quinta-feira, maio 19

Recomendações

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Recomendaste, deixei-me levar pela amizade e entusiasmo, esqueci que nos separa mais de meio século, que em matéria de música fiquei pelos Beatles e Aznavour, que nunca leste Graham Greene, Maupassant, nem sequer As Pupilas do Senhor Reitor ou John, o chauffeur russo, e fiz então na Wook a encomenda do cinco vezes estrelado livro da senhora.
Deitei-me à leitura, surpreso de que Max du Veuzit esteja de volta,  perguntando-me que raio vês tu, e muitas muitas dezenas de milhar doutros, onde eu pasmo com a banalidade, a mediocridade da escrita e do sentir, aquelas confissões de adolescente pateta, mais o folclore da tão pitoresca pobreza.
Não estou zangado nem azedo, só triste. E da próxima vez que me recomendares um livro voltarei a lê-lo, com pouca esperança de que me agrade, apenas interessado em te conhecer melhor.

quarta-feira, maio 18

Guia de Amsterdam


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Vinha com a Sábado  da semana passada. Contribuí umas poucas páginas, mas posso dizê-lo com franqueza: é um excelente guia de Amsterdam.

terça-feira, maio 17

Blogues e diários

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A sério ou não, o blogue para mim é conversa, conversa imaginária. Fantasio interlocutores num café virtual, suponho neles qualidades de sabedoria, cultura,  inteligência, e uma atenção educada. Resumindo: um passatempo inócuo,  maneira de me imaginar no mundo, participando sem agravos nem aborrecimentos, de facto com mentalidade nada diferente da que, em criança, me levava a revolver os cobertores da cama, fantasiando a imponência dos Alpes.
Um diário é outra coisa. Entram nele dores e confissões, os momentos de paz, mas também as horas de raiva, os desesperos da impotência de nada poder consertar do que está errado, torto e retorcido, injusto. Para mim, escrever um diário fere mais do que alivia, porque intento, sem que me poupe, deixar nele o mais que consigo atingir de sinceridade no expor das minhas falhas.
Talvez pareça vislumbrar-se aí algo de ascese e depuração, mas o que de facto lá deixo são dolorosos ajustes de contas comigo mesmo. Fi-lo com Tempo Contado (1994-1995) e, uma segunda vez com Pó, Cinza & Recordações (1999-2000).
Anteontem comecei o que deve ser o último, pois por muito interessante. movimentada e surpreendente que uma vida seja – a minha tem sido – chegam sempre os momentos de inevitável fastio, o enfarte do déjà vu.

segunda-feira, maio 16

A farmacêutica e o lagarteiro

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É filha como poucas: a vida inteira dedicada aos pais e à farmácia que deles recebeu. Férias nunca teve, nem tempo livre, que o gasta todo no trabalho e no arranjo da quinta. Desde sempre, em Maio vão os três em romagem a Fátima.
Chegada aos cinquenta, nunca se lhe conheceu uma amizade, namoro ou paixão, o que as más-línguas explicam dizendo que deve ser culpa da postura desajeitada.
É verdade que os seus braços são como trancas, as pernas dois cepos, e bem escanhoa o bigode, não adianta, mas se ao menos desse um jeito ao cabelo em vez de gostar dele à escovinha, talvez ajudasse. Os pais assustaram-se na ocasião em que o pintou de azul e verde. Acabasse com aquilo, as pessoas eram capazes de não gostar e irem mais à farmácia do Magalhães.
Desde Fevereiro tem uma nova ajudante, a Glória, rapariga meiga com quem se fecha no gabinete para, como explicou às outras funcionárias, lhe ensinar o que ainda lhe falta de prática.
Em Março comprou o lagarteiro. O pai disse que era esbanjamento, mais valia tratar com o Sebastião o trabalho da lavra, mas ela insistiu e venceu. Sai com ele como quem vai a passeio pelas encostas. Gosta do ronco do motor, e quando pega nas alavancas e os dentes do arado se cravam na terra, sente como sua aquela força.

domingo, maio 15

Não há luz ao fim do túnel



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Ao inaugurar o túnel do Marão o Primeiro-Ministro cumpriu o ritual e discursou, mas podia ter-nos poupado as frases sobre oportunidades de desenvolvimento para Trás-os-Montes, novas estratégias, visões, impulsos à descentralização, ir tornar-se a província "a frente avançada para a afirmação da economia portuguesa no conjunto do mercado ibérico".
Dessas e doutras, bem soantes, cheias de promessas, já nós transmontanos temos a barriga cheia, há séculos que as ouvimos, com os resultados que conhecemos e estão à vista dos senhores políticos que deles queiram dar conta. 
E pode ser que se tenha calculado que "o PIB per capita da região é de 61% do da região do Grande Porto", mas a estatística é o que é, também neste caso uma entorse à realidade.
Já agora, se o Primeiro-Ministro calhar de visita por estas bandas, ou lhe apeteçam férias no antigamente, passado o túnel do Marão rode na A4 até Pópulo. Continue para nordeste com o IC5, onde esporadicamente cruzará outro carro. Meta depois por uma estrada secundária, não importa qual, e não se atordoe ao olhar em redor: ainda é Portugal, mas parece outro mundo.
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Publicado no CM

quinta-feira, maio 12

Eimear McBride


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Há muito tempo, e de longe, o livro que mais exigiu de mim como leitor. Mas fora de dúvida obra de génio, verdadeira revelação.