quinta-feira, julho 28

Perguntas

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Corriqueiras, importantes, necessárias, inúteis, impertinentes, a vida de todos nós é uma série infinda de perguntas. As respostas são em grande parte neutras ou imprecisas, tendenciosas, jesuíticas, de modo que pedir uma opinião, perguntar um caminho ou querer saber um motivo, pode resultar em estranhos quiproquós e nos desacertos ilustrados pela clássica conversa de surdos.
Há ainda as perguntas que por razões várias se não fazem, ora porque tememos a resposta, ou pelo conforto que a ignorância oferece. Doutras justamente se dirá que de maneira nenhuma têm a ver connosco, são apenas coscuvilhice.
É assim que, desde o atentado de Nice, quando li que, dois dias antes, o assassino tinha transferido cem mil euros para a sua família na Tunísia, me pergunto: era ele terrorista fanático, convicto da sua razão, ou um assassino a soldo a quem o "serviço" foi encomendado? É possível que um modesto chofer de entregas acumule semelhante pecúlio?
Perguntas tenho sempre muitas. Não só sobre Nice, outros atentados, tragédias, desgraças, desigualdades, a cobarde sociedade em que vivemos, mas não é a mim nem a ti que darão resposta, se por acaso a souberem.

quarta-feira, julho 27

Opiniões

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Respeitar as opiniões alheias é um dever fácil de cumprir, compreendê-las é que por vezes requer esforço, delicadeza, paciência, boa vontade. O problema dá-se quando nelas é evidente a ganância, a mesquinhice, o pequenino interesse, a falsidade, a cobardia.
Daí que pouco a pouco nos vamos (me vou) dando conta da inutilidade de discutir, quando a discussão espelha convicções e estados de alma que é melhor e mais saudável ignorar.

terça-feira, julho 26

Voyage au bout de la nuit


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Seis décadas atrás e foi um choque, o sentimento de que era estranhamente diferente de tudo o que até então tinha lido. Assustou-me, deu-me uma insegurança de que nunca mais me livrei, e se vezes sem conta me prometi relê-lo faltou-me a valentia, tornei a fechá-lo.
Mas continua a ser bitola. Por isso lhe pego agora, na esperança de descobrir se nalguma coisa melhorei desde os meus vinte e sete anos, ou se continuo às voltas no caminho errado.

segunda-feira, julho 25

São férias

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Deixando para trás o braseiro transmontano, faz duas semanas regressei, seguindo a rota do costume: Estevais, Magaz de Pisuerga, Poitiers, Paris, Amsterdam.
No sentido contrário havia filas de quilómetros, gente fora dos carros torrando ao sol, com o ar de náufragos à espera de água e socorro.
A esta "actividade" chamam férias.

domingo, julho 24

As orelhas em ponta

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Os sorrisos são os mesmos, as pessoas continuam a falar-lhe como dantes, uma ou outra diz que o tempo passa depressa, já lá vão dez anos, pergunta se ainda aguenta o trabalho no lar. Depois é bom-dia ou boa-tarde, adeusinho, parece o costume mas há mudança, Matilde tem a certeza de que lhe escondem qualquer coisa.
Não escondem. Ganharam-lhe medo, desde a tarde em que no café anunciou que o senhor Adriano não durava, e ele faleceu na noite seguinte. Depois foi a mãe do Fonseca, o tio da Sabina, a avó do Antero, a avó da Mariana.
Quiseram saber se era dom,  e ela tinha-se zangado. Qual dom, qual carapuça, qualquer um podia ver. Quando os idosos começavam a ficar com as orelhas em ponta, era sinal que nunca falhava: poderiam aguentar o dia, mas da noite não passavam.
No café, quando ela não está, ainda gracejam, mas dentro de casa deixou de haver paz. Embora ninguém toque no assunto, involuntariamente vão os olhos dos novos para as orelhas dos anciãos. E estes, fingindo que não dão conta nem acreditam no que a Matilde diz, evitam o espelho.
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Publicado no CM e aqui.

sexta-feira, julho 22

O silêncio e o sorriso

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Grande coisa deve ser o ter sempre razão. Grande coisa haver no mundo uma tão grande massa de gente cheia de certezas, pronta a julgar, a decidir o como deve ser  disto e daquilo, o bom caminho, a única solução.
Sempre de dedo apontado, o seu número é sem conta, e também sem conta é a infelicidade que os aflige, desmedido o sofrimento que lhes causa a impotência de corrigir os outros, puxá-los para o rebanho, obrigá-los a acertar o passo.
Essa gente sempre me causou incómodo. Por vezes, impaciente com a ladainha, a alguns escouceei, mas o tempo ensinou-me que a brandura resulta melhor, pelo que agora, rangendo os dentes, me guardo com o silêncio e o sorriso.