quarta-feira, junho 29

Nós e as quadrilhas messiânicas

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Lê-se e dói:

"Essa harmonia que parece reinar na engrenagem social portuguesa é uma harmonia toda fictícia. A nossa organização social é uma organização mentirosa, sem estabilidade, sem unidade, uma ficção de engrenagem civilizada, encobrindo a torpeza dum parasitismo desenfreado e impudente."

"Em Portugal não existe o egoísmo da nação vencendo e disciplinando o egoísmo de cada português. A nossa vida política, económica e moral não tem sido senão uma série lastimosa de actos de egoísmo individual impondo-se despoticamente ao egoísmo colectivo, ao interesse da nação, e subjugando-o."

"As quadrilhas messiânicas bebem-lhe o sangue e vendem-lhe o pão por um preço fabuloso. E esse povo humilde, secularmente escravizado, intrepidamente, com uma heroicidade animal que só a ignorância dá, deixa-se sugar, deixa-se morrer de fome, e, quando não se resigna a morrer de fome – emigra."

"Não compensar o trabalho é aniquilar o estímulo de trabalhar. E até certo ponto, se não é justo, é pelo menos explicável que homens, que em outros meios seriam prodigiosas fontes de riqueza e de progresso, respondam invariavelmente aos que os incitam a fazer qualquer coisa: "Não vale a pena."

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Manuel Laranjeira     (1877-1912)
Miguel de Unamuno   (1864-1936)


terça-feira, junho 28

Boa vizinhança

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Manhosos, sornas, virulentos, entremeiam sorrisos quando falam do tempo, mas são como doninhas, prontos no morder. É cansativo tratar com eles, porque obriga a aceitar-lhes o teatro, ter de falar no mesmo tom, sofrendo que as palavras percam o significado e se transformem em mero barulho, tudo um fingimento, rasteiras mesquinhas, ganâncias de tostão, a cada pausa uma vontade de os mandar àquela parte e, contudo, manter o sorriso, fingindo boa vizinhança até que haja uma aberta e, com um suspiro de alívio, se lhes possa virar as costas.

segunda-feira, junho 27

Explicar o Vara

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A trabalhar a terra desde os catorze, tendo por única riqueza os braços e boa saúde, até há uma semana o senhor Adriano era um ancião acomodado com o seu destino, colhendo alguma paz ao folhear a caderneta e certificar-se dos seis mil duzentos e trinta e dois euros e sessenta e três cêntimos que são a sua poupança da vida inteira.
Mas desde que a televisão fala nos perigos da Caixa, que a situação está tremida, e com certeza todos vamos ter de pagar, o senhor Adriano vive no terror de que  o seu diminuto pecúlio desapareça, e nem sobre dinheiro para lhe pagarem o enterro.
Ontem veio pedir-me que lhe explicasse como é que pode ser, que razão haverá  para que o governo deixe à solta os que tinham metido a mão no saco. E em voz baixa, receoso, perguntou se teria sido o Vara, de quem se lembra bem, porque às vezes o atendia ao balcão da Caixa, em Mogadouro.
Respondi-lhe que não se sabe, a Justiça terá de deslindar, mas ele, perdido a remoer os seus medos, não me ouvia, demorou com a última pergunta:
- Mas diga-me lá, como é que um sujeito chega àquelas alturas?
Foi a minha vez de ficar calado. 
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Publicado no CM

domingo, junho 26

Se o vento muda

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Fácil é a queixa, o deitar culpas, o papel de vítima, encontrar razões para o que  desagrada e desaponta. Fácil também é o encolher de ombros ou o virar as costas, o desinteresse, a ladainha do não tenho a ver.
Só que a vida, o dia-a-dia, não se comove nem se interessa, não dá contas, desconhece garantias, prossegue num implacável desfiar de hábitos e contratempos, alegrias passageiras, dores fundas.
Por isso de nada serve a ilusão de ser timoneiro, o esforço de calcular bem a rota: muda o vento, vai a barca ao fundo.

sábado, junho 25

Exagerei

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Exagerei, e por certo não será a última vez. A desculpa que me dou é que, uns atrás dos outros, foram ( e vão ser) dias de bombardeamento de opiniões, comentários, absurdas  certezas, e ao fim o cansaço vence, ao de cima fica a irritação causada pelos sabichões de vária estirpe. 
Hoje, felizmente, dois textos ajudaram-me a acalmar, e quase esquecer a enxurrada de opiniões que li e ouvi nos últimos dias. Ambos são de amigos, ambos os autores mereciam - e não só neste caso – um público vasto, já que não abunda gente que na nossa terra pense e escreva com a clareza de Rui Ângelo Araújo e Nelson Campos Rebanda. É lê-los aqui e aqui.

sexta-feira, junho 24

Brexit

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A saída do Reino Unido da EU é daqueles momentos em que não há bicho careto que não tenha a sua a dizer, armados todos em especialistas, profetas,  comentadores, tarólogos, este mais cheio de conhecimento e chança do que aquele, passando-se todos diplomas de competência com um afã que apenas traduz o risível desejo de notoriedade.
Em ocasiões assim vem à tona a frase de John Cheever no seu romance "Bullet Park": "Opinions are like assholes. Everybody has one and they all smell"

quinta-feira, junho 23

O perito

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Cheio de "vocês" e de "pois", a voz ao nível de estádio ou Rock in Rio, o senhor veio compor os canais, a antena, falando com autoridade de sargento acerca de filtros, satélites, graus e orientações.
Esquecia um parafuso ou falhava-lhe a recepção, aí largava um, também sonoro "Sacana, filho da puta!", deitando as culpas ao cujo, que ele há anos anda nisto, dá lições aos pataratas. Esses, quando se vêem aflitos, ajoelham mansinhos para o beija-mão, e ele, generoso mestre, explica então "tintim por tintim" o que os "caras de caralho" não aprendem, mesmo com "um par de pontapés no cu".
O satélite bem mandava o sinal, mas três horas de "Sacana, filho da puta!" não convenciam a antena, nem o receptor, nem os filtros, os canais, as orientações.
Disse então que sabia muito bem, onde estava a falha, já outras vezes lhe tinha acontecido: a aparelhagem não era nacional, nossa. "Portuguesa. Está a compreender? Tem de mandar pra lá, e eles que componham tudo."