sexta-feira, junho 24

Brexit

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A saída do Reino Unido da EU é daqueles momentos em que não há bicho careto que não tenha a sua a dizer, armados todos em especialistas, profetas,  comentadores, tarólogos, este mais cheio de conhecimento e chança do que aquele, passando-se todos diplomas de competência com um afã que apenas traduz o risível desejo de notoriedade.
Em ocasiões assim vem à tona a frase de John Cheever no seu romance "Bullet Park": "Opinions are like assholes. Everybody has one and they all smell"

quinta-feira, junho 23

O perito

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Cheio de "vocês" e de "pois", a voz ao nível de estádio ou Rock in Rio, o senhor veio compor os canais, a antena, falando com autoridade de sargento acerca de filtros, satélites, graus e orientações.
Esquecia um parafuso ou falhava-lhe a recepção, aí largava um, também sonoro "Sacana, filho da puta!", deitando as culpas ao cujo, que ele há anos anda nisto, dá lições aos pataratas. Esses, quando se vêem aflitos, ajoelham mansinhos para o beija-mão, e ele, generoso mestre, explica então "tintim por tintim" o que os "caras de caralho" não aprendem, mesmo com "um par de pontapés no cu".
O satélite bem mandava o sinal, mas três horas de "Sacana, filho da puta!" não convenciam a antena, nem o receptor, nem os filtros, os canais, as orientações.
Disse então que sabia muito bem, onde estava a falha, já outras vezes lhe tinha acontecido: a aparelhagem não era nacional, nossa. "Portuguesa. Está a compreender? Tem de mandar pra lá, e eles que componham tudo."

quarta-feira, junho 22

A Rita de Hong Kong

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Vamos repetir, porque nunca é demais: temos na internet um imenso bem. E quando digo temos falo de você, de mim, dos portugueses todos, e também dos manchus, esquimós, indianos, dos brasileiros descendentes dos tupinambás, da Rita que mora em Hong Kong, do Azevedo que trabalha em Nancy. Em resumo: de todo o bípede racional que possui um computador e, através dele, se sente ligado ao mundo. E não é ilusão, não, está mesmo ligado, certeza que a mais do que um lhe destrambelha o raciocínio e torna, às suas horas, comentador político, sociólogo, terapeuta, activista dos moinhos de vento, fanático do pequeno-almoço de frutos vermelhos, economista, perito de surf, crítico literário. 
Para esta derradeira espécie, o crítico literário amador, seja homem, mulher, jovem ou geronte, vai o meu agradecimento, pois pouco há de tão divertido como a seriedade com que se promovem a juiz do trabalho alheio.

terça-feira, junho 21

та Зөндөө


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São prontos no pedir, imbatíveis no jeito, na cortesia, na escolha do fraseado. Mas uma vez satisfeito o pedido dividem-se grosso modo em dois grupos: o dos que beberam chá em pequeno e, sem rodeios nem salamaleques, agradecem, e os que nunca mais dão sinal, nem se sentem obrigados pelo que receberam.
Se se lhes aponta a malcriadez, é um gosto ver a mestria de que são capazes na desculpa e na mesura.
Que se.

segunda-feira, junho 20

Exigências

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Além de ser duro de orelha sou duro de cabeça, comigo é válido o ditado de que burro velho não toma andadura, pelo que mantenho o antigo hábito de falar com o coração na boca, fazendo apenas ressalva nalgumas ocasiões em que a franqueza possa magoar.
Talvez seja verdade, mas também pode ser apenas ideia que tenho, o caso é que cada vez mais me vejo obrigado a conter-me e calar, porque à minha volta crescem em desmesura as susceptibilidades.
Grupos, etnias (raças é tabu), ideologias, classes, clubes, associações disto e daquilo, partidos assim e assado, parece não haver bicho careto que não esteja cheio de razão, de direitos, exigências, todos a querer um excessivo bocado não sei bem de quê, atenção e respeito, sobretudo respeito, um respeito que de tanto ser exigido já nem como slogan tem efeito.

sábado, junho 18

A Arraia Miúda do Presidente

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A 10 de Junho o Presidente da República discursou como se esperava, e do modo que as "massas", de Abril ou de agora, apreciam ouvir.
A mim desagradou-me o tom bombástico de elogio ao "povo armado e não armado" que, "nos momentos de crise, quando a pátria é posta à prova" assumiu o "papel determinante." Não me desagradou menos aquele "Somos portugueses, como sempre triunfaremos."
Do Presidente da República espero que nos tome a sério, não venha passar a mão carinhosa sobre a cabecinha da "arraia miúda que soube compreender os sacrifícios e privações em favor de um futuro mais digno e mais justo. O povo, sempre o povo, a lutar por Portugal."
Pergunto-me: estaremos a falar do mesmo país e do mesmo povo, Senhor Presidente? Será que lutar é sinónimo de sofrer?
Mas não se abespinhe Vossa Excelência: com quatro décadas de patacoadas e governação de compinchas, um destes dias temo-lo a segurar as rédeas. Talvez então sem motivo para um discurso bombástico, mas de certeza a apelar de novo para a arraia miúda, a tal que sabe "compreender os sacrifícios e privações."
......
Publicado no CM.

quinta-feira, junho 16

Impossível contar

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São boas histórias, mas impossíveis de contar, logo iriam reconhecer Fulano e Sicrano, o filho da outra, a que dizem que fez isto, aquilo, dormiu com o pai, vai casar pela quarta vez.
Deste fazia-se um bom retrato, anotando a voz fininha, a moleza do aperto de mão, o jeito de desviar os olhos, a fama de pedreiro-livre, o arrastar dos pés a parecer que lhe faltam os joelhos.
Àqueloutro há anos que se lhe dão poucos dias, macerado como é o seu aspecto de defunto, as faces escaveiradas e febre nos olhos, os lábios amarelados pela bílis raivosa que ao mesmo tempo lhe escapa da vesícula, do coração e pelos cantos da boca.
No rosto desta anciã lê-se a inveja em estado puro, irracional, venenosa que nem cuspe de víbora, fatal no contacto. Ao sair da igreja ainda vem de mãos postas, o olhar vesgo é que a trai, quem a cruza muda instintivamente de passeio e esconde no bolso a figa que faz com os dedos.

segunda-feira, junho 13

Foi do coração

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Demos os pêsames, assistimos à missa e lá seguimos no enterro, em cada rosto a apropriada expressão de dor. Mal seria se se pudesse ler o que nos ia no peito, a pena que dá levar para o cemitério um jovem que merecia outro destino.
Outra destino, e pais menos cegos na idolatria, acobardados no medo de não fazerem o bastante, não o mimarem o suficiente, assustados com as tosses, o nervosismo, fechando os olhos às bebedeiras, contentes de o verem moderno, tatuado, o cabelo pintado de azul e amarelo.
Tinha-se inscrito num desses institutos onde ensinam curiosas matérias, e se dispensam igualmente curiosos diplomas. Dizia-lhes que aquilo era o futuro, e que ele o garantisse bastava, não precisavam de ver, fora que era longe, para os lados de Santarém.
Deu cabo do BMW, compraram-lhe o Audi. Espaçava as visitas, a mãe enlevada com as batas brancas, que ele trazia para que lhas lavasse, a mostrá-las orgulhosa à vizinha, mais um ano ou dois e também ela ia ter um filho doutor.
Na sexta, quando chegou, pareceu-lhes mais magro. Na madrugada de domingo acharam-no na rotunda das bombas. Overdose.
Foi do coração, dizem os pais. Nós e a família repetimos: foi do coração.