domingo, julho 17
sábado, julho 16
Sem custo nem dor
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Atentados, tragédias, bombardeamentos, revoluções. Não é connosco e é longe, pode chocar, mas logo se muda de canal ou vira a página, retoma-se a conversa, porque os desastres alheios e longínquos não aliviam as nossas dores, não acodem às urgências, não resolvem os compromissos, não pagam as facturas.
Pode ser real e sincera a compaixão, mas vale o que vale,
mesmo quando acende velas, depõe coroas de flores e pinta slogans no rosto.
O atentado de ontem, a revolução de hoje, as bombas de
amanhã, não nos tocam, oferecem o pretexto de, sem custo nem dor, exibirmos a
nossa solidariedade.
quarta-feira, julho 13
Pokémon Go
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De que adianta tanto falatório, tanto comentário, tanta certeza duns e pessimismo doutros? De que adianta prenunciar este a catástrofe, garantir aquele que sempre se dará um jeito?
Ao fim e ao cabo todos sabemos onde o sapato aperta, como
também sabemos que sapateiro nenhum será
capaz de encontrar forma que se acomode aos nossos dolorosos calos.
E assim vamos indo a caminho da sociedade do cidadão
descartável, com sobra de direitos mas de barriga vazia, procurando consolo nos
pitéus da televisão, tendo por sonho uma vitória no Pokémon Go.
terça-feira, julho 12
O celibato da culpa
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O futebol diverte, distrai, alegra, emociona, mas não cura dores nem paga dívidas. Por isso, pelo menos em mim, as sombras de hoje fazem diminuir a alegria que senti no domingo, põem-me de pé atrás para as promessas de que tudo vai bem, não acontece nada.
Como me importam muito as consequências, pouco se me dá que queiram
casar a culpa, ou insistam em dizer que ela ainda prefere o celibato.
segunda-feira, julho 11
O martírio do beijo
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Tudo tem a sua hora e modo, princípio que deveria também valer
para o ritual do beijo, seja de amor,
ternura, cortesia, ou aquele a que Judas deixou ligado o seu nome.
O caso é que, numa sociedade de esbanjamento, o
desperdício se aplica a quase tudo. Começa pelos objectos, passa para os
sentimentos, as maneiras, sabe Deus que mais. Assim, por exemplo, aquele saltar
que em tempos era apenas típico dos Zulus, vê-se hoje em tudo quanto é festival,
mas sem a elegância que essa tribo mostrava. O beijo, por sua vez, que tirante
nas febres da alcova era um roçar de
lábios pelas faces, as mãos das senhoras, os anéis dos bispos e os pés das
imagens de Cristo, tornou-se um gesto banal, inflacionado, e por vezes, como no
caso dos pais que beijam os filhos nos lábios, ganhando suspeitas de incesto.
Eu, que há anos não ia à missa e ontem assisti a uma do
sétimo dia, surpreendeu-me, no final, ver-me rodeado de estranhos a beijar-me
as faces, idosas que pareciam sugá-las, anciãos a esfregar nelas a bigodeira.
Saí dali em pecado, perguntando-me o que pensará o Senhor
de tanto beijo.
………
Publicado no CM
quarta-feira, julho 6
A perder amigos
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Ando a perder amigos. Não acontece pela primeira vez, que a minha longa vida abre essa possibilidade, o curioso é haver no fenómeno uma regularidade estatística, como também é regular o desenvolvimento, duração e fim de certas amizades, dependentes que parecem ser da minha inabilidade para aceitar que nelas, como em certas formas de negócio, haja que dar desconto, "compreender", ser pronto na esponja, cultivar a amnésia.
Para meu mal dá-se o caso de ter nascido e crescido pão
pão queijo queijo, de modo que a alguns
amigos quase poderia, como se faz aos produtos, atribuir datas de validade,
tanto o seu procedimento se conforma à forma corriqueira de que não há amizade
sem proveito.
Felizmente, nem sequer tenho necessidades ou aflições,
porque esses que vou perdendo são dos que diriam: "A friend in need is no friend of mine."
terça-feira, julho 5
Desligados
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"Quando deixamos de produzir coisas, quando nos
refugiamos no mundinho higiénico dos serviços, dos open spaces e da economia virtual das apps, perdemos a pulsão vital, perdemos uma bússola moral, perdemos
o norte. A indústria não é apenas um fator económico, também é elemento moral e
social. Uma sociedade que desconhece o labor industrial é uma sociedade decadente
e egocêntrica; uma civilização que se limita a consumir no conforto da economia
dos serviços é uma civilização alienada e apolítica. É alienada porque no final
do dia o homem precisa de sentir que fez qualquer coisa de palpável. É apolítica
porque só a indústria, seja ela qual for, pode dar chama comunitária à
sociedade. A overdose de serviços e
de trabalho individual ao ecrã de um computador está a desligar-nos uns dos
outros. Não é por acaso que os laços de cidadania estão fracos; não é por acaso
que há novos populismos a tentar preencher esse vazio."
……….
Henrique Raposo na revista Exame, Julho 2016.
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