quarta-feira, novembro 4

Ele há sujeitos!...

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Fora de dúvida que a teoria do atavismo criminal de Lombroso (1835-1909) é do mais politicamente incorrecto que se pode imaginar. Ele olhava, media,  descobria nas caras e nos corpos a predisposição para o crime, a certeza de que o indivíduo nascera para ir pelo mau caminho da ladroagem, do assassinato, da trafulhice, reconhecendo até os traços que assinalavam o uxoricida.
A teoria não tem muito por onde se lhe pegue, mas o Museo di Antropologia Criminale Cesare Lombroso, na Universidade de Turim, pode alegrar os amigos do bizarro.
Isto dito, e metendo as mãos no próprio peito, não há volta a dar-lhe: todos conhecemos momentos em que, olhando um rosto, atentando num gesto, numa expressão, escrutinando um sorriso, nos damos conta de que albergamos um Lombroso. Pois então não verdade que Fulano tem cara de pulha? Que salta à vista ser Sicrano ligeiro das mãos, e Beltrano só não mata por medo da cadeia?
Mea culpa, eu há sujeitos que, quando os tenho pela frente, não consigo impedir-me de recordar Lombroso.
 

terça-feira, novembro 3

Exibicionismo

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O exibicionismo tem efeito quando consegue surpreender, mas em demasia cansa, torna-se deprimente ao revelar-se um maneirismo. É também uma mostra de  pouca arte, lembra o palhaço que insiste na mesma graçola, o político a rebater a tecla das suas elevadas convicções, a cansativa insistência do que relata as cirurgias que teve e se despe para mostrar as cicatrizes.
O exibicionista demonstra impotência, incapacidade de mudar, de melhorar, de crescer. Na literatura é ele o personagem dramático que, na ânsia de se mostrar, se põe à frente daquilo que faz.
Exibe-se e ninguém o vê.
 

domingo, novembro 1

O pasmo

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Talvez porque as suas vidas e emoções são lineares ou, de medo, se limitam ao mínimo de vivências, sempre me surpreende a maneira como certas pessoas recusam o maravilhoso, o inesperado. Se desconhecem o fenómeno ou o sentimento, se a sua experiência, por pouca, não lhes permite ver mais, compreender mais, atiram um "não pode ser", e é caso arrumado.
Por simpatia, entusiasmo, às vezes imaginando uma concordância, ainda partilho  surpresas que tive, um bem inesperado que me coube, mas no geral a expressão do interlocutor contradiz a neutral cortesia das palavras que profere, vejo-o a reagir com uma indiferença de acólito.
Sou assim levado a pensar que as aparências enganam. As pessoas afirmam que se maravilham, mas raro com aquilo que, genuíno e próximo, sinceramente lhes é dado. O verdadeiro pasmo guardam-no para o que é artificial e a ficção lhes oferece: a cores, em ecrã gigante, tridimensional, com efeitos sonoros.

sexta-feira, outubro 30

quinta-feira, outubro 29

Despenteando Parágrafos

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Onésimo Teotónio Almeida
Brown University
Rhode Island
EUA

Meu caro Onésimo,
Vivemos aqui o que antigamente se chamavam tempos conturbados, mas de facto são apenas a excitação parola causada pelos desvarios de quem não nasceu para, como estadista, segurar as rédeas do Estado, e tem da política noções de merceeiro. Assim teremos amanhã um governo que vai ser "chumbado",  chegará depois outro ao qual, a curto ou médio prazo, acontecerá o mesmo. Um terceiro ou quarto irá de mão estendida pedir à Europa uns trocos para o café e o cigarrinho.
Triste destino o nosso, miserável caterva a que nos desgoverna. Sobre esses, mais uma vez me encosto a Fialho, que os retratava escrevendo que "as papadas oleosas dizem nutrições prevaricadas, apoplexias de bílis odienta, intrigas rábidas, cobiças, e satiríases secretas de amor e de vinho a horas perigosas."
Bem sonhamos, bem pedimos ao Altíssimo, mas de nada vale, e desculpe V. o desabafo, que o meu propósito era dizer-lhe que vou a meio do seu Despenteando Parágrafos, e entre gargalhadas, sorrisos, sustos e exclamações, me tenho divertido, aprendido, dado conta de que perdi o comboio do verdadeiro saber.
Já é tarde para que isso obste, e a minha idade também se presta pouco às grandes excursões, mesmo as do espírito, mas logo de entrada desopilei, porque na universidade muito sofri com colegas que se excitavam com as nebulosidades de que V. dá conta.
Das excelências axiológicas do bremontismo como hermenêutica da discursividade pós-moderna – Perspectivas epistemológico-pedagógicas é um verdadeiro tratado humorístico e, lendo-o, recordei, meio sufocado de riso, os colegas que também falavam no tom do ensaísta que refere e nos diz: "Encontrar um texto poético é percorrer este estranho trajecto em que transcendência se esvanece, e em que uma ética irredutível à moral-social-linguística é declinada sem a astúcia que a recusa, mas na necessidade que a reconhece: travessia de uma obsessão".
Traz-me V. também à memória os colegas que juravam por Saussure, Lacan, Althusser, Derrida, que faziam gráficos e esquemas a demonstrar que na poesia de Pessoa era diferente o impacto sensorial entre os versos que começavam por vogais em vez de consoantes. Sofri com eles, mas há muito o Senhor deu a uns a reforma, a outros o eterno descanso, e eu cá vou indo na paz do mesmo Senhor.
Com As modas que vêm de Paris também penei. À minha volta era só Nouveau Roman,  romance com princípio, meio, fim era absolument passé, contava o que em desordem borbulhava nas cabecinhas.
Dá V. umas cacetadas em Ou humor(ou ausência de) no Camilo polémico, e acho que tem alguma razão, mas voltando a um ou outro dos nossos políticos também eu gostaria de lhes perguntar, como o homem de São Miguel de Seide: "A propósito, amigo, há quanto tempo conservas de escabeche a inteligência?"
Vou a meio do seu livro – logo à noite ataco Da (a) crítica textual e do metatexto – e já me dei conta de que não devo mexer à ligeira em Wittgenstein ou no Tractatus Logico-Philosophicus.
Um dia lhe falarei do resto, mas sabendo do seu gosto por elas, deixe que termine com uma anedota antiga(é-o menos do que parece) que me ocorre e ilustra o que acontece a quem sabe pouco.
Passada a agitação do 25 de Abril, ao findar a década de 70 o governo começou a tomar medidas para modernizar e dinamizar, decidindo-se então que à semelhança dos países avançados se introduzisse a informática na aparelhagem do Estado. Os melhores computadores vinham dos Estados Unidos, e assim se encomendou um dos mais potentes à IBM. Querendo ao mesmo tempo dar no ramo um incentivo à indústria nacional, fez-se a encomenda de um computador à Fábrica Oliva, de São João da Madeira, que até então se especializara no fabrico das máquinas de costura.
Recebidos e montados lado a lado os computadores de ambas as empresas, constatou-se que o aparelho americano possuía uma formidável memória, enquanto que o nacional tinha apenas uma vaga ideia.
Receba V. um abraço
José

terça-feira, outubro 27

São só embrulho

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Em todos os partidos políticos se misturam os bons com os trafulhas, os ingénuos com os cínicos, os ladrões com os malabaristas, os ignorantes e os sabidos, pelo que de nada adianta apontar o dedo. Todos são da mesma massa, e embora sejam os políticos quem nos governa, não é deles que devemos esperar remédio e salvação, mas de nós próprios, do que temos de consciência cívica e social.
É de mau aviso a alegria dos que vêem a casa do vizinho a arder, o mesmo vale para a chança dos que esperam os confortos do poleiro. E desenganem-se uns e outros, pois é tudo de pouca monta e curta duração, no muito os clássicos dois dias, porque um cancrozito, um descuido na passadeira, e acaba o arraial.
Portanto, assim sendo, e de facto assim é, de que raio adiantam as palhaçadas, as soberbas, a ilusão de que semelhante gente deixa nome na História? Quando muito deixa-o nos jornais de hoje, os mesmos com que amanhã na Ribeira se embrulhará o peixe.