quarta-feira, julho 13

Pokémon Go

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De que adianta tanto falatório, tanto comentário, tanta certeza duns e pessimismo doutros? De que adianta prenunciar este a catástrofe, garantir  aquele que sempre se dará um jeito?
Ao fim e ao cabo todos sabemos onde o sapato aperta, como também sabemos  que sapateiro nenhum será capaz de encontrar forma que se acomode aos nossos dolorosos calos.
E assim vamos indo a caminho da sociedade do cidadão descartável, com sobra de direitos mas de barriga vazia, procurando consolo nos pitéus da televisão, tendo por sonho uma vitória no Pokémon Go.

terça-feira, julho 12

O celibato da culpa

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O futebol diverte, distrai, alegra, emociona, mas não cura dores nem paga dívidas. Por isso, pelo menos em mim, as sombras de hoje fazem diminuir a alegria que senti no domingo, põem-me de pé atrás para as promessas de que tudo vai bem, não acontece nada.
Como me importam muito as consequências, pouco se me dá que queiram casar a culpa, ou insistam em dizer que ela ainda prefere o celibato.

segunda-feira, julho 11

O martírio do beijo

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Tudo tem a sua hora e modo, princípio que deveria também valer para o  ritual do beijo, seja de amor, ternura, cortesia, ou aquele a que Judas deixou ligado o seu nome.
O caso é que, numa sociedade de esbanjamento, o desperdício se aplica a quase tudo. Começa pelos objectos, passa para os sentimentos, as maneiras, sabe Deus que mais. Assim, por exemplo, aquele saltar que em tempos era apenas típico dos Zulus, vê-se hoje em tudo quanto é festival, mas sem a elegância que essa tribo mostrava. O beijo, por sua vez, que tirante nas febres da alcova era um roçar de lábios pelas faces, as mãos das senhoras, os anéis dos bispos e os pés das imagens de Cristo, tornou-se um gesto banal, inflacionado, e por vezes, como no caso dos pais que beijam os filhos nos lábios, ganhando suspeitas de incesto.
Eu, que há anos não ia à missa e ontem assisti a uma do sétimo dia, surpreendeu-me, no final, ver-me rodeado de estranhos a beijar-me as faces, idosas que pareciam sugá-las, anciãos a esfregar nelas a bigodeira.
Saí dali em pecado, perguntando-me o que pensará o Senhor de tanto beijo.
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Publicado no CM

quarta-feira, julho 6

A perder amigos

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Ando a perder amigos. Não acontece pela primeira vez, que a minha longa vida abre essa possibilidade, o curioso é haver no fenómeno uma regularidade estatística, como também é regular o desenvolvimento, duração e fim de certas amizades, dependentes que parecem ser da minha inabilidade para aceitar que nelas, como em certas formas de negócio, haja que dar desconto, "compreender", ser pronto na esponja, cultivar a amnésia.
Para meu mal dá-se o caso de ter nascido e crescido pão pão queijo queijo, de modo que a alguns amigos quase poderia, como se faz aos produtos, atribuir datas de validade, tanto o seu procedimento se conforma à forma corriqueira de que não há amizade sem proveito.
Felizmente, nem sequer tenho necessidades ou aflições, porque esses que vou perdendo são dos que diriam: "A friend in need is no friend of mine."

terça-feira, julho 5

Desligados

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"Quando deixamos de produzir coisas, quando nos refugiamos no mundinho higiénico dos serviços, dos open spaces e da economia virtual das apps, perdemos a pulsão vital, perdemos uma bússola moral, perdemos o norte. A indústria não é apenas um fator económico, também é elemento moral e social. Uma sociedade que desconhece o labor industrial é uma sociedade decadente e egocêntrica; uma civilização que se limita a consumir no conforto da economia dos serviços é uma civilização alienada e apolítica. É alienada porque no final do dia o homem precisa de sentir que fez qualquer coisa de palpável. É apolítica porque só a indústria, seja ela qual for, pode dar chama comunitária à sociedade. A overdose de serviços e de trabalho individual ao ecrã de um computador está a desligar-nos uns dos outros. Não é por acaso que os laços de cidadania estão fracos; não é por acaso que há novos populismos a tentar preencher esse vazio."
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Henrique Raposo na revista Exame, Julho 2016.

segunda-feira, julho 4

Violência doméstica

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Na solidão da noite, cigarro após cigarro,  Mónica salta na internet dum para outro site, imaginando como por detrás do ecrã são milhões os mundos, milhares de milhões as ansiedades, as esperanças, as vontades de amar, os medos de perder, sofrer, destruir, tantos os desejos como as impotências, talvez mais as desigualdades do que as harmonias.
Olha com desprendimento, nada que a anime ou interesse, retendo uma palavra, um rosto, compassos de música, demorando três segundos numa paisagem, na miséria colorida e espectacular de bombas que explodem, gritos, sangue, gente a correr.  Festejos. Ciclones. Inundações na Alemanha.   
Ouve-o tossir no quarto. Dá-se conta de que passa das três. Vai à janela e olha a rua, na expectativa que algo aconteça. Param carros no semáforo. Já não chove. Há janelas iluminadas no prédio fronteiro. Sete. Conta de novo. Sete. Olha como se estranhasse estar ali e desliga o computador, apaga a luz.
Decidiu que irá deixá-lo. Acende outro cigarro, hesitando se o acorda e lho diz  agora, ou ao pequeno-almoço.
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Publicado no CM.