sábado, junho 11
sexta-feira, junho 10
Ainda "O Meças"
(Clique)
Belos dias soalheiros, feriado a calhar com o fim-de-semana, que adianta pôr-me a remoer as dores do mundo, as minhas, as dos meus, insistindo nas perguntas que há muito sei ficam sem resposta?
E então, surpresa, chegam de longe palavras inesperadas e
inteligentes, como se fossem do que raro se tem, um momento de boa conversa:
"… é natural
que eles não gostem porque o Meças está-nos a dizer coisas desagradáveis.
Está-nos a «atirar com coisas à cara» usando a expressão popular. Quando lemos
que o personagem Meças humilha o filho e viola a nora, o que é que lemos? Que o
filho foi a Lisboa à procura de emprego e não o encontrou. E que a nora fora
daquela casa só vai encontrar indiferença e encolher de ombros. O que essa
simples cena nos está a dizer é que não vale de nada legislarmos a proteger a
mulher enquanto não formos capazes como sociedade de proporcionar meios de vida
a cada um de nós para ter a autonomia necessária para se defender. A farronca
legislativa de Lisboa sabe bem que é impotente para espalhar decência e justiça
ao longo do território."
quinta-feira, junho 9
Nimm dich zusammen
(Clique)
Por várias e complicadas razões a nossa família é poliglota,
mas quem o ignora leva um susto ao ouvir de repente sons que pertencem a outras
longitudes. E então é preciso traduzir, explicar, o que nem sempre é cómodo ou
tarefa fácil.
Nimm dich zusammen. Controla-te? Tem paciência e não te
excites? Acalma? São traduções possíveis, mas ficam aquém.
Perdeste a cabeça e escaqueiraste a torto e a direito? Então
agora respira fundo, esquece a dor nas costa, curva-te e arrepanha os cacos. Nimm dich zusammen.
quarta-feira, junho 8
E há quem jure
(Clique)
Finalmente tenho o título. O texto poderia sair dos andaimes,
não fosse a necessidade de mais uma demão de tinta, reboco aqui e ali, betume a
tapar as fendas, uma última inspecção aos alicerces.
O busílis é a primeira frase. A que lá está não serve, e por
mais voltas que dê não encontro a que seja como deve ser, uma daquelas que a
bem ou a mal agarre o leitor, o convença a ir por diante.
E dizer que há quem jure que escrever não custa, quando até
uma única frase causa enxaqueca.
segunda-feira, junho 6
Questionário
Vai aqui, porque as perguntas e as respostas podem ser de
interesse para outros.
Questionário do
Grupo de Leitores da Faculdade de Psicologia e Instituto de Educação da
Universidade de Lisboa – 05 de Junho 2016
Onde vai buscar inspiração para construir um
personagem como o Meças: rude, pouco sociável, contraditório?
Creio que não
falaria de inspiração, antes de observação. O personagem do Meças ganhou vida
durante um período muito longo (neste caso cerca de treze anos), foi sendo
inconscientemente composto de retalhos e pontas soltas de acontecimentos,
casos, conversas, recordações.
Do modo como
trabalho tudo isso permanece caótico, e durante um certo tempo não passa à
escrita, no máximo tomo notas que nem sempre aproveito, porque sofro de um
genuíno medo de escrever, o qual resulta da certeza da insatisfação que
sentirei no final.
Se fosse possível
passaria a vida a reescrever os meus livros, e é essa a razão que deixo passar
muito tempo antes de voltar a abri-los.
De entre os romances que escreveu onde
colocaria o Meças, em que lugar, quer dizer, se o Meças está entre os livros
que gostou mais de escrever e de que gosta mais?
Desconheço o
"gostar de escrever", porque para mim o escrever é trabalho com uma
surpreendente percentagem de insatisfação e impotência. É muito difícil
encontrar a palavra certa, o diálogo que tenha naturalidade, o bom ritmo,
musicalidade, harmonia. O leitor raro se dá conta da verdade do que John
Banville afirmou numa recente entrevista ao Observador:
"Uma das coisas boas no romance é que é musical, é pictórico e
linguístico. Às vezes uma frase dança, pinta uma imagem. Não gosto do romance
enquanto forma, é desarrumado e aborrecido. Mas sei que é extraordinariamente
rico. Não mudaria o sentido de uma frase para acertar o passo com a música, mas
mudaria a música para que acertasse com a frase. A prosa tem que ser tão dura e
fria como o mármore sendo, ao mesmo tempo, tão suave como a carne e tão musical
quanto a voz."
Como reagiu à
crítica de António Guerreiro no jornal Público a este seu livro? Pensa que ele
foi justo e imparcial?
Primeiro
franzindo o sobrolho, depois com estranheza, e por fim remetendo-o para a
companhia dos críticos portugueses que a propósito do meu romance O Rebate(1971)
gargalharam que eu nem sequer sabia conjugar verbos (o dito romance é
considerado na Holanda uma obra prima, reeditado pela Quetzal em 2012 mereceu
grandes louvores); o então célebre e muito respeitado João Gaspar Simões
aconselhava-me no DN que deixasse a escrita e me dedicasse a outra coisa; na Colóquio-Letras
idem.
Claro que não
deixa de ser curioso o facto de, após mais de cinquenta anos de vida literária
e algum nome no meio, só depois da publicação de treze livros em nove anos António
Guerreiro me "descubra" e, em vez de dedicar a sua habitual coluna me
"honre" com página e meia.
Que o aborreça a
minha "híper-literatura", que ria do uso que faço de palavras que ele
diz já não se usarem (por certo nos salões que frequenta), que ajoelhe nos
altares de Lacan, Derrida, Barthes, Bourdieu e semelhantes, só lhe posso
desejar bom proveito.
Imparcial não
foi, e lá terá as suas razões. Inteligente ainda menos. Sério também não.
Em entrevista
recente ao Expresso afirmou que "limpa" muito os textos, reduzindo-os
ao essencial. Nunca deu por si a pensar, a posteriori, que possa ter
exagerado na limpeza?
É possível que
sim, que exagere na "limpeza", mas é a minha reacção aos livros
"gordos", escritos com as excessivas descrições e os detalhes que
eram necessários nos séc. XIX, mas supérfluos depois da descoberta do cinema e
do desenvolvimento das artes visuais. O bom leitor hoje dispensa, suponho, que
lhe façam a papa e lhe mostrem como engoli-la.
Há
"Meças" na Holanda ou estamos a falar de um espécimen com tal
particularidade de atributos que só habita Portugal e/ou Trás-os-Montes?
Evidentemente que
há tipos violentos por toda a parte, mas no meu entender o Meças é muito
português, muito transmontano, produto específico do lugar onde nasceu, e das
circunstâncias e maneira como foi
criado. É provável que também se pudesse situar na Calábria ou na
Sicília .
Poderia falar-nos um pouco mais acerca da
"Carla dos Copos"?
É uma figura
trágica, e como ela conheço muitas, que sacrificadas à ambição
paterna optam por um curso de que ao fim se dão conta de que é um beco sem
saída. A província está cheia desses escritórios de advogadas sem clientela,
raparigas que se encontram em simultâneo em várias prisões: a da família, a do
meio, a perspectiva de um futuro sombrio, a incapacidade de mudar.
Que sugestão faria de autores e/ou obras de
escritores atuais portugueses, para lermos e debatermos no grupo de leitura?
Pela
originalidade, a boa escrita, e o tema: As
Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral, Prémio Saramago 2015.
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