sexta-feira, dezembro 11

Três Maseratis? Vinte e oito relógios?

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O ex-director de uma cooperativa de habitação na Holanda, que se apoderou de uns milhões de euros, só se deslocava de Maserati, teve a pouca vergonha de mentir sob juramento a uma comissão parlamentar de inquérito. Ontem, no tribunal, os juízes levaram-lhe tudo isso a mal, com a agravante de  não mostrar remorso e quase se rir deles. Foi condenado a dois anos e meio de prisão.
Na China, onde também gostam de Maseratis, outro galo canta e é diferente a sentença, mas o que me transtorna  nisto é a cegueira da ganância: mudar de Maserati dia sim dia não? Ver em simultâneo as horas em vinte e oito relógios?
A notícia do chinês está no "Delito de Opinião" e com detalhe aqui.

quinta-feira, dezembro 10

Antolhos

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Nada adianta lastimar o tempo passado, as ocasiões perdidas, os sonhos que não se realizaram, os promissores amanhãs de sol que se esconderam em nevoeiro.
A teimosia sim, essa adianta, e muito. Faz o que em tempos antigos os almocreves faziam às muares: põe-nos antolhos, só deixa ver o que está defronte, impede a distracção de olharmos para os lados, perdermos tempo a atentar no que não é da nossa conta nem dá proveito.
Infelizmente, a refinada natureza humana desdenha da simplicidade das mulas:  quer ver tudo, até o impossível, e porque o não pode efabula lendas, mistérios,  perde-se em busca do que não existe, em vez de gastar forças no que devia: olhar em frente e puxar o arado.
 

quarta-feira, dezembro 9

Dostoïewsky


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Comecei por volta dos dezasseis anos com Irmãos Karamazov, depois Crime e Castigo, O Idiota, Humilhados e Ofendidos, O Jogador; aos dezanove comprei os dois volumes de Um adolescente e pareceu-me que bastava de Dostoïewsky. Só reli Crime e Castigo.

terça-feira, dezembro 8

Confidências


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Posso rir, achar que é tontaria, desequilíbrio, mau sinal para um pai e avô, mas diz que é mais forte do que ele, não compreende o fascínio que o faz babar-se com aquela publicidade da Nivea, ainda por cima de um desodorante.
Será que a rapariga lhe lembra alguém? Diz que não, nada, a falar verdade até nem a acha muito bonita, o que acontece é que…
E por aí se fica, fazendo estalar os dedos, o olhar no vazio, incapaz de responder, dando-me ideia de que espera que eu persista. Mas não lhe farei a vontade, guardo má lembrança de confidências que por amizade um dia aceitei, e resultaram naquelas arrevesadas complicações de que só a mente humana tem o segredo.
 

segunda-feira, dezembro 7

A simplicidade da aldeia

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 As boas histórias não se podem contar, porque para tirar delas todo o proveito se teria de revelar o lugar da acção, descrever o ambiente, os personagens, pintar deles  retratos fiéis, descer à minúcia dos tiques e das expressões, pôr a nu as taras que escondem.
No anonimato da cidade há a vantagem da ficção, mas os meios pequenos das vilas e aldeias são verdadeiro teatro ao ar livre, com a particularidade de que o que é representado no palco necessita de interpretação, é a modos de um enredo em que o real e o fictício se emaranham em episódios, em significados, voltas e  contravoltas, miragens, cenários em constante mudança.
Iludem-se os que acham complexa a vida na cidade, mas para seu descanso é bom que por lá fiquem, porque não aguentariam dois dias a chamada simplicidade da vida campestre.

sábado, dezembro 5

Tarados e loucos

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Nos anos 60 e 70 era grande o meu fascínio pelos personagens de tarados e loucos varridos que povoavam os filmes de cineastas italianos, mas uma coisa é olhá-los no ecrã, muito outra é tê-los perto e, pela força dessa circunstância, andar-se de pé atrás, ao mesmo tempo que se representa a farsa da amabilidade, pois com eles nunca se sabe de que lado sopra o vento. Parecem comedidos, corteses, mas no instante seguinte, porque desconfiaram do sorriso ou o tom das boas-tardes lhes desagradou, pronto reviram, e se não puxam de navalha lê-se-lhes nos olhos a sanha de Caín.
De vez em quando, em maré de calma e quase normalidade, um desses quer saber por que razão me mostro afastado ou de quem herdei o modo solitário. Avanço com o sorriso e guardo-me de palavras, se vir que é preciso faço de tolo.

sexta-feira, dezembro 4

Todos vizinhos

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As estatísticas do Sitemeter, que por razões misteriosas não consigo repor no blogue, contam-se entre as coisas que me  provocam espantos de criança.
Ultrapassam esporadicamente a média de 600 visitas diárias, mas desde há meses oscilam entre as 360 e as 420, supondo eu que isso resulte de imponderáveis e, em certa medida também, do acaso e do eventual interesse por um ou outro tema que aqui trate.
Todavia, o pasmo de que falo, e é muito genuíno, não deriva do número de visitantes, mas do fascínio que sinto de, neste momento, haver alguém que me lê em Yekaterinburg, nos confins da Sibéria, em Arruda dos Vinhos, Macau, Amsterdam, Bucareste, Funchal, Santa Bárbara de Nexe, Bruxelas, Gândara, Vialonga, Paris, Funchal, Venda do Pinheiro, Paris, Queluz, Orense, São Paulo, Almancil, Montreal, Antuérpia, Santiago do Cacém, Mechelen, Amadora, Figueira da Foz,  Wassenaar, Viena, Leiria, Macieira de Cambra…
Chamem-lhe pequenas alegrias, mas a verdade é que, sem entrar em Facebooks, me sinto com vizinhos por esse mundo fora, um mundo que já foi imenso, estranho, distante, mas hoje quase  me faz sentir que moramos todos na mesma rua.



 

quinta-feira, dezembro 3

Companhias

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 Lições não saberia dar, pois o que aprendi só para mim serve, embora duvide se também me traz algum proveito.
Sou companhia de poucas falas, não para forçar os outros a conversas ou opiniões, mas para me proteger do mal-estar que me toma quando uma frase, um arreganho, põem à mostra um quê de pulhice, uma subserviência, falta de carácter, e a cortesia me obriga a um sorriso todo de afabilidade, tornando-me cúmplice involuntário de modos que desprezo.