segunda-feira, novembro 16

A banalidade



 "Quem são as 129 vítimas de Paris?

Os nomes das vítimas do massacre de Paris, mortos brutalmente na sexta-feira, começam a ser revelados. Cristãos, muçulmanos, laicos, homens e mulheres, num total de 129 pessoas."

As tragédias, a morte e o sofrimento merecem melhor do que a patetice histérica e exibicionista das expressões de dor pública, a banalidade dos "Je suis Paris",  o voyeurismo dos telemóveis a fotografar, os testemunhos daquelas caras de débeis mentais a contar que viram gente a gritar e a correr.
As tragédias, a morte e o sofrimento merecem melhor do que a surpresa daqueles que, ao ouvir rajadas de metralha, julgavam que seria parte do show.
E nós, que ainda cá andamos, merecemos meios de informação que não nos tomem por imbecis e julguem que nos interessa a identidade das 129 vítimas, que entre elas se achava uma luso-descendente de 34 anos, que é portuguesa a mãe de um dos assassinos.
Triste o mundo que tudo banaliza.

 

sábado, novembro 14

Atitudes

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Aos fanáticos que matam e se suicidam, a civilização ocidental opõe as férias e os festivais.
Mas anote-se: "Os líderes mundiais reagem chocados aos atentados de Paris".


sexta-feira, novembro 13

A Morte

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Conhecem-na dos livros, de ouvir falar, ou porque no funeral o caixão estava aberto e espantou-os o rosto emaciado do defunto, mas de verdade a Morte (sim, com maiúscula) para eles é uma abstracção, desagradável tema de conversa, recurso de poetas que fantasiam o orgástico último sopro dado nos braços do ente querido.
Nunca a viram de perto nem de frente, porque sabe-o quem lhe sentiu a vizinhança, a Morte não tem rosto, caveira ou foice, nem veste de preto.
É um curioso sentimento o que deixa quando se aproxima, hesita a decidir e serenamente se afasta. Em duas ocasiões dei conta da sua presença, e com verdade posso dizer que não me intimidou, antes pareceu que tínhamos encontro marcado. Guardo a memória de nesse instante ser outra a medida do tempo, eu próprio ter um duplo, existir em ambos e saber-me incapaz de julgar ou oferecer oposição. Medo? De facto não senti, mas também não posso assegurar quem eu nesse momento era.

quinta-feira, novembro 12

Cicatrizes

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Conhecemo-nos desde toda a vida, a dela, pois tinha apenas dois dias dos trinta e um anos que festejou há pouco. Separa-nos mais de meio século.
Por razões várias assumi o papel dos avôs que lhe faltaram ainda pequenina, acrescido do de mentor, já que os pais – "querendo viver a vida em pleno" - cedo se descartaram do trambolho, e no vestuário, na aparência, nos ideais, chegados aos sessenta continuam a assegurar que Woodstock foi um momento alto da civilização ocidental, o Rock 'n Roll tornou caducos Bach, Beethoven, Mozart e semelhantes, Maria Callas não chega aos calcanhares de Janis Joplin, e assim por diante.
Nosso Senhor continua a favorecê-los, os montes de acções da Shell e da Unilever facilitam o resto.
Simples acaso, não por meu intermédio, a rapariga casou com um português, vive a duas horas de Estevais, umas quantas vezes juntamo-nos para almoçar, pondo em dia o nosso afecto e as andanças da vida.
Assim foi dias atrás, mas triste momento. Marido, filhos, saúde, trabalho, nada lhe corre bem e, sendo seu "avô", quis saber de mim como lido com os meus percalços, se ajuda o ter paciência.
Não a enganei com o estafado tudo passa, porque da desilusão e do sofrimento restam sempre cicatrizes. Cicatrizes feias e fundas, as que doem em permanência.
                                                                            


segunda-feira, novembro 9

O cajado do pastor

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São muitos os felizes que compreendem a política nacional. Mais ainda são os que sabem explicar as razões do que foi, do que é, e do que só poderá acontecer quando A ou B tiverem seguras as rédeas das muares que puxam a carroça da governação.
De nós outros, os que não sabemos, não compreendemos e, manso rebanho, caminhamos dóceis atrás da dita carroça, pode dizer-se que merecemos que nos caia no lombo o cajado do pastor.

sexta-feira, novembro 6

Títulos

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Difícil, cansativa, frustrante, de resultado sempre duvidoso, a busca de um título para um romance leva ao desespero e, pelo menos a mim, nunca satisfaz quando o vejo impresso.
O ideal é que seja curto e fácil de pronunciar, soe bem, desperte a curiosidade. Pode ser chocante –  Elas Gostam de Apanhar, de Nelson Rodrigues, é um clássico – mas esse talento é dado a poucos, compara-se à dança na corda bamba. Deve evitar as aliterações do género Ele Não Me Ama ou o ridículo baboso – Ajoelhado Aos Teus Pés. E mais, porque são muitos os escolhos e o resultado não se mede pelos elogios da crítica ou dos amigos, mas pela fila diante da caixa, que tem maior possibilidade de crescer devido ao título e à capa (ou às aparições do autor na televisão) do que o tempo que este passou a desfiar o enredo.
Porque no caso que me ocupa há uma situação de vingança, cuidava eu incluir a palavra no título, mas não serve. Recorrendo ao Google descobri, só em inglês e numa busca rápida, para cima de três milhares de citações de vingança, incluindo a conhecida de que ela se serve fria.
De modo que desisti desse e ando à procura do título ideal: o que me satisfaça, agrade ao editor, soe bem, caiba na capa, tenha a malícia de Elas Gostam de Apanhar, e possa ser dito em voz alta.