seus blogues, dizem que não sabiam, não foram eles, que as coisas mudam, que o tempo o dirá, cite-se o provérbio turco de antiga e oriental sabedoria: "Quando estiveres a ser barbeado, mantém-te quieto".  

sexta-feira, outubro 21

Mudanças e melhorias

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Num programa da televisão holandesa, Maurice de Hond, o especialista das previsões eleitorais, anunciava a semana passada a sua intenção de se abster de votar, e a necessidade que há de, para manifestarem a sua vontade, os cidadãos venham a possuir instrumentos mais eficientes do que o voto.
Emocionado, argumentava a impotência e a irritação que sente ao votar num partido da sua escolha, e dar-se conta que, chegado ao poder, esse partido alegremente esquece as solenes promessas do programa eleitoral, tomando por vezes decisões bem diferentes ou mesmo opostas. É, afirmava ele, uma forma de trafulhice a que se deve por cobro, talvez por intermédio de referendos, avaliando a prazos regulares em que medida um governo eleito cumpre o prometido.
Nos países onde é elevada a consciência política, a sociedade não descarta a priori as possibilidades de mudança e mostra-se geralmente favorável à análise do que possa conduzir a melhorias. 
Mas melhorias e mudanças não estão no programa dos malfadados países onde as leis são para violar, as dívidas para esquecer, o bolo é duns quantos, o resto vive de mão estendida, temendo o amanhã.


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Publicado no CM

segunda-feira, outubro 17

Ares de leão

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É interessante vê-lo quando chega ao café: a porta abre-se e durante dois ou três segundo nada acontece, a pausa teatral antes do galã apare­cer no palco.
Surge então, grande, pesado, a cabeça leonina erguid­a, os olhos flamejantes. Entra, roda sobre si mesmo a fechar a porta, cumprimenta este, acena a outro, a passos medidos procura uma mesa.
Escreve, pinta, canta, represen­ta, esculpe, compõe, é pianista talentoso, realiza performan­ces, vê-se com fre­quência na televisão, ouve-se com fre­quência na rádio. Raro passa semana sem que num ou noutro jornal não apareça escrito seu, ou não se fale das suas muitas acti­vidades.
Verdadeiro furacão que é causa ciúmes, e já me tenho perdido a sonhar sobre que extraor­dinário poder pos­sui quem realiza tanto, no mesmo tempo em que eu tão pouco faço.
A minha inveja, porém, vai menos para o que ele faz, do que para o modo como se mostra. Eu francamente gostaria de saber entrar assim no café, vestido de preto, o grande cachecol vermelho enrolado no pes­coço, cabeça ao alto, e aquela esplêndida segurança de si mesmo.
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Publicado no CM e aqui.









 

sábado, outubro 15

Em busca de quê?

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"De facto, quando nos agarramos a um livro vamos em busca de quê? Mesmo quando aparentemente procuramos apenas uma trivial forma de evasão, no mais fundo de nós desejamos um encontro com alguma coisa de mais sincero e desperto do que o quadro sonâmbulo das convenções, um punhado de luz capaz de romper o mar de gelo do tempo, uma iniciação à arte difícil da verdade. Pois precisamos de ajuda para compreender aquilo que se experimenta não só sendo outra pessoa, com uma vida diferente da nossa, mas também para abraçar, com uma sabedoria que tantas vezes nos falta, a nossa própria vida. A literatura é isso: um hospital de campanha, um centro portátil de interpretação, uma operação de socorro aos náufragos que somos nós todos.
Condicioná-la, falsificá-la, diluí-la é um atentado contra a humanidade, de que a literatura é um bem irremovível."

Os que gostam de ler, e os que sentem a necessidade de escrever, tirarão proveito destas palavras de José Tolentino Mendonça na revista do Expresso  (8/10/2016).

terça-feira, outubro 11

Um pontapé nos locais

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Viajar para aprender e descobrir mundos, ter outras vivências? Na Tailândia, em Sortelha, Pitões das Júnias ou no Camboja, a muitos que lá vão o que  sobremodo os maravilha, e se apressam a partilhar, é a intimidade das conversas que  têm com os locais.
E eu então, quando isso leio ou por acaso oiço a baboseira, do que tenho logo vontade é de lhes assentar um pontapé naquele local - creio que foi Eça que assim o definiu – onde as costas acabam e as pernas começam.
Mas como isso já não se faz, e nesta nossa em extremo carinhosa sociedade até o   puxão de orelhas pode dar cadeia, fico a remoer o desagrado, perguntando-me a quem raio devo deitar culpas. Aos pais? À escola? À fraqueza das cabecinhas? À parolice que os leva a acreditar que, exprimindo-se desse modo, se distinguem do comum, mostram fineza?
Passado o acesso e voltando a mim, não é irritação o que sinto, mas desalento. Pois que adianta o esforço dos que se empenham para que o mundo avance, se nem de longe fazem contrapeso ao rebanho que se alegra e satisfaz com a própria ignorância?
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Publicado no CM