terça-feira, setembro 13

"Stop Animal Abuse"

 
O Amstel é um rio modesto, há canais mais largos, mas antes de entrar na cidade faz ali curva, dando uma impressão ilusória de grandeza. Na margem, a esplanada do restaurante é local favorito de gente próspera, trintões agarrados à lembrança da juventude passada, raparigas muito capazes em fintar o tempo. Janta-se bem.
Mediana na estatura, decote generoso, cigarro entre os dedos, a mulata entrou sozinha, espalhafatosa no modo e na minissaia branca, onde em maiúsculas desproporcionadas se lia: STOP ANIMAL ABUSE.
Passou pela minha mesa, fez vaivém por entre os grupos, falando a um e a outro, que abanavam a cabeça e lhe sorriam de circunstância. As mulheres, todas mais altas, mais jovens, mais bonitas, voltavam-lhe as costas, ou encaravam-na como se tivessem dificuldade em enxergar.
Agarrou um quarentão pelo braço. Ele ouviu-a, sorriu, e com um encolher de ombros de desculpa foi adiante. Depois, sentada a uma mesa próxima, demorou até que lhe trouxessem um copo de vinho branco, que foi bebericando com vagares e um rosto de desespero. Levantou-se, deixando o copo meio, e o empregado disse que estava bem, não precisava pagar, não tinha importância, deu-lhe as boas-noites.
Vi-a depois, única caminhante na berma da estrada, as maiúsculas da bizarra minissaia gritando ao mundo que não se deve maltratar os animais.
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PS. Este texto foi publicado no TC em 9 de Julho de 2010. A mulata pede agora esmola nas ruas de Amsterdam e, umas vezes na saia, nas calças ou na blusa, continua a anunciar: Stop Animal Abuse.


domingo, setembro 11

Boca a boca


Conhecemo-nos desde a universidade, nunca fomos íntimos, mas encontramo-nos de longe a longe e, duma maneira ou doutra, guardamos um sentimento de camaradagem.
À moda antiga, mantemos o hábito de escrever cartas, levando ele a melhor na beleza da caligrafia. Porém, como se padecesse de falhas da memória ou comece a ficar gagá, ultimamente as suas missivas são quase sempre idênticas, e resumem-se com poucas variantes a um texto assim: "A minha vida vai indo calma, na forma do costume. Saio pouco, continuo a pintar aguarelas. Também tenho escrito umas coisas que deixo na gaveta, porque não me atrevo a publicá-las. Gostaria que um dia lhes desses uma vista de olhos, pois sinto falta do teu senso crítico. Manda dizer quando nos voltaremos a encontrar."
Mas quando nos encontramos ele parece esquecer o que escreveu e pintou, desinteressa-se do meu senso crítico, a sua conversa ronda em torno do sem-fim de achaques e incómodos que o afligem.
De modo que a nossa amizade ganhou um toque surrealista: parece viva na ausência, mas assim que nos vemos, só à custa de muito boca a boca consigo eu evitar que ela faleça.
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Publicado no CM



quarta-feira, setembro 7

Lotarias

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O meu apreço por provérbios é reduzido, mas este –"'Quem pensa não casa, quem casa não pensa." - desencadeia umas quantas reflexões.
Com a actual liberdade de costumes, a queda de tabus, e a desvalorização de certas regras sociais, o matrimónio não necessita de ser a cadeia que foi, e tantas vezes é. Mas mesmo no melhor dos casos, uma simples estatística o confirmará, a união de duas pessoas apresenta um tal nível de risco que o bom senso a desaconselharia.
As perspectivas do reverso, todavia, são igualmente desanimadoras. Mais do que nunca, a situação de solteiro oferece hoje tantos lados aprazíveis, que mal se acredita que alguém a queira trocar por uma vida a dois. Contudo, passada a fugidia juventude, além de que se põe mais agudo o problema da solidão, começa a desfilar o cortejo das ocasiões perdidas, das possibilidades desprezadas, dos erros e dos enganos, das faltas de coragem. E muito forte terá de ser quem, dobrado o cabo dos quarenta, descobre à sua volta o vazio e não se atemoriza com a visão de um futuro a sós.
Isto, porém, são apenas especulações numa madrugada sombria, pois cada caso é único, cada caso pode fugir à regra. De modo que a conclusão mais sensata talvez seja a clássica, a de comparar o casamento à lotaria: alguns bilhetes têm prémio, outros a terminação, e a maioria sai em branco. 

 

terça-feira, setembro 6

Trafulha, sorna, mandrião

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Astuto,  trabalhador incansável, nascido em família que há gerações, e muito bem, vive do comércio, o meu amigo diz do povo o que Mafoma não disse do toucinho, e aumenta a dose.  O povo é mandrião, trafulha, ignaro, sorna, medroso, cobarde, vive para comer e fornicar, não tem espinha dorsal.
Horrores de Estaline, torturas de Mao,  bairros de lata, fome e miséria, o povo merece tudo isso e mais. Culpa sua.
Com menos paixão nos argumentos, também eu tenho os meus cavalos de batalha, mas como me esforço por avaliar prós e contras, tornei-me incapaz de arrebatamentos, raro vou  mais além do que franzir as sobrancelhas.
Não me agradaria que pudessem fazer de mim um retrato como o que pinto do meu amigo, mas tenho-lhe inveja, pois é muito o que me apeteceria desancar, pôr a nu a desfaçatez, a pulhice, o desdém pelo semelhante, a arrogância dos que se crêem com poder, os que julgam ter recebido do Alto, e em exclusivo, o que aos mais é negado.
Infelizmente, para minha frustração fico-me pelas palavras, que aliás ninguém ouve, porque as guardo para mim.
O que é natural, pois também sou do povo. 
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Publicado no CM


quinta-feira, setembro 1

Preto e cinzento

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De modo geral e tendo a cabeça sã, numa situação de paz e relativa harmonia a norma é, ou pelo menos supõe-se, que desejemos ser bons, cumpridores, obedientes à lei, conhecendo a quem e quando se deve respeito, e na posse de umas tantas qualidades que daí derivam.
O problema ocorre ao enfrentarmos situações extremas da vida, e são inúmeras as que surgem com as guerras, os desastres, a perda dos que nos são queridos, as traições do amor e da amizade, os grandes desesperos, as tragédias.
Nesses momentos, e para todos, é então válida a frase de Graham Green: "Human nature is not black and white, but black and grey".