sábado, junho 18

A Arraia Miúda do Presidente

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A 10 de Junho o Presidente da República discursou como se esperava, e do modo que as "massas", de Abril ou de agora, apreciam ouvir.
A mim desagradou-me o tom bombástico de elogio ao "povo armado e não armado" que, "nos momentos de crise, quando a pátria é posta à prova" assumiu o "papel determinante." Não me desagradou menos aquele "Somos portugueses, como sempre triunfaremos."
Do Presidente da República espero que nos tome a sério, não venha passar a mão carinhosa sobre a cabecinha da "arraia miúda que soube compreender os sacrifícios e privações em favor de um futuro mais digno e mais justo. O povo, sempre o povo, a lutar por Portugal."
Pergunto-me: estaremos a falar do mesmo país e do mesmo povo, Senhor Presidente? Será que lutar é sinónimo de sofrer?
Mas não se abespinhe Vossa Excelência: com quatro décadas de patacoadas e governação de compinchas, um destes dias temo-lo a segurar as rédeas. Talvez então sem motivo para um discurso bombástico, mas de certeza a apelar de novo para a arraia miúda, a tal que sabe "compreender os sacrifícios e privações."
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Publicado no CM.

quinta-feira, junho 16

Impossível contar

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São boas histórias, mas impossíveis de contar, logo iriam reconhecer Fulano e Sicrano, o filho da outra, a que dizem que fez isto, aquilo, dormiu com o pai, vai casar pela quarta vez.
Deste fazia-se um bom retrato, anotando a voz fininha, a moleza do aperto de mão, o jeito de desviar os olhos, a fama de pedreiro-livre, o arrastar dos pés a parecer que lhe faltam os joelhos.
Àqueloutro há anos que se lhe dão poucos dias, macerado como é o seu aspecto de defunto, as faces escaveiradas e febre nos olhos, os lábios amarelados pela bílis raivosa que ao mesmo tempo lhe escapa da vesícula, do coração e pelos cantos da boca.
No rosto desta anciã lê-se a inveja em estado puro, irracional, venenosa que nem cuspe de víbora, fatal no contacto. Ao sair da igreja ainda vem de mãos postas, o olhar vesgo é que a trai, quem a cruza muda instintivamente de passeio e esconde no bolso a figa que faz com os dedos.

segunda-feira, junho 13

Foi do coração

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Demos os pêsames, assistimos à missa e lá seguimos no enterro, em cada rosto a apropriada expressão de dor. Mal seria se se pudesse ler o que nos ia no peito, a pena que dá levar para o cemitério um jovem que merecia outro destino.
Outra destino, e pais menos cegos na idolatria, acobardados no medo de não fazerem o bastante, não o mimarem o suficiente, assustados com as tosses, o nervosismo, fechando os olhos às bebedeiras, contentes de o verem moderno, tatuado, o cabelo pintado de azul e amarelo.
Tinha-se inscrito num desses institutos onde ensinam curiosas matérias, e se dispensam igualmente curiosos diplomas. Dizia-lhes que aquilo era o futuro, e que ele o garantisse bastava, não precisavam de ver, fora que era longe, para os lados de Santarém.
Deu cabo do BMW, compraram-lhe o Audi. Espaçava as visitas, a mãe enlevada com as batas brancas, que ele trazia para que lhas lavasse, a mostrá-las orgulhosa à vizinha, mais um ano ou dois e também ela ia ter um filho doutor.
Na sexta, quando chegou, pareceu-lhes mais magro. Na madrugada de domingo acharam-no na rotunda das bombas. Overdose.
Foi do coração, dizem os pais. Nós e a família repetimos: foi do coração.

domingo, junho 12

Transmontana

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É transmontana, anónima, de certeza escreve poesia, de vez em quando manda-me a sua prosa:


