segunda-feira, julho 4

Violência doméstica

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Na solidão da noite, cigarro após cigarro,  Mónica salta na internet dum para outro site, imaginando como por detrás do ecrã são milhões os mundos, milhares de milhões as ansiedades, as esperanças, as vontades de amar, os medos de perder, sofrer, destruir, tantos os desejos como as impotências, talvez mais as desigualdades do que as harmonias.
Olha com desprendimento, nada que a anime ou interesse, retendo uma palavra, um rosto, compassos de música, demorando três segundos numa paisagem, na miséria colorida e espectacular de bombas que explodem, gritos, sangue, gente a correr.  Festejos. Ciclones. Inundações na Alemanha.   
Ouve-o tossir no quarto. Dá-se conta de que passa das três. Vai à janela e olha a rua, na expectativa que algo aconteça. Param carros no semáforo. Já não chove. Há janelas iluminadas no prédio fronteiro. Sete. Conta de novo. Sete. Olha como se estranhasse estar ali e desliga o computador, apaga a luz.
Decidiu que irá deixá-lo. Acende outro cigarro, hesitando se o acorda e lho diz  agora, ou ao pequeno-almoço.
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Publicado no CM.

sexta-feira, julho 1

A Aspirina

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A modo de homenagem, e recordando, porque o simpático senhor que lhe deu origem faleceu ontem, repete-se este texto publicado em 6 de Junho de 2009.

É como num teatro. Sorridente, vem a acenar com uma casca de árvore:
- Ora diga-me lá o que é isto.
- É uma casca de árvore.
- Muito bem. Mas de qual? De que árvore é que será esta casca?
Não se lhe leva a mal o modo enfático, nem a cansativa repetição do "Sou autodidacta, mas posso pedir meças a muito doutor que anda por aí!"
Foi camionista em Moçambique, depois empresário, salvou-se a tempo e vive dos rendimentos.
Entrega-me a casca:
- Pegue-lhe. Estou a ver que não sabe. Nem o que é, nem para o que serve. E estudou! Olhe que eu posso ser um autodidacta, mas peço meças a muito doutor! Então?
- De árvores entendo pouco.
- Pois isto é casca de salgueiro. Com esta casca já os gregos da antiguidade faziam chá para as dores de cabeça! Foi daqui, tome nota, foi daqui que saiu a Aspirina! Mas quem inventou a Aspirina?
- Procurando no Google…
- Google coisa nenhuma! A Aspirina foi descoberta em 1897 por um químico alemão, Félix Hoffmann! E eu tive a honra de conhecer o neto desse senhor. Tive a honra de o ouvir contar como o avô…

Ai que lá vem a muito repetida história! Salva-me a carrinha dos CTT. O jovial senhor Afonso abre a janela, diz que traz um registo e é preciso assinar.

quarta-feira, junho 29

Nós e as quadrilhas messiânicas

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Lê-se e dói:

"Essa harmonia que parece reinar na engrenagem social portuguesa é uma harmonia toda fictícia. A nossa organização social é uma organização mentirosa, sem estabilidade, sem unidade, uma ficção de engrenagem civilizada, encobrindo a torpeza dum parasitismo desenfreado e impudente."

"Em Portugal não existe o egoísmo da nação vencendo e disciplinando o egoísmo de cada português. A nossa vida política, económica e moral não tem sido senão uma série lastimosa de actos de egoísmo individual impondo-se despoticamente ao egoísmo colectivo, ao interesse da nação, e subjugando-o."

"As quadrilhas messiânicas bebem-lhe o sangue e vendem-lhe o pão por um preço fabuloso. E esse povo humilde, secularmente escravizado, intrepidamente, com uma heroicidade animal que só a ignorância dá, deixa-se sugar, deixa-se morrer de fome, e, quando não se resigna a morrer de fome – emigra."

"Não compensar o trabalho é aniquilar o estímulo de trabalhar. E até certo ponto, se não é justo, é pelo menos explicável que homens, que em outros meios seriam prodigiosas fontes de riqueza e de progresso, respondam invariavelmente aos que os incitam a fazer qualquer coisa: "Não vale a pena."

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Manuel Laranjeira     (1877-1912)
Miguel de Unamuno   (1864-1936)


terça-feira, junho 28

Boa vizinhança

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Manhosos, sornas, virulentos, entremeiam sorrisos quando falam do tempo, mas são como doninhas, prontos no morder. É cansativo tratar com eles, porque obriga a aceitar-lhes o teatro, ter de falar no mesmo tom, sofrendo que as palavras percam o significado e se transformem em mero barulho, tudo um fingimento, rasteiras mesquinhas, ganâncias de tostão, a cada pausa uma vontade de os mandar àquela parte e, contudo, manter o sorriso, fingindo boa vizinhança até que haja uma aberta e, com um suspiro de alívio, se lhes possa virar as costas.

segunda-feira, junho 27

Explicar o Vara

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A trabalhar a terra desde os catorze, tendo por única riqueza os braços e boa saúde, até há uma semana o senhor Adriano era um ancião acomodado com o seu destino, colhendo alguma paz ao folhear a caderneta e certificar-se dos seis mil duzentos e trinta e dois euros e sessenta e três cêntimos que são a sua poupança da vida inteira.
Mas desde que a televisão fala nos perigos da Caixa, que a situação está tremida, e com certeza todos vamos ter de pagar, o senhor Adriano vive no terror de que  o seu diminuto pecúlio desapareça, e nem sobre dinheiro para lhe pagarem o enterro.
Ontem veio pedir-me que lhe explicasse como é que pode ser, que razão haverá  para que o governo deixe à solta os que tinham metido a mão no saco. E em voz baixa, receoso, perguntou se teria sido o Vara, de quem se lembra bem, porque às vezes o atendia ao balcão da Caixa, em Mogadouro.
Respondi-lhe que não se sabe, a Justiça terá de deslindar, mas ele, perdido a remoer os seus medos, não me ouvia, demorou com a última pergunta:
- Mas diga-me lá, como é que um sujeito chega àquelas alturas?
Foi a minha vez de ficar calado. 
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Publicado no CM