sexta-feira, março 4

Segredos

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"Dependesse de minha mãe, a história do mundo seria uma incógnita. Ainda estou para encontrar alguém que se lhe compare na capacidade de esconder,  fintar perguntas, encolher os ombros, ou com um gesto de desprezo reduzir a curiosidade alheia, em particular a minha, a uma forma de inconveniência.
O estranhamente pouco que sei das suas circunstâncias e das minhas próprias na meninice, descobri-o à custa de rezingar e daquela teimosia de que as crianças têm o segredo.
Embora lhe quadrasse, por respeito nunca me apropriei do dito que uma vez lhe ouvi a propósito de uma vizinha, que de tão reservada dava ideia de que para se saber dela alguma coisa "era como ter de se lha tirar do cu com um gancho".
Serviu e amargurou, de certeza mais que dobrado, pois sensibilidade tinha de sobra, mas a salvação deve ter-lhe vindo da teimosia do carácter e da ideia fixa de que ninguém seria capaz de lhe "pôr o pé no cachaço", expressão que às vezes debitava como se estivesse defronte de um adversário e pronta a atacar.
De longe a longe, cauteloso por lhe conhecer o feitio e temendo os seus repentes, a violência de que era capaz, pois não se ensaiava para me derrear, eu punha entre nós a distância precisa e voltava à carga:
- E então pra onde é que foi servir a primeira vez? Quando era miúda.
Há olhares que fuzilam e há olhares, como o dela, que levam a acreditar que no fundo resta em nós algo de selvagem, algo da  fúria primitiva do bicho a que um dia pertenceu um ou outro dos nossos cromossomas.
Nessas ocasiões os olhos de minha mãe ganhavam a fixidez dos da pantera pronta ao ataque, dava ideia de que tudo nela era tensão, o seu propósito um só: estraçalhar."


quinta-feira, março 3

Santa inocência

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"Donald Tusk, o presidente da Comissão Europeia, avisa os migrantes económicos para que não venham para a Europa, que não acreditem no que lhes contam os traficantes."

(extraído daqui).

quarta-feira, março 2

"Tinhemos" paciência

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Visito o Linguagista (linguagista.blogs.sapo.pt) todos os dias. Lá muito aprendo, e por vezes pasmo.
Como de momento parece difícil ligar ao site, fica aqui o que agora interessa: 
 
" Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Professor catedrático no Instituto Superior Técnico! Ouçamo-lo então: «Ainda continuando com o debate, muitos dos deputados e das deputadas que interviram, em particular o deputado Luís Monteiro, agradeço mais uma vez. […] E aqui tinhemos a humildade de perceber os números e tinhemos a humildade de construir um projecto colectivo com todos os portugueses.» Ora, não é em vão que dirige o Centro de Estudos em Inovação."

terça-feira, março 1

Dois dias

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Já uma vez tratei de agendas aqui, mas com o correr do tempo e o aumento dos anos, a agenda é menos uma anotação do tempo a vir, do que do tempo a descontar, trazendo a insidiosa pergunta: quantos anos ainda? Ou serão meses? Dias? Horas?
De nada adianta, embora me alarme sempre a notícia de desastres, assassinatos e outras mortes súbitas. Teriam esses, ignorantes do seu trágico destino, encontros marcados para o dia seguinte? A hora de alguém que os esperava? Projectos que tinham?
Diz-se, brincando, que a vida são dois dias, mas não sabemos em que a agenda, nem quem nela os aponta.


quarta-feira, fevereiro 24

A liberdade tem um preço

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"Não, o Alentejo não é a minha terra prometida. Resta-me, portanto, reconhecer que o sentimento de pertença é o meu ângulo morto. Sou rafeiro, mestiço, bastardo, não uma bastardo de sangue, mas um bastardo de solo. Não sou alentejano e os bairros onde cresci à volta de Lisboa tornaram-se-me estranhos; quando lá volto, sinto que entro num filme cujos diálogos já não conheço; tento representar o papel que me é devido por respeito aos meus pais.

A cidade onde vivo, Lisboa, também não é minha, serei sempre um estrangeiro na corte. É um sentimento estranho, quase fantasmagórico, mas é no Porto que me sinto em casa; é com as pessoas do norte que estabeleço uma empatia imediata, epidérmica, visceral. Então porque não mudar a minha vida para o Porto, Braga ou Aveiro? Seria mais um esforço patético e sentimental. Se não posso ser o filho pródigo do sul, também não vou ser o cristão-novo do norte. Não tenho nem terei terra. Não pertenço.
A migração familiar que nos fez sair da miséria e que me permitiu desafiar as leis de ferro da minha avó e dos Espírito Santo, é também a causa deste vazio. A liberdade tem um preço."
…………..
in Alentejo Prometido, de Henrique Raposo – Fundação Francisco Manuel dos Santos.
 

domingo, fevereiro 21

No arquivo

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Mexi numa pasta de arquivo, não encontrei o que procurava, mas já que tinha as mãos na massa fui lendo, folheando, dei-me à pachorra de ouvir conversas gravadas em cassettes há mais de trinta anos, pasmar para fotografias desbotadas, ler correspondência que avivou amizades antigas.
Durante um bom bocado retornei aos meus cinquenta anos, revivi aborrecimentos e alegrias, confrontei gente que desde então safara da memória: Salvatore B., o quarentão distinto que diziam assassino a soldo; Miguel T., sertanejo umas vezes, noutros dias carioca, vivendo de expedientes em Lausanne; Francine, a belga que tudo sabia sobre os azulejos da Viúva Lamego; o senhor Mateus que viera à Holanda comprar vacas leiteiras, mas descobrira o Yab Yum e adiava o regresso; Peter M., mitómano que se dizia ucraniano e nobre, mas era apenas grego e porteiro.
Revi-os a eles, recordei como eu então era e fechei a pasta com alguma pena das ocasiões que não tive, do que passou, das horas que perdi.