terça-feira, janeiro 26
segunda-feira, janeiro 25
"Conheço-o! Uma vez falámos!"
(Clique)
Está fora de si. De madrugada conseguiu dormir uma horita, mas logo se ergueu, a andar para lá, para cá, hesitando se telefona ou vai escrever. Carta, claro, nada de e-mails.
Duas vezes teve a honra de lhe apertar a mão, e uma tarde em
Bragança – o Professor tinha acabado uma aula no IPB – fez-se uma roda de
admiradores