terça-feira, janeiro 26

Na morte de um amigo

Alexander Pope (1688-1744)
 
"How often are we to die before we go quite off this stage? In every friend we lose a parte of ourselves, and the best part."

 in Carta de Alexander Pope para Joanathan Swift, 5 de Dezembro de 1732.
 

segunda-feira, janeiro 25

"Conheço-o! Uma vez falámos!"

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Está fora de si. De madrugada conseguiu dormir uma horita, mas logo se ergueu, a andar para lá, para cá, hesitando se telefona ou vai escrever. Carta, claro, nada de e-mails.
Duas vezes teve a honra de lhe apertar a mão, e uma tarde em Bragança – o Professor tinha acabado uma aula no IPB – fez-se uma roda de admiradores e ele ficara um bocado a ouvi-lo, foi quando lhe disse que gostava muito das suas ideias e raro perdia a oportunidade de vê-lo na televisão.
Está decidido. Vai-lhe escrever, recordando o encontro, a simpatia, informá-lo de que lhe deu o seu voto, que se sente feliz com a extraordinária vitória. Extraordinária e retumbante. Anota num papel, não vá esquecer: extraordinária e retumbante. Talvez as escreva em maiúsculas. Cinquenta e dois porcento. Nunca visto. Excelência? Excelentíssimo Senhor Presidente da República? Caro Professor Marcelo é mais simpático, familiar, só que talvez pareça um bocadinho… Mas que lhe vai escrever vai, assegurando que está  indefectivelmente à disposição, e tem muito presente as boas palavras que lhe mereceu em Bragança.
Numa segunda carta falará da Alzira. A rapariga não consegue emprego, mas tem uma licenciatura em "Animação e Produção Artística", e em Belém há  festas, eventos, recepções…
" Excelentíssimo Senhor Presidente da República,"
Olha as palavras que acabou de escrever e sorri. Esperará uma semana, talvez duas, o que ainda não decidiu é se lha manda pelo correio ou vai a Lisboa entregá-la em mãos.

sexta-feira, janeiro 22

Perguntas

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Que mensagem trazia o cão preto, todo carinho e festas, que me apareceu no sonho?
Que disseram os olhos da estranha ao fitar-me na rua?
Donde virá a inquietude que me toma olhando o relógio, se não espero ninguém?
Por que recordo agora o que ambos chamávamos amor e era apenas uma invenção do nosso pouco sentir?
Donde vem este cansaço da alma, a iludir-me que carrego o peso do mundo?
O que causará a aparição dos rostos que quero esquecer e a memória insiste em chamar?
Traí, fui perdoado. Por que não se cala o remorso?
.............
A imagem é de Miguel Scheroff.

quinta-feira, janeiro 21

Porque será?

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A limpar o pó fui encontrá-lo entre os cerca de sessenta Livres de Poche espalhados aqui e ali. Não recordo que o tenha lido, o título nada me diz, o que sobretudo me surpreende é tê-lo comprado em São Paulo, numa altura em que a minha vida era uma de muita azáfama e grandes preocupações. Procura de distracção por certo não foi, menos ainda necessidade de leitura, que para isso me faltava vagar e vontade. Mas por quê, então? E porque será que a memória eliminou o momento?

 

quarta-feira, janeiro 20

Ettore Scola

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Há pessoas para com quem tenho dívidas impossíveis de pagar e Ettore Scola (10.05.1931 - 19.01.2016) é uma delas. Três dos seus filmes : C'eravamo tanto amati (1974); Brutti sporchi e cativi (1976); Una giornata particolare (1977) tiveram sobre mim um indescritível impacto.Vi-os não sei quantas vezes, descobrindo sempre algo novo, dando-me conta de como me influenciavam, ensinando-me a importância do justo detalhe, da sobriedade da descrição, do depuramento das emoções. Depois deles nunca o estilo da minha escrita seria o mesmo.
 



segunda-feira, janeiro 18

Confissões

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Confissões há que não faço porque, dando tempo à reflexão, concluo que aos olhos doutrem o resultado provavelmente será o contrário do desejado.
Calo algumas por receio, não vão julgar que me tomo por eleito, com sensibilidade mais fina e craveira alta. Por vezes fecho a boca no último instante, ao dar conta  que ainda as palavras não saíram todas, mas já o sorriso ou o esgar do outro me diz que tem opinião feita e sairei a perder.
De modo que me vejo num constante baloiço entre o desejo de comunicar, contar, confessar, e o temor de que o resultado não seja o que espero, talvez até se mostre contraproducente. É assim que, julgando-me falador passo por macambúzio, embora talvez nenhum dos qualificativos seja exacto e antes me caiba o de fala-só.     

sábado, janeiro 16

Não estás só

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Pudesse eu dar-te a mão, aliviar a dor, ser para ti quebra-mar. Estivesse no meu poder oferecer-te esquecimento, horas de paz, razões de esperança, guiar-te até ao porto de abrigo onde, largando âncora, voltasses a  encontrar repouso.
Olhas a rua e não compreendes o burburinho, a agitação, as razões daquela alegria, das pressas, dos sorrisos. É a que tão bem conheces, nela moras, mas que transformada pela melancolia parece estranha, uma aonde não pertences, cheia de desagradáveis surpresas e vagas ameaças.
 Ficarás à janela, absorta, perguntando-te o que terá acontecido para mereceres um destino de tantas sombras e falto de esperança, um em que as manhãs não são de luz, mas sempre de névoa.
Porque a dor ainda te prende de nada adianta gritar que não cedas ao desconsolo, deixes a janela, saias à rua. Mas, sabe-se lá, talvez te voltes e ao encarar-me dês conta de que não estás só.