domingo, abril 10

Verdes, amarelos e ingratos

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Do modo como as coisas andam, talvez esteja na hora de abrir o armário, tirarmos de lá o patriotismo, sacudir-lhe o cotão e o pó que acumulou e, deitando-o  pelos ombros, sairmos orgulhosamente com ele à rua.
A moda é outra? Razão de sobra para fincar pé, dar prova que, como os homens, também os países não se medem aos palmos, pôr fim à  choradeira de que somos pequenos, deixarmo-nos de medos, de invejas, sentir honra do que temos de excelente, acabarmos de vez com a bacoca admiração do exótico.
Dá-se o caso de quererem agora os brasileiros descartar o ensino da nossa literatura. Pois que descartem, fiquem com a sua e bom proveito lhes faça, embora não me conste que, fora dos guetos universitários, se saiba no Velho Mundo, na jovem América do Norte ou na Ásia milenar, que o Brasil possui uma literatura, menos ainda uma como a nossa, com pergaminhos e a brilhar há séculos.
Talvez noutra altura me inclinasse a deitar água na fervura, elogiando, por exemplo, os grandes romances de Paulo Coelho. Mas nada de cortesias: é lembrar-lhes donde vêm e o que nos devem.
 


quarta-feira, abril 6

A revista LER



É preciso ler. Todos ganhámos com isso: os que lêem e aprendem, os que a ler se divertem, os que lêem e pensam. Depois há toda uma indústria e um comércio que vivem dos livros – nem sempre nas aflições de que se queixam  - pirâmide onde os senhores editores se acomodam na ponta, e os funcionários e os escritores se encolhem na base.
Entretanto, nem tudo são dores. De vez em quando ouvem-se risos irónicos, vêem-se piscadelas de olho, almas bem intencionadas, como eu agora, a sussurrar, leiam a LER desta Primavera.
Um tesouro. Isabel Lucas passeia com Patti Smith; D. Clara Ferreira Alves confessa-se looongamente; Carlos Fiolhais entrevista um génio da Matemática; eu deixo lá memórias de um tempo em que fui inocente.
Comprem, comprem. É preciso ajudar a LER, antes que algum patrão decida que não dá lucro bastante e acabe com ela.  

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PS. Como de certeza compreendem, as restantes quatro páginas, só pagando.

domingo, abril 3

Pai Nosso, que estais em Belém

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Na inauguração do mandato o Presidente da República sorriu muito, abraçou, beijocou, bailou, ofereceu-se banhos de multidão com descontraído e simpático à-vontade.
Devo dizer que esse modo me agrada, pois venho dos tempos remotos do  bigodudo presidente Carmona, do esfíngico Thomaz e do monocular Spínola.
Do inefável presidente Soares lembro a agitação com que arengava às massas, o seu francês, o à-vontade de expor o ventre nu nas praias das Seychelles. O taciturno presidente Cavaco Silva manteve-me na constante expectativa de que um dia, perdendo a paciência, finalmente desabafasse. Ainda bem que para alívio de muitos o não fez, mas Deus queira, e eu espero, que não se refreie quando escrever as suas memórias.
Temos então agora o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, com aquele capital de simpatia que não é apenas televisivo, e para o bem de todos muito promete, além de corresponder à perfeição ao anseio que talvez tenhamos (tenhamos? não será "tinhemos"?)  desde D. Afonso Henriques: o de um pai que nos proteja.
Infelizmente, é por demais sabido o que tantas vezes acontece entre pais e filhos.
A ver vamos.

quarta-feira, março 30

Onde o que não é parece

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Com uma comunicação global, imediata, acessível  a todos, qualquer bicho careto logo ao acordar se sente genial, emite sentença, deita-a ao mundo.
Está no seu direito, gostosamente aproveita o que lhe é facilitado e, para benefício geral, talvez essa ilusão que se dá tenha efeitos curativos, evite que saia à rua com intenções menos pacíficas ou vá parar ao hospital psiquiátrico.
Não aborrece, não incomoda, solta os seus gritos, mas só esporadicamente damos por ele ao acaso de um clique e, encolhendo os ombros, passamos ao seguinte ou desligamos o computador.
Desagradável e irritante é o que tem estudos – ou parece tê-los – porque também emite sentença, pouco se lhe dando que mistura alhos com bugalhos, e confunde peras com maçãs.
Novinho ainda, fala de cátedra, tem já a atitude e o paleio que prepara altos voos na universidade ou na política, duas instituições de excelência onde o que não é parece.

segunda-feira, março 28

Novidade (sem)

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O visitante chega aqui, nada encontra de novo, vai alegremente bater a porta onde haja novidade ou matéria de interesse.
Fico eu sorumbático e com remorso, porque os mais dos dias de nada adianta o esforço de querer ter ideias originais, relatar casos interessantes ou, simplesmente, bordar trechos de prosa que tenham princípio, meio, fim, e miolo suficiente para interessar.
Será do tempo feio, porque a chuva não pára, ou recordação de momentos menos agradáveis, o caso é que olho para o ecrã do computador, pensando em você, que de um momento para o outro estará do outro lado.
Desta vez encontra a porta aberta, mas também nada mais lhe posso oferecer do que o voto de que o seu dia seja de uma claridade que o meu não tem.