domingo, abril 24

Tetas, copos e talheres

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Em Janeiro, a notícia de que o Estado tinha gasto mais de 300 mil euros em talheres, levou a que um ou outro zelote franzisse o sobrolho, falando de esbanjamento.
Devo dizer que estranhei, pois esperava coisa superior, já que nos repastos oficiais tudo deve ser feito para vincar o brilho da nossa multisecular pátria, e como caprichamos em receber quem nos visita.
Trezentos mil euros? Achei pouco, quase mesquinhice. Talvez por isso, há dias, roído de inveja, li que a Turquia está a construir um palácio presidencial com 1.150 divisões, 63 ascensores, várias salas de conferências, uma mesquita para acomodar 4.000 fiéis, piscinas e muito mais. Para uso privado, o presidente Erdogan e os seus familiares disporão de 250 quartos.
O mármore dos soalhos? € 3.000 por m2. Os copos, incrustados de ouro? € 300 cada. Total? O governo diz 615 milhões, as más-línguas falam de 1.500 milhões. O presidente, esse proíbe o falatório, porque lhe repugnam as intromissões da plebe.
Talheres de 300 mil euros! Pobres de nós, que nunca mais teremos os Descobrimentos, o Brasil ou o Volfrâmio, e até a teta da UE, que Mário Soares nos entusiasmou a que a chupássemos, está quase sem leite.
 
 

sexta-feira, abril 22

Um país de medricas

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Porque o conheço há muito, o estudo, vivo nele, lhe quero bem, quando deixei de acreditar em epopeias e descobrimentos concluí que Portugal era, é, um país de medricas. Disse-o tempos atrás numa entrevista, houve quem não gostasse, pressupondo que onde há crítica há desamor.
Assim não é, nem me vou apoiar nas conclusões do ING, banco holandês gigante, que num recente estudo aponta ser Portugal – digamo-lo em palavras simples e sem melancólicas estatísticas – um país onde quase nada se mexe, as pessoas vivem e morrem no mesmo emprego (quando o têm), moram e morrem na mesma casa, existem no que parece uma cautela generalizada, mas nada mais é que o medo paralisante que toca a vida das pessoas e as instituições.
Curioso fenómeno, descubro-o também em jovens colegas. Embora talentosos, e até de gramática e vocabulário escorreitos, uma vez descoberto o que julgam ser a fórmula do sucesso, infindamente a repetem, caem no maneirismo.
E ai do tolo, como eu, que se arrisca a avisá-los de que tropeçar não é ir em frente: nunca mais lhe falam. O que não é grande perda.

quarta-feira, abril 20

O gongorismo

Luis de Góngora y Argote (1561-1627)

Vejo, oiço, leio. Ministros, deputados, comentadores, políticos em geral, todos parecem ter herdado a ubiquidade de Santo António.
As meninas do BE apontam o dedo, os comunistas erguem o punho, os restantes fazem assim, fazem assado, querem isto, recusam aquilo, mas o caso é que, estejam eles dentro ou fora, não há meio, força, jeito que ponha a gerigonça em bom e proveitoso andamento.
Pensando nisso e neles, não sei por que carga da de água me veio à lembrança o gongorismo, o extravagante estilo literário em que prima o mau gosto, cada duas palavras  um  superlativo, ornatos a torto e a direito, linguagem rebuscada e obscura, afirmações sem pés nem cabeça, mas sempre sonoras que baste.

terça-feira, abril 19

Gravatas e fatos topo de gama

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Se for à UE em Bruxelas, cuide de não andar por ali de boca aberta. Porque ele é o luxo das instalações, ele é o requinte da gastronomia, a seriedade dos rostos, a dinâmica das atitudes, um passar e repassar de mulheres que olham desdenhosas quem se atreve a julgá-las apenas "fisicamente apelativas".
As deslocações desses eleitos são feitas em carros topo de gama, mina de ouro que as empresas que asseguram o serviço vão perder, pois a UE quer um parque automóvel próprio.
Há argumentos de logística, mas sobretudo de segurança, pelo que vão também ser recrutados 110 motoristas idóneos, pois às vezes ficam documentos confidenciais esquecidos nos carros, e há o risco de vê-los cair em mãos alheias.
Os gastos aumentam de € 6.8 milhões para € 10.8, sendo reservados anualmente € 116.000 para os fatos, acrescidos de um subsídio anual de € 1.000,-- por motorista.
Porque houve quem estranhasse a largueza, a nota do Secretariado Geral - CSG D (2016) 619, 2 de Março - foi por enquanto deixada na gaveta, donde sairá em momento mais oportuno.


 

segunda-feira, abril 18

"Uma pessoa"

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É coisa pouca, uma frase inócua, mas quando a encontro  involuntariamente se me dispara na cabeça um instantâneo da mentalidade de quem a diz ou escreve.
Foi há muito que a ouvi a um sujeito por quem tenho pouco respeito, mau grado o estimem como prócere da cultura nacional. Com um sorrisinho, afirmava ele numa roda onde abundavam os admiradores, que só escrevia à mão, e a lápis, acrescentando: "Depois há uma pessoa que passa aquilo à máquina".
Noutra altura um poeta, também esse homem de fama, contava numa entrevista: "Sempre caligrafei, e há mais de trinta anos com esta Montblanc. Primeiro tinha alguém que me dactilografava os poemas, agora há uma pessoa que passa tudo para o computador."
A mais recente é da importante jornalista, dizendo ao entrevistador: "Eu não queria largar a minha Olivetti e depois havia uma pessoa que passava da máquina para o computador."
Uma pessoa, alguém. Sempre um humilde anónimo, em geral uma anónima, a trabalhar na sombra destes "grandes",  tão inchados de prosápia que só a si se vêem.