terça-feira, fevereiro 16

Tanta água passada

(Clique)
Segundo Congresso dos Escritores Portugueses, Lisboa, Março 1982

domingo, fevereiro 14

De Pilsener Club

(Clique)

Pode ser da chuva, que há dias cai com um cinzento da Lapónia, misturada com o que aqui se chama natte sneeuw (neve molhada), um fenómeno mais capaz de criar sombras na alma do que o nevoeiro cerrado. Pode ser ainda que seja desta minha inata insatisfação que, por ter sonhado muito, me leva a esquecer os momentos felizes e a aumentar o desgosto que causam as miudezas do dia-a-dia.
Também se dá o caso que, ultimamente, não tenho correspondido às amizades com a benevolência de espírito que nos torna companhia agradável.
Ando azedo. Sugeri atrás que a chuva pode ter a ver com o meu estado de alma, mas no fundo sei que assim não é, reconheço de sobra que o aborrecimento me vem mais das situações em que não posso ser franco, gasto tempo a rendilhar frases, quando a minha vontade seria dizer a verdade nua e crua.
É facto, ando azedo, sinto-me hipócrita, e esta neve molha mais do que a chuva. Que saudade tenho de quando, em tardes assim, corria para o De Pilsener Club e lá ficava até que a genebra e a companhia aclarassem o céu e a minha alma.

sexta-feira, fevereiro 12

Writer's block

(Clique)

O enredo que imaginou é mais ou menos assim: ela odeia a mãe. A ele calhou de repente uma herança. O terceiro personagem, sem razão  clara de donde lhe vem o ódio, tem ideia de que há-de matar um deles, talvez ambos.
Ao acordar, o jovem escritor, "viu" claramente as cenas, "ouviu" os diálogos e, como em transe, escreveu de um jacto:

"Sinto-me como se fosse eu o alvo preferido de não sei que poder oculto ou, tal um escravo, me tivessem posto à sujeição de vontades alheias, que dispõem de mim e me forçam a proceder de um modo na aparência lógico, razoável, mas que na prática se mostra insensato.
Por certo vem daí a insegurança de que não consigo libertar-me, a hesitação em agir, o receio de que, por princípio, qualquer iniciativa que tome seja  desatinada ou contraproducente.
Marca-me também o ser filho de pai incógnito e mãe solteira, ferrete de que não me livro, embora tenha deixado de ser o vexame que nalgumas alturas me levou a compreender como é fácil perder o juízo e dar um passo irremediável.
Numa salvei-me por um triz, noutra acudiram-me, desde então olho com pena para o rapaz que fui, os medos que demorei a vencer, as ocasiões que perdi".

Parou aqui, ignora quantas vezes o releu, pergunta-se que mistério será o ter livro na cabeça há tanto tempo e ser incapaz de o passar ao papel.

quinta-feira, fevereiro 11

Selos

(Clique)

Parece que existe há dois ou três anos, talvez mais, mas para mim ontem foi  novidade: recebi uma carta e, para meu grande pasmo – primeiro julguei que  fosse brincadeira – o selo mostrava o rosto de um amigo que, sei-o desde que o conheço, é pessoa que em nada se distingue na cinzenta maioria que somos. Mas então com cara num selo? Mas então o selo dos correios não era para homenagear reis, heróis, prémios Nobel, proezas altas como os Descobrimentos? Era, já não é. Por € 9.95, e colocando a sua ou outra cara no programa adequado, Post.nl , os correios neerlandeses mandam-lhe de volta 10 selos válidos para franquear cartas.
E eu que, miúdo, me pasmava de ver selos com a figura de Vasco da Gama, de Camões, de Pasteur! Onde vai isso?  

quarta-feira, fevereiro 10

Notícias

(Clique)

"O português Luís Nobre (49) foi condenado na Inglaterra a catorze anos de prisão por ter burlado a empresa neerlandesa Allseas em 100 milhões de euros.
O burlão apresentava-se como um investidor imensamente rico, com relações no Vaticano e na aristocracia espanhola. A polícia descobriu documentos falsos que "provavam" ter o português acesso a contas bancárias com biliões de euros.
Da burla foram recuperados cerca de 88 milhões, o restante parece ter sido gasto para financiar o luxuoso estilo de vida de Nobre, a sua preferência por hotéis de cinco estrelas e fatos caros. "
Uma cúmplice saberá mais tarde a que pena foi condenada. Um terceiro suspeito faleceu antes de começar o processo."
.......................

"No porto de Gdansk, na Polónia, com a aprovação da Comissão Europeia, trabalham desde 2002 centenas de trabalhadores norte-coreanos, contribuindo para uma concorrência desleal de Gdansk com os outros portos do Báltico. A Comissão Europeia aprovou o apoio estatal ao porto, nunca questionando a presença dos "escravos" norte-coreanos. Calcula-se que neste momento trabalhem em Gdansk cerca de 800 norte-coreanos, situação a que o secretário de estado do trabalho diz que nada há a fazer.
Os trabalhadores são transportados pela Air Koryo  da Coreia do Norte para Moscovo e daí para a Polónia.
Do salário que lhes é pago 90% é transferido para a conta do do estado norte-coreano na Suíça. Calcula-se que a exploração de 50.000 a 100.000 norte-coreanos que, além da Polónia, trabalham em Angola, no Koweit e Qatar, rende anualmente 1,5 bilião de euros à Coreia do Norte."
…………….
Notícias extraídas de: NU.nl e 925.nl. Relatórios: aqui e aqui.

terça-feira, fevereiro 9

Vénias

(Clique)

Reverentes, mostrando uma conjunção de sensibilidades, eles falam da Agustina, da Sofia, do Hélder, e quem como eu está de fora maravilha-se com essa fineza do tratamento.
É facto que nem todos os nomes próprios se prestam à veneração, os corriqueiros como José ou Miguel simplesmente desaparecem, temos então o Saramago, o Torga, o Eça, indicando uma subtil diferença de grau de apreço e intimidade.
Com gostosa malícia recordo o caso do amigo que, anos atrás, na Feira do Livro de Frankfurt se viu à conversa num grupo de gente dessa, onde se encontrava também Agustina Bessa-Luís. Habituado a outras latitudes e outras formas de respeito, achou ele bem dirigir-se à festejada tratando-a por "Dona Agustina".
Foi um pandemónio na comitiva. Dona Agustina! Que estupidez! Ignorava o bruto que não era assim que se dizia? Que era sempre e só Agustina?
O pobre diz que enfiou, acrescentando que evita contar o caso, porque lhe apontam que, de verdade,  dizer Dona Agustina é falta de respeito.