segunda-feira, abril 18

"Uma pessoa"

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É coisa pouca, uma frase inócua, mas quando a encontro  involuntariamente se me dispara na cabeça um instantâneo da mentalidade de quem a diz ou escreve.
Foi há muito que a ouvi a um sujeito por quem tenho pouco respeito, mau grado o estimem como prócere da cultura nacional. Com um sorrisinho, afirmava ele numa roda onde abundavam os admiradores, que só escrevia à mão, e a lápis, acrescentando: "Depois há uma pessoa que passa aquilo à máquina".
Noutra altura um poeta, também esse homem de fama, contava numa entrevista: "Sempre caligrafei, e há mais de trinta anos com esta Montblanc. Primeiro tinha alguém que me dactilografava os poemas, agora há uma pessoa que passa tudo para o computador."
A mais recente é da importante jornalista, dizendo ao entrevistador: "Eu não queria largar a minha Olivetti e depois havia uma pessoa que passava da máquina para o computador."
Uma pessoa, alguém. Sempre um humilde anónimo, em geral uma anónima, a trabalhar na sombra destes "grandes",  tão inchados de prosápia que só a si se vêem.  
 

domingo, abril 17

Falta-me sabedoria

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Sempre se falou em excesso da experiência que os anos dão, do poço de sabedoria que cada idoso é, fatigam os casos das avós e tias sábias, que à lareira, no remanso de idílicos povoados, contam histórias do tempo em que se respeitavam as tradições, se ajudavam os vizinhos, se comiam saborosos jantares, preparados com ingredientes de uma pureza que já não há, e segundo receitas conventuais passadas de geração para geração.

Avesso e mal disposto, aí chegado acontece-me por vezes soltar um "Porra!", perguntando-me então que gente é essa, ou de que paraísos tem conhecimento, pois por mais que olhe e espiolhe, no que encontro nada apercebo de bucolismo, nem de tal serenidade me falam os jornais ou mostram as televisões.
De modo que, não sendo míope, nem fraco da cabeça, só abonado em anos, concluo que muito há que me escapa, e ao contrário do que dizem, pelo menos no meu caso a idade pouco me ensinou.
 

sexta-feira, abril 15

Os amigos

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Haverá por aí alguém que, tendo experiência do mesmo, possa apontar duas, três, meia dúzia de razões que levam a que nos falhem os amigos que mais estimamos?
Julga a gente que ao longo da vida alguma coisa vai aprendendo, e de facto algo se aprende, mas nada prepara para o afastamento, sempre curiosamente gradual, dos que diziam ter-nos amizade.
Não se lhes critique a atitude, eles serão os primeiros a jurar pelas cinzas de quem lá têm que assim não é.

domingo, abril 10

Verdes, amarelos e ingratos

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Do modo como as coisas andam, talvez esteja na hora de abrir o armário, tirarmos de lá o patriotismo, sacudir-lhe o cotão e o pó que acumulou e, deitando-o  pelos ombros, sairmos orgulhosamente com ele à rua.
A moda é outra? Razão de sobra para fincar pé, dar prova que, como os homens, também os países não se medem aos palmos, pôr fim à  choradeira de que somos pequenos, deixarmo-nos de medos, de invejas, sentir honra do que temos de excelente, acabarmos de vez com a bacoca admiração do exótico.
Dá-se o caso de quererem agora os brasileiros descartar o ensino da nossa literatura. Pois que descartem, fiquem com a sua e bom proveito lhes faça, embora não me conste que, fora dos guetos universitários, se saiba no Velho Mundo, na jovem América do Norte ou na Ásia milenar, que o Brasil possui uma literatura, menos ainda uma como a nossa, com pergaminhos e a brilhar há séculos.
Talvez noutra altura me inclinasse a deitar água na fervura, elogiando, por exemplo, os grandes romances de Paulo Coelho. Mas nada de cortesias: é lembrar-lhes donde vêm e o que nos devem.
 


quarta-feira, abril 6

A revista LER



É preciso ler. Todos ganhámos com isso: os que lêem e aprendem, os que a ler se divertem, os que lêem e pensam. Depois há toda uma indústria e um comércio que vivem dos livros – nem sempre nas aflições de que se queixam  - pirâmide onde os senhores editores se acomodam na ponta, e os funcionários e os escritores se encolhem na base.
Entretanto, nem tudo são dores. De vez em quando ouvem-se risos irónicos, vêem-se piscadelas de olho, almas bem intencionadas, como eu agora, a sussurrar, leiam a LER desta Primavera.
Um tesouro. Isabel Lucas passeia com Patti Smith; D. Clara Ferreira Alves confessa-se looongamente; Carlos Fiolhais entrevista um génio da Matemática; eu deixo lá memórias de um tempo em que fui inocente.
Comprem, comprem. É preciso ajudar a LER, antes que algum patrão decida que não dá lucro bastante e acabe com ela.  

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PS. Como de certeza compreendem, as restantes quatro páginas, só pagando.