quarta-feira, abril 20

O gongorismo

Luis de Góngora y Argote (1561-1627)

Vejo, oiço, leio. Ministros, deputados, comentadores, políticos em geral, todos parecem ter herdado a ubiquidade de Santo António.
As meninas do BE apontam o dedo, os comunistas erguem o punho, os restantes fazem assim, fazem assado, querem isto, recusam aquilo, mas o caso é que, estejam eles dentro ou fora, não há meio, força, jeito que ponha a gerigonça em bom e proveitoso andamento.
Pensando nisso e neles, não sei por que carga da de água me veio à lembrança o gongorismo, o extravagante estilo literário em que prima o mau gosto, cada duas palavras  um  superlativo, ornatos a torto e a direito, linguagem rebuscada e obscura, afirmações sem pés nem cabeça, mas sempre sonoras que baste.

terça-feira, abril 19

Gravatas e fatos topo de gama

(Clique)
Se for à UE em Bruxelas, cuide de não andar por ali de boca aberta. Porque ele é o luxo das instalações, ele é o requinte da gastronomia, a seriedade dos rostos, a dinâmica das atitudes, um passar e repassar de mulheres que olham desdenhosas quem se atreve a julgá-las apenas "fisicamente apelativas".
As deslocações desses eleitos são feitas em carros topo de gama, mina de ouro que as empresas que asseguram o serviço vão perder, pois a UE quer um parque automóvel próprio.
Há argumentos de logística, mas sobretudo de segurança, pelo que vão também ser recrutados 110 motoristas idóneos, pois às vezes ficam documentos confidenciais esquecidos nos carros, e há o risco de vê-los cair em mãos alheias.
Os gastos aumentam de € 6.8 milhões para € 10.8, sendo reservados anualmente € 116.000 para os fatos, acrescidos de um subsídio anual de € 1.000,-- por motorista.
Porque houve quem estranhasse a largueza, a nota do Secretariado Geral - CSG D (2016) 619, 2 de Março - foi por enquanto deixada na gaveta, donde sairá em momento mais oportuno.


 

segunda-feira, abril 18

"Uma pessoa"

(Clique)
É coisa pouca, uma frase inócua, mas quando a encontro  involuntariamente se me dispara na cabeça um instantâneo da mentalidade de quem a diz ou escreve.
Foi há muito que a ouvi a um sujeito por quem tenho pouco respeito, mau grado o estimem como prócere da cultura nacional. Com um sorrisinho, afirmava ele numa roda onde abundavam os admiradores, que só escrevia à mão, e a lápis, acrescentando: "Depois há uma pessoa que passa aquilo à máquina".
Noutra altura um poeta, também esse homem de fama, contava numa entrevista: "Sempre caligrafei, e há mais de trinta anos com esta Montblanc. Primeiro tinha alguém que me dactilografava os poemas, agora há uma pessoa que passa tudo para o computador."
A mais recente é da importante jornalista, dizendo ao entrevistador: "Eu não queria largar a minha Olivetti e depois havia uma pessoa que passava da máquina para o computador."
Uma pessoa, alguém. Sempre um humilde anónimo, em geral uma anónima, a trabalhar na sombra destes "grandes",  tão inchados de prosápia que só a si se vêem.  
 

domingo, abril 17

Falta-me sabedoria

(Clique)

Sempre se falou em excesso da experiência que os anos dão, do poço de sabedoria que cada idoso é, fatigam os casos das avós e tias sábias, que à lareira, no remanso de idílicos povoados, contam histórias do tempo em que se respeitavam as tradições, se ajudavam os vizinhos, se comiam saborosos jantares, preparados com ingredientes de uma pureza que já não há, e segundo receitas conventuais passadas de geração para geração.

Avesso e mal disposto, aí chegado acontece-me por vezes soltar um "Porra!", perguntando-me então que gente é essa, ou de que paraísos tem conhecimento, pois por mais que olhe e espiolhe, no que encontro nada apercebo de bucolismo, nem de tal serenidade me falam os jornais ou mostram as televisões.
De modo que, não sendo míope, nem fraco da cabeça, só abonado em anos, concluo que muito há que me escapa, e ao contrário do que dizem, pelo menos no meu caso a idade pouco me ensinou.
 

sexta-feira, abril 15

Os amigos

(Clique)

Haverá por aí alguém que, tendo experiência do mesmo, possa apontar duas, três, meia dúzia de razões que levam a que nos falhem os amigos que mais estimamos?
Julga a gente que ao longo da vida alguma coisa vai aprendendo, e de facto algo se aprende, mas nada prepara para o afastamento, sempre curiosamente gradual, dos que diziam ter-nos amizade.
Não se lhes critique a atitude, eles serão os primeiros a jurar pelas cinzas de quem lá têm que assim não é.