segunda-feira, novembro 23

Portugal ao espelho

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Com tudo o que na sua vida pública e política acontece de rasteiro, torpe, vergonhoso, Portugal mantém a rara qualidade de só ver no espelho, não o que este reflecte de miserável, mas o alegre piscar de olho do trapaceiro, a arte do vigarista da vermelhinha, a certeza de que embora às vezes demore, está  provado que o chico-espertismo leva sempre a melhor.
É um país que dispensa legisladores que o corrijam ou juízes que o castiguem, mas para espanto das gerações vindouras está a pedir um Balzac que lhe retrate os personagens e a triste comédia.

sábado, novembro 21

Maluquice dos tempos

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Por volta do meio-dia, nos confins de Trás-os-Montes, algures na N220 está um carro da GNR parado na berma. Junto dele dois guardas, as mãos atrás das costas, passeiam para lá e para cá, visivelmente aborrecidos.
Mesmo ao lado, em volta de um grande assador, os bombeiros preparam-se para assar um leitão.
Ao contrário do que supus, os guardas não têm a ver com o churrasco. Estão a postos porque esta manhã um jiadista se evadiu da cadeia em Barcelona e eles receberam ordens de vigiar a fronteira.
Vigiar a fronteira? Ali? A ver se passa um jiadista fugido de Barcelona?
O Senhor se compadeça.
 

Luxos da aldeia


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Basta abrir a janela e colhem-se à mão.

sexta-feira, novembro 20

Sobre política

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Além de um bom termómetro para medir o calor dos sentimentos, as conversas sobre política têm quase sempre o desagradável efeito de revelar aspectos de carácter que pela paixão, a inesperada violência e o desequilíbrio, ganhariam em ficar no íntimo. Mas não senhor: a partir do momento em que defendemos uma outra visão, discordamos, nos mostramos avessos a cegueiras e idolatrias, não nos babamos por líderes, no geral dos interlocutores é como despertar neles uma raiva canina. Se não espumam da boca (alguns espumam) treme-lhes o corpo, agitam os braços, erguem o punho.
Raro discuto política, mas se ao acaso de uma conversa ou situação isso me acontece, atento nos sintomas, e mal o outro começa a erguer a voz, a apontar com o dedo, a franzir o lábio ao que discorda, não estou com cerimónias, aceno-lhe o adeusinho.

quinta-feira, novembro 19

A arte do insulto

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Muito temos e muito nos falta, mas a nós, portugueses, dava jeito se fôssemos mais competentes no humor e mais refinados na arte do insulto.
Folheando de há dois séculos para cá, encontra-se aqui e ali uma ou outra boa piada, um artista com bom desenho, mas são casos isolados que não fazem escola nem se lhes descobre continuidade.
Em minha opinião a nossa capacidade para o humor é modesta, mas nem isso é mau, nem deixa ferrete. Contentamo-nos em ser engraçados de vez em quando, o que vai bem com a pacífica mediania da nossa natureza.
No insulto, infelizmente, somos francamente maus. É à sorna e entre dentes, ou à bruta, metendo de permeio as mães, a fixação anal, mandando-nos para a mítica região do caralho ou à procura de excrementos, com um "Vai à merda" que mesmo entre adolescentes soa a infantilidade.
Vem isto a propósito de uma conversa tida ontem, no seguimento das trocas de insultos ocorrida entre os senhores deputados, num ambiente que devia ser de respeito e decoro.
Recordou o meu interlocutor um caso da antiguidade. Invejoso da fama de um general que tinha ganho batalhas na Gália e acabava de receber do senado romano a coroa de louros, um irritado senador recordou ao militar a sua condição de plebeu, enquanto ele, senador, provinha de uma nobre e secular linhagem.
- Assim será – respondeu o general – mas a sua nobreza acaba consigo, a minha começa em mim.

quarta-feira, novembro 18

Sem favor, antes grato

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Em Português, se faz favor, de Helder Guégués, é de facto um guia fundamental para escrever bem, e quando ontem lhe peguei surpreendi-me a abanar a cabeça, descobrindo-me pecador de "Alguns erros mais comuns". Daí que o remédio será lê-lo de fio a pavio e tê-lo à mão para evitar deslizes.

Do posfácio de Desidério Murcho:

"O desmazelo a que a língua portuguesa tem sido votada, não é senão o resultado do desmazelo cultural endémico no nosso país, mas o importante a notar é que este desmazelo não é apenas uma infelicidade para aqueles que têm uma vida cultural activa; é uma infelicidade para todos os portugueses, porque afecta as decisões económicas, políticas, educativas e quotidianas que a todos dizem respeito. Pensar cuidadosamente, não é apenas um luxo estético, mesmo que a estética fosse um luxo e não uma expressão comum do que é fundamentalmente humano nos seres humanos; pensar cuidadosamente é a condição de possibilidade do desenvolvimento económico, social e pessoal"
…………….
"A língua portuguesa tem enfrentado dois obstáculos de monta ao seu apuramento, um mais geral e quanto ao qual nada de meramente linguístico pode ser feito, e outro que diz respeito mais especificamente à nossa relação com a língua, mas ambos estão intimamente relacionados. O aspecto mais geral é o relativo atraso cultural português, que é endémico e que em nada beneficiou do fechamento salazarista do país, que durou até 1974. Depois disso, para mal dos nossos pecados, fomos colonizados pela cultura popular e científica americanizada e foi como esfaquear um doente em estado terminal. Se a pouca produção cultural significativa já era uma desgraça, a imitação linguística do linguajar norte-americano colocou populares e académicos na situação desgraçada de serem estrangeiros na sua própria língua: incapazes de exprimir em português de gente o que querem exprimir e obrigados a usar estruturas sintáticas americanas e léxicos que em português querem dizer uma coisa diferente do uso que lhes é dado, só porque são léxicos semelhantes aos ingleses."

terça-feira, novembro 17

Ir em cantigas

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Por volta dos dezoito tinha atrás de mim dez anos de uma voracidade de leitura diária e nocturna, acompanhada do clássico "ainda ficas cego com tanto ler", ameaça que nada me dizia. Dos grandes da literatura e de tudo o que fosse papel impresso, guiado também por gente que entendia do assunto, quis então passar dos dramas de Balzac e Zola para as obras de sociologia.
Novato, meti os dentes na Psicologia das Multidões (1895), de Gustave Le Bon; na Divisão do Trabalho na Sociedade (1893), de Durkheim; O Capital (1867) de Marx; O Manifesto Comunista (1848), de Marx e Engels, e Deus sabe quantas obras mais que vagamente compreendia.
O verniz desse conhecimento estalava depressa, trazendo-me a vantagem da modéstia e da humildade das opiniões que desde então me arrisco a fazer.
Também andei por Raymond Aron, Baudrillard, Foucault, Bourdieu, Lacan, mas esses e outros, ora estavam em craveira demasiado alta, ora se me apresentavam com nebulosidades próximas da charlatanice.
Passados os sessenta dei por mim a filtrar melhor a minha permanente sede de leitura e aprendizagem, se uma ou outra vez por acaso me entusiasmo cuido logo de procurar um contrapeso
Recentemente andaram amigos e conhecidos a insistir que não perdesse o Pikkety, mas dou-me alegremente conta que essa moda também já passou. Do malabarista Varoufakis, salvador da Grécia, idem, nada oiço.
Todavia, desde há ano e pico boas almas insistem que é hora de me deitar a ler Slavoj Zizek, o filósofo esloveno muito querido daquela esquerda que nos há-de trazer a salvação vestida à Mao e com acessórios Prada.
Por cortesia fui espreitar. Não aprofundei, mas o acaso levou-me a um artigo em que Zizek, falando de cerveja sem álcool, aponta para "o carácter paradoxal de um semelhante bem de consumo, tipicamente capitalista".
Despedi-me. Para repousar fui reler Thinkers of the New Left (1985), de Roger Scruton, agora em edição actualizada, com um capítulo dedicado a Zizek e o interessante título Fools, Frauds and Firebrands.
Recomendo  .