"Por favor, não diga a ninguém: ando a arrebanhar cisquinhos de junho e a escondê-los, bem escondidinhos, num guardanapo de linho que trago no bolso. Falta-me o gorjeio da passarada, o estalejar das silvas no carreiro de cabras, o bafo quente da terra despida pelas segadas. Ainda não guardei a doçura espessa e macerada dos pêssegos  e as empoeiradas amoras bravias , humildes damas com as framboesas e as groselhas da frescura dos passeios ao entardecer. Ainda vai junho menino mas já mingado está por mim. Uns dez minutos agora, outros cinco depois e  a ampulheta mais solta. Até agora, ninguém topou. Tenho um niquinho de zumbido rasteiro, cigarras, formigas atarefadas, libelinhas, grilos, sapos, rãs a coaxar. Pus brincos de princesa de cerejas vivas de sangue, rubis a escorrer entre os dedos.
Vou  pedir a Santo Agostinho paciência para me aguentar até uma névoa húmida, gelada e de um pálido dezembro fazer junho brincalhão, gaiato, radioso, liberto da minha rodilha ensolarada, baú de dias que não são do tempo comum.
Ainda me falta uma lagartixa, uma daquelas que, furtivas e fugidias, se esgueiram entre as pedras soltas dos muros das caminhadas de junho. Quer ser meu cúmplice, meu senhor? Vamos apanhar lagartixas para em dezembro fazer junho?"

sábado, junho 11

Perigo

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Há perigo, e sério, quando ao começar o dia, e como que em estado segundo de aborrecimento, não podendo radiografar o que vai na cabeça, distraidamente se fotografam limões.

sexta-feira, junho 10

Ainda "O Meças"

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Belos dias soalheiros, feriado a calhar com o fim-de-semana, que adianta pôr-me a remoer as dores do mundo, as minhas, as dos meus, insistindo nas perguntas que há muito sei ficam sem resposta? 
E então, surpresa, chegam de longe palavras inesperadas e inteligentes, como se fossem do que raro se tem, um momento de boa conversa:
"… é natural que eles não gostem porque o Meças está-nos a dizer coisas desagradáveis. Está-nos a «atirar com coisas à cara» usando a expressão popular. Quando lemos que o personagem Meças humilha o filho e viola a nora, o que é que lemos? Que o filho foi a Lisboa à procura de emprego e não o encontrou. E que a nora fora daquela casa só vai encontrar indiferença e encolher de ombros. O que essa simples cena nos está a dizer é que não vale de nada legislarmos a proteger a mulher enquanto não formos capazes como sociedade de proporcionar meios de vida a cada um de nós para ter a autonomia necessária para se defender. A farronca legislativa de Lisboa sabe bem que é impotente para espalhar decência e justiça ao longo do território."

quinta-feira, junho 9

Nimm dich zusammen

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Por várias e complicadas razões a nossa família é poliglota, mas quem o ignora leva um susto ao ouvir de repente sons que pertencem a outras longitudes. E então é preciso traduzir, explicar, o que nem sempre é cómodo ou tarefa fácil.
Nimm dich zusammen. Controla-te? Tem paciência e não te excites? Acalma? São traduções possíveis, mas ficam aquém.
Perdeste a cabeça e escaqueiraste a torto e a direito? Então agora respira fundo, esquece a dor nas costa, curva-te e arrepanha os cacos. Nimm dich zusammen.



quarta-feira, junho 8

E há quem jure

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Finalmente tenho o título. O texto poderia sair dos andaimes, não fosse a necessidade de mais uma demão de tinta, reboco aqui e ali, betume a tapar as fendas, uma última inspecção aos alicerces.
O busílis é a primeira frase. A que lá está não serve, e por mais voltas que dê não encontro a que seja como deve ser, uma daquelas que a bem ou a mal agarre o leitor, o convença a ir por diante.
E dizer que há quem jure que escrever não custa, quando até uma única frase causa enxaqueca.

segunda-feira, junho 6