terça-feira, novembro 17

Ir em cantigas

(Clque)

Por volta dos dezoito tinha atrás de mim dez anos de uma voracidade de leitura diária e nocturna, acompanhada do clássico "ainda ficas cego com tanto ler", ameaça que nada me dizia. Dos grandes da literatura e de tudo o que fosse papel impresso, guiado também por gente que entendia do assunto, quis então passar dos dramas de Balzac e Zola para as obras de sociologia.
Novato, meti os dentes na Psicologia das Multidões (1895), de Gustave Le Bon; na Divisão do Trabalho na Sociedade (1893), de Durkheim; O Capital (1867) de Marx; O Manifesto Comunista (1848), de Marx e Engels, e Deus sabe quantas obras mais que vagamente compreendia.
O verniz desse conhecimento estalava depressa, trazendo-me a vantagem da modéstia e da humildade das opiniões que desde então me arrisco a fazer.
Também andei por Raymond Aron, Baudrillard, Foucault, Bourdieu, Lacan, mas esses e outros, ora estavam em craveira demasiado alta, ora se me apresentavam com nebulosidades próximas da charlatanice.
Passados os sessenta dei por mim a filtrar melhor a minha permanente sede de leitura e aprendizagem, se uma ou outra vez por acaso me entusiasmo cuido logo de procurar um contrapeso
Recentemente andaram amigos e conhecidos a insistir que não perdesse o Pikkety, mas dou-me alegremente conta que essa moda também já passou. Do malabarista Varoufakis, salvador da Grécia, idem, nada oiço.
Todavia, desde há ano e pico boas almas insistem que é hora de me deitar a ler Slavoj Zizek, o filósofo esloveno muito querido daquela esquerda que nos há-de trazer a salvação vestida à Mao e com acessórios Prada.
Por cortesia fui espreitar. Não aprofundei, mas o acaso levou-me a um artigo em que Zizek, falando de cerveja sem álcool, aponta para "o carácter paradoxal de um semelhante bem de consumo, tipicamente capitalista".
Despedi-me. Para repousar fui reler Thinkers of the New Left (1985), de Roger Scruton, agora em edição actualizada, com um capítulo dedicado a Zizek e o interessante título Fools, Frauds and Firebrands.
Recomendo  .
 

segunda-feira, novembro 16

A banalidade



 "Quem são as 129 vítimas de Paris?

Os nomes das vítimas do massacre de Paris, mortos brutalmente na sexta-feira, começam a ser revelados. Cristãos, muçulmanos, laicos, homens e mulheres, num total de 129 pessoas."

As tragédias, a morte e o sofrimento merecem melhor do que a patetice histérica e exibicionista das expressões de dor pública, a banalidade dos "Je suis Paris",  o voyeurismo dos telemóveis a fotografar, os testemunhos daquelas caras de débeis mentais a contar que viram gente a gritar e a correr.
As tragédias, a morte e o sofrimento merecem melhor do que a surpresa daqueles que, ao ouvir rajadas de metralha, julgavam que seria parte do show.
E nós, que ainda cá andamos, merecemos meios de informação que não nos tomem por imbecis e julguem que nos interessa a identidade das 129 vítimas, que entre elas se achava uma luso-descendente de 34 anos, que é portuguesa a mãe de um dos assassinos.
Triste o mundo que tudo banaliza.

 

sábado, novembro 14

Atitudes

(Clique)

Aos fanáticos que matam e se suicidam, a civilização ocidental opõe as férias e os festivais.
Mas anote-se: "Os líderes mundiais reagem chocados aos atentados de Paris".


sexta-feira, novembro 13

A Morte

(Clique)

Conhecem-na dos livros, de ouvir falar, ou porque no funeral o caixão estava aberto e espantou-os o rosto emaciado do defunto, mas de verdade a Morte (sim, com maiúscula) para eles é uma abstracção, desagradável tema de conversa, recurso de poetas que fantasiam o orgástico último sopro dado nos braços do ente querido.
Nunca a viram de perto nem de frente, porque sabe-o quem lhe sentiu a vizinhança, a Morte não tem rosto, caveira ou foice, nem veste de preto.
É um curioso sentimento o que deixa quando se aproxima, hesita a decidir e serenamente se afasta. Em duas ocasiões dei conta da sua presença, e com verdade posso dizer que não me intimidou, antes pareceu que tínhamos encontro marcado. Guardo a memória de nesse instante ser outra a medida do tempo, eu próprio ter um duplo, existir em ambos e saber-me incapaz de julgar ou oferecer oposição. Medo? De facto não senti, mas também não posso assegurar quem eu nesse momento era.

quinta-feira, novembro 12

Cicatrizes

(Clique)

Conhecemo-nos desde toda a vida, a dela, pois tinha apenas dois dias dos trinta e um anos que festejou há pouco. Separa-nos mais de meio século.
Por razões várias assumi o papel dos avôs que lhe faltaram ainda pequenina, acrescido do de mentor, já que os pais – "querendo viver a vida em pleno" - cedo se descartaram do trambolho, e no vestuário, na aparência, nos ideais, chegados aos sessenta continuam a assegurar que Woodstock foi um momento alto da civilização ocidental, o Rock 'n Roll tornou caducos Bach, Beethoven, Mozart e semelhantes, Maria Callas não chega aos calcanhares de Janis Joplin, e assim por diante.
Nosso Senhor continua a favorecê-los, os montes de acções da Shell e da Unilever facilitam o resto.
Simples acaso, não por meu intermédio, a rapariga casou com um português, vive a duas horas de Estevais, umas quantas vezes juntamo-nos para almoçar, pondo em dia o nosso afecto e as andanças da vida.
Assim foi dias atrás, mas triste momento. Marido, filhos, saúde, trabalho, nada lhe corre bem e, sendo seu "avô", quis saber de mim como lido com os meus percalços, se ajuda o ter paciência.
Não a enganei com o estafado tudo passa, porque da desilusão e do sofrimento restam sempre cicatrizes. Cicatrizes feias e fundas, as que doem em permanência.