quinta-feira, agosto 25

Bonzinho

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Escreveu-me uma leitora a queixar-se de serem os personagens dos meus livros gente azeda, bruta, violenta, espelhando uma humanidade em que não se adivinha carinho, um sentimento bom, uma réstia de amor ao próximo, uma ponta de esperança.

Provavelmente assim será – tudo depende da cabecinha de cada um – mas tenho eu, tem o escritor, a obrigação de agradar a quem o lê? Deve, pode, quer ele, antes de meter mãos à obra, fazer um gráfico de passáveis bondades e gentilezas, beijinhos generosamente dispensados ao longo das páginas, ternuras, fins de tarde como só há nas Bahamas?

Respondo pela negativa e por mim falo: não tenho obrigação de agradar, nem me passaria pela cabeça deixar de escrever como sinto ou quero para que me achem bonzinho.

A senhora terá de ir bater a outra porta.

quarta-feira, agosto 24

Errar nas apostas

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Nada adianta querer disfarçar, esconder, nem a inveja precisa de vir com mau modo e cara trombuda. As mais vezes chega serena, delicada na aparência, mal se daria por ela não fosse o pequenino trejeito, a suposta omissão, a fingida desculpa, o cumprimento que os obriga a arrastar a fala, porque eles próprios mais que se dão conta do cinismo em que a embrulham.
Há quem a tenha como prato forte, à maneira do cozido, e depois se pergunte de donde lhe vem a azedia, a raiva impotente de não compreender porque acontece aos outros e não a ele, que tem mais capacidade e outro merecimento.
O invejoso vive na certeza de que Deus escreve torto por linhas tortas, daí a benesse alheia e a má sorte que lhe cabe. Mas assim não é, direitas ou tortas Deus escreve por todas as linhas. O que dói ao invejoso é errar sempre nas apostas.

segunda-feira, agosto 22

Um copo de urina em jejum

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Que bicho morderá alguns, para que neles seja tão forte o espírito missionário?
Sermoneia este que devo manter abertas as janelas, de modo a que com a corrente de ar a energia do chi arraste para longe as forças negativas. Quer outro convencer-me a que o faça em casa, por ser mais seguro, mas todos os dias, durante um quarto de hora, me obrigue a andar às arrecuas. Garante ele que o fazem na Lapónia e é excelente treino para o equilíbrio mental e físico.
Um terceiro, igualmente bem intencionado, há anos que em jejum bebe um copo da própria urina, e aconselha-me a que lhe siga o exemplo, pois é a maneira de restabelecer o equilíbrio dos minerais no corpo, aumentar a resistência às infecções, garantir a elasticidade da pele, evitar o Alzheimer.
Os vizinhos, que desde há pouco são jeovás, vieram ontem oferecer-se para me consolarem com as palavras do Senhor.
A todos agradeço, mas andaria mais bem humorado se me deixassem com os meus medos, os meus achaques, o desequilíbrio dos minerais, a pedra na bexiga, e na ignorância do que o Todo Poderoso sussurra aos eleitos.
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Publicado no CM

domingo, agosto 21

"Cinderella Rockefella"

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"Esther e Abi Ofarim? Não faço ideia. Palavra que em 1968 não havia Youtube?"

sexta-feira, agosto 19

"Trabalhar diuturna e nocturnamente"

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Misturando sorrisos, pasmo e tristeza, está aqui uma boa maneira de começar o dia.

quarta-feira, agosto 17

Quantos serão?

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Quantos serão, os que numa tarde de Agosto folheiam a "Imitação de Cristo"  em busca de respostas?

"Envergonha-te, Sion, diz o mar (Isaías, 43,4).
E se perguntas a causa ouve porquê:
Por um ténue benefício andam os homens caminho mui dilatado, e dificilmente dão um passo pela vida eterna.
Buscam um livro vil, e às vezes por pouco dinheiro torpemente litigam, sem recearem cansar-se dia e noite por uma coisa vã, e por uma promessa mesquinha.
Não cuidam esses homens de trabalhar, sequer um pouco, pelo bem imutável, pelo prémio inestimável, pela suprema honra, e pela gloria que não tem fim.
Envergonha-te, pois, ó servo preguiçoso, e tão fácil em te queixares.
Pois há homens mais prontos para a perdição, que tu para a vida.
Com mais gosto buscam eles a vaidade do que tu a verdade."




segunda-feira, agosto 15

A reforma do banqueiro

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Cara porcina, peito inchado, ventre pançudo, dedos em garra, na fotografia o banqueiro é a caricatura de si mesmo. O lápis de George Grosz ficaria aquém para lhe fazer o retrato, todo ele a ressudar ganância, poder e vaidade, bufando que lhe ameaçam a reforma e os privilégios.
Reformas milionárias só as há nas sociedades corruptas e desiguais em extremo, onde proliferam os Mugabes de todo o tamanho.
Para infelicidade nossa, em mais de um aspecto Portugal não pode apontar o dedo ao Zimbabwe.