sexta-feira, novembro 13

A Morte

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Conhecem-na dos livros, de ouvir falar, ou porque no funeral o caixão estava aberto e espantou-os o rosto emaciado do defunto, mas de verdade a Morte (sim, com maiúscula) para eles é uma abstracção, desagradável tema de conversa, recurso de poetas que fantasiam o orgástico último sopro dado nos braços do ente querido.
Nunca a viram de perto nem de frente, porque sabe-o quem lhe sentiu a vizinhança, a Morte não tem rosto, caveira ou foice, nem veste de preto.
É um curioso sentimento o que deixa quando se aproxima, hesita a decidir e serenamente se afasta. Em duas ocasiões dei conta da sua presença, e com verdade posso dizer que não me intimidou, antes pareceu que tínhamos encontro marcado. Guardo a memória de nesse instante ser outra a medida do tempo, eu próprio ter um duplo, existir em ambos e saber-me incapaz de julgar ou oferecer oposição. Medo? De facto não senti, mas também não posso assegurar quem eu nesse momento era.

quinta-feira, novembro 12

Cicatrizes

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Conhecemo-nos desde toda a vida, a dela, pois tinha apenas dois dias dos trinta e um anos que festejou há pouco. Separa-nos mais de meio século.
Por razões várias assumi o papel dos avôs que lhe faltaram ainda pequenina, acrescido do de mentor, já que os pais – "querendo viver a vida em pleno" - cedo se descartaram do trambolho, e no vestuário, na aparência, nos ideais, chegados aos sessenta continuam a assegurar que Woodstock foi um momento alto da civilização ocidental, o Rock 'n Roll tornou caducos Bach, Beethoven, Mozart e semelhantes, Maria Callas não chega aos calcanhares de Janis Joplin, e assim por diante.
Nosso Senhor continua a favorecê-los, os montes de acções da Shell e da Unilever facilitam o resto.
Simples acaso, não por meu intermédio, a rapariga casou com um português, vive a duas horas de Estevais, umas quantas vezes juntamo-nos para almoçar, pondo em dia o nosso afecto e as andanças da vida.
Assim foi dias atrás, mas triste momento. Marido, filhos, saúde, trabalho, nada lhe corre bem e, sendo seu "avô", quis saber de mim como lido com os meus percalços, se ajuda o ter paciência.
Não a enganei com o estafado tudo passa, porque da desilusão e do sofrimento restam sempre cicatrizes. Cicatrizes feias e fundas, as que doem em permanência.
                                                                            


segunda-feira, novembro 9

O cajado do pastor

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São muitos os felizes que compreendem a política nacional. Mais ainda são os que sabem explicar as razões do que foi, do que é, e do que só poderá acontecer quando A ou B tiverem seguras as rédeas das muares que puxam a carroça da governação.
De nós outros, os que não sabemos, não compreendemos e, manso rebanho, caminhamos dóceis atrás da dita carroça, pode dizer-se que merecemos que nos caia no lombo o cajado do pastor.

sexta-feira, novembro 6

Títulos

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Difícil, cansativa, frustrante, de resultado sempre duvidoso, a busca de um título para um romance leva ao desespero e, pelo menos a mim, nunca satisfaz quando o vejo impresso.
O ideal é que seja curto e fácil de pronunciar, soe bem, desperte a curiosidade. Pode ser chocante –  Elas Gostam de Apanhar, de Nelson Rodrigues, é um clássico – mas esse talento é dado a poucos, compara-se à dança na corda bamba. Deve evitar as aliterações do género Ele Não Me Ama ou o ridículo baboso – Ajoelhado Aos Teus Pés. E mais, porque são muitos os escolhos e o resultado não se mede pelos elogios da crítica ou dos amigos, mas pela fila diante da caixa, que tem maior possibilidade de crescer devido ao título e à capa (ou às aparições do autor na televisão) do que o tempo que este passou a desfiar o enredo.
Porque no caso que me ocupa há uma situação de vingança, cuidava eu incluir a palavra no título, mas não serve. Recorrendo ao Google descobri, só em inglês e numa busca rápida, para cima de três milhares de citações de vingança, incluindo a conhecida de que ela se serve fria.
De modo que desisti desse e ando à procura do título ideal: o que me satisfaça, agrade ao editor, soe bem, caiba na capa, tenha a malícia de Elas Gostam de Apanhar, e possa ser dito em voz alta.  

quinta-feira, novembro 5

Levam-se a sério?

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Que os ingénuos e os desocupados se entretenham a discutir política à mesa do  café, é passatempo, ocupação inócua, de valia igual ao cochicho das comadres paradas à esquina.
O que entontece, por incrível, é o desvario de dezenas de comentadores que todos os dias e a todas as horas prevêem, asseguram, garantem, explicam, sussurram o que ouviram em confidência e vai acontecer, se não esta manhã logo à tarde. Que isto cai, abana, fica em pé, irá continuar, ontem esteve por pouco, hoje à tarde é sem falta. Repetem-se, contradizem-se, garantem agora o que ontem sabiam absolutamente impossível, profetizam, imitam sem jeito o respeitável Bruxo de Fafe.
É uma interrogação que me ponho: terá essa gente a cabeça no bom sítio? Será que, cheios de tristes pretensões, são assim para bazofiar? Levam-se a sério? Alguém neles atenta e os leva a sério?
 

quarta-feira, novembro 4

Ele há sujeitos!...

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Fora de dúvida que a teoria do atavismo criminal de Lombroso (1835-1909) é do mais politicamente incorrecto que se pode imaginar. Ele olhava, media,  descobria nas caras e nos corpos a predisposição para o crime, a certeza de que o indivíduo nascera para ir pelo mau caminho da ladroagem, do assassinato, da trafulhice, reconhecendo até os traços que assinalavam o uxoricida.
A teoria não tem muito por onde se lhe pegue, mas o Museo di Antropologia Criminale Cesare Lombroso, na Universidade de Turim, pode alegrar os amigos do bizarro.
Isto dito, e metendo as mãos no próprio peito, não há volta a dar-lhe: todos conhecemos momentos em que, olhando um rosto, atentando num gesto, numa expressão, escrutinando um sorriso, nos damos conta de que albergamos um Lombroso. Pois então não verdade que Fulano tem cara de pulha? Que salta à vista ser Sicrano ligeiro das mãos, e Beltrano só não mata por medo da cadeia?
Mea culpa, eu há sujeitos que, quando os tenho pela frente, não consigo impedir-me de recordar Lombroso.