sábado, março 19

Saindo da hibernação

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Bons tempos, quando em 1965 o jovem Francisco Pinto Balsemão me convidou para escrever no Diário Popular.
Porque a Censura era o que se sabe, não havia maneira de publicar o que quer que fosse que cheirasse a crítica do regime. O subterfúgio que encontrei para contornar esse obstáculo foi a de escrever ditirambos sobre os vários aspectos da vida na Holanda, o que os censores devem ter considerado inócuo ou folclórico, pois nunca me cortaram uma palavra.
Elogiava a paisagem e o sistema escolar, os moinhos, a limpeza das ruas, a cortesia dos cidadãos, o funcionamento da burocracia, o civismo, a disciplina, com a esperança de dar aos leitores a oportunidade de fazer comparações. Duvido que tenha alcançado esse fim e, ao contrário do que esperava, pró ou contra nunca os meus artigos mereceram uma das "Cartas à Redacção".
Até ao dia em que, escrevendo sobre os benefícios sociais e o montante dos subsídios de desemprego, anotei que do mesmo modo de quem trabalhava, os desempregados recebiam também o décimo terceiro mês e tinham direito a subsídios de férias.
Caiu o Carmo e a Trindade nas "Cartas à Redacção". Se eu não tinha vergonha em escrever tanta mentira. Se julgava que os portugueses eram burros e iam engolir as minhas patranhas. O que eu merecia era um pontapé no bom sítio, inventando benefícios míticos no estrangeiro para apoucar a terra onde nascera.
Houve então mais do mesmo, e em 1969 achei que chegava, pus fim à   colaboração.
De meados de 1975 até 1978 escrevi para o Expresso. O país tinha mudado, o ambiente era bem outro, grande a esperança, mas porque há em mim demasiada curiosidade e algo que me leva a ir contracorrente, dos cerca de quarenta artigos, um pouco menos de metade não foi publicada, e explicações também não ouvi.
Convida-me agora o Correio da Manhã para escrever uma crónica semanal, e o sentimento que me toma é o de que acordo de uma longa hibernação.

sexta-feira, março 18

A intolerância

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O clube do outro é uma vergonha, o partido em que ele vota um nojo, as ideias que tem certificam-no atrasado mental, até a roupa que veste, o jornal que lê e a sua pronúncia o põem na craveira mais baixa.
Forte é o meu clube, sem mácula o partido a que me honro de pertencer. No resto do que sou, do que penso e faço, só os mal intencionados encontrarão defeito.
É sempre e infelizmente assim nas sociedades em atraso: não há espaço para outro, para as suas ideias, uma maneira diferente de olhar. Só nós merecemos o aplauso, a maneira de ser do outro pede cacetada.

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quinta-feira, março 17

Rabos de palha

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Ouvem-se as escutas de Lula e é quase enternecedor como os diálogos são comezinhos, caseiros, tu cá tu lá. Nada de palavras solenes ou explosões de raiva, mas os queixumes clássicos do acusado inocente, que não compreende como os que o serviam e bajulavam ontem mudaram para o adversário.
De teatro é também o pasmo dos que puseram nos cornos da lua o salvador do povo brasileiro, o que espalhava o maná, e agora se sentem chocados de que a máscara de generoso e sorridente mecenas escondesse um trampolineiro.
Por que demorarão esses sempre tanto tempo a decifrar os sinais? Cautela? Medo que se lhes veja o rabo de palha?

quarta-feira, março 16

Ainda cabemos



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 Somos muitos, ainda cabemos cá todos, mas é dramático o anseio dos tantos que julgam que ninguém os vê, e por isso empurram, insultam, amesquinham os outros, julgando que conquistam assim um lugar ao sol.
Espectáculo deprimente, o da inveja, tristes e terríveis devem ser as horas dos que julgam que os outros recebem o que a eles cabe, não por direito ou talento, mas porque simplesmente o desejam.
Que tragédia e tortura, a de viver assim, sentir assim, ser obrigado a manter as aparências, fingir de cordato e civilizado, quando por dentro é tanta a raiva.

terça-feira, março 15

Rilhafoles

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Há por aí quem se aflija com o ódio, a estupidez, a inveja, os insultos de que abarrotam as caixas de comentários, e o mais que a internet possibilita. Mas de facto não há de quê, até é de agradecer, porque pouco importa que se mantenham anónimos: eles e elas são os mesmos do sorrisinho pronto e do carinhoso abraço com que no dia-a-dia nos cruzamos.
Por isso sorria-lhes também e tenha caridade, porque é questão de tempo. Mais dia menos dia enfrentam a própria raiva e acabam aos gritos numa cama de hospital ou atrás das grades do Rilhafoles.
 

sábado, março 12

Polícia?

Polícia? Sim, poderia ter sido. Na passada quinta-feira falei disso com este inspector:


sexta-feira, março 11

É pena, mas há

http://www.cmjornal.xl.pt/cultura/detalhe/rentes_de_carvalho_ha_escritores_estupidos.html