terça-feira, outubro 27

São só embrulho

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Em todos os partidos políticos se misturam os bons com os trafulhas, os ingénuos com os cínicos, os ladrões com os malabaristas, os ignorantes e os sabidos, pelo que de nada adianta apontar o dedo. Todos são da mesma massa, e embora sejam os políticos quem nos governa, não é deles que devemos esperar remédio e salvação, mas de nós próprios, do que temos de consciência cívica e social.
É de mau aviso a alegria dos que vêem a casa do vizinho a arder, o mesmo vale para a chança dos que esperam os confortos do poleiro. E desenganem-se uns e outros, pois é tudo de pouca monta e curta duração, no muito os clássicos dois dias, porque um cancrozito, um descuido na passadeira, e acaba o arraial.
Portanto, assim sendo, e de facto assim é, de que raio adiantam as palhaçadas, as soberbas, a ilusão de que semelhante gente deixa nome na História? Quando muito deixa-o nos jornais de hoje, os mesmos com que amanhã na Ribeira se embrulhará o peixe.

sábado, outubro 24

De luto

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Pouco se me dá que quem nele manda seja da direita, da esquerda, do centro, de cima ou de baixo, porque esse mandar é aparência, fingimento, um espectáculo de robertos.
Mas ponho luto porque o meu país só o é de verdade nos montes e nas praias, na gente. No resto continua a ser bambochata, um país faz de conta.
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Foto: Eugene Smith
 

quarta-feira, outubro 21

"As Primeiras Coisas"

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Parabéns ao Bruno, sobre quem dois anos atrás aqui se falou. Corram a ler As Primeiras Coisas aqueles que na literatura sabem separar o trigo do joio, e distinguem a qualidade.

terça-feira, outubro 20

Na autoestrada


No último sábado, ao começo da tarde, numa estação de serviço na autoestrada Poitiers-Bordéus, mesmo aqueles que, como eu, têm pelos automóveis um interesse sobretudo prático, embasbacavam para o Mercedes de dois lugares junto da bomba. A elegância das linhas, a aerodinâmica, o luxo, o acabamento, tudo nele ressudava uma qualidade que instintivamente se sente ao alcance de poucos, e ao deixar a bomba, para ir estacionar mais adiante, o som do motor, embora reduzido, falava de uma incrível potência.
Saiu dele um casal à volta dos trinta. Pela atitude, os gestos, no modo como conversavam, e até na maneira de fumar, tudo neles falava de gerações de dinheiro e elegância, vidas cheias de certezas, segurança e poderio.
Qualquer coisa, todavia, indicava que se retinham, se davam conta que estavam em público, obrigando-se a travar um gesto, a crispar as feições, a fingir um súbito interesse pelo que os rodeava.
No momento em que passei, a imagem que deles guardo é de que lhes seria difícil manter a contenção, parecendo antes estátuas do que gente de carne e osso.
A autoestrada atravessa os vinhedos de Cognac e de Bordéus, não é exagero dizer que o sol doura as videiras, que há beleza e serenidade na paisagem,  diverte aperceber aqui e ali um lugarejo que recorda os romances de Simenon, tão competente na mistura das paixões e dos crimes.
À minha frente não se via nenhum, e atrás, espaçados, viriam quatro ou cinco carros, quando de súbito, como se realmente voasse, apercebi o Mercedes no retrovisor. No mesmo segundo tinha-nos ultrapassado.
Já noutras ocasiões me dei conta de que o tempo é uma estranha dimensão e nem sempre se mede de igual maneira. O Mercedes pareceu que travava, rodopiou em slow motion duas ou três vezes, foi em voo planado sobre o separador e deteve-se no talude, as rodas para o ar.
Paramos, corremos todos a acudir, uns chamando o 112, mas logo nos demos conta de que era inútil a pressa.

sexta-feira, outubro 16

"Beijo Técnico"

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Eduardo Pitta fala dele aqui e está certo o que diz, mas em minha opinião podia juntar uma estrêla às três com que o avalia. A "discreta ironia nos interstícios da prosa", e a qualidade desta, valem bem quatro.

quinta-feira, outubro 15

À espera que nos oiçam

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É estranha, mas compreensível, a decepção que segue à pergunta que nos fazemos (pelo menos eu faço) sobre o propósito, a utilidade, o interesse deste comunicar com anónimos e estranhos que nos encontram ao acaso de um clique, ou quando por descuido o dedo mexe na tecla errada.
Antigamente levava o vento as palavras em certa direcção, iam por carta ou telegrama, mas nunca mais longe do que o outro lado do planeta. Hoje vão para toda a parte, chegam talvez às luas de Saturno, onde, se lá há gente ou andróides, me pergunto, no caso de que as entendam, o que com elas farão.
O mais certo é que nada. Mas por cá não paramos de comunicar, cheios de convicções e certezas, esperançado de que alguém nos oiça, supondo grande, importante, única, a abençoada Terra. E nós os seus privilegiados moradores
Mas da Terra já Eça de Queiroz n 'A Relíquia nos desiludiu: "A Terra! que é ella senão um montão de cousas pôdres, rolando pelos céus com basófias d'astro?"

quarta-feira, outubro 14

Páginas

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Cada um sabe de si, cada um faz como quer, muitos fazem como lhes sugerem ou têm bom faro para modas. Assim seja, nada contra.
Sobre um recentemente publicado e já famoso romance leio encómios,  ditirambos, garantias de que tudo nele é do mais alto nível, surpreendente de página para página.
No volume original são elas quinhentas e sessenta e três, o que é boa mediania, pois um qualquer sueco posto a contar as suas bebedeiras, cópulas falhadas, alucinações, dilemas de fé, ânsias esotéricas e arrelias com a prole, facilmente alinhava seis vezes mil. Nada de excessivo, portanto.
Comecei entusiasmado a leitura e são logo umas doze páginas de mãe e filha, em telefonemas, questões de coisa nenhuma, conversas, problemas caseiros, problemas no call center, indiferença dos colegas. Há depois uns detalhes sobre a falta de alegria no trabalho, visitas à sanita, uma cópula adiada devido a uma discussão sobre o preenchimento de um formulário,  mais páginas a explicar que em certas alturas é difícil reter a urina.
Como por toque de varinha mágica vê-se o leitor em Berlim, onde o Muro ainda não caiu. Ontem à noite, chegado à página setenta e dois achei que bastava, arrumei o tomo.
São gostos, e o meu só para mim é válido. Devo talvez acrescentar que por ser  de pouca paciência me têm escapado muitas obras-primas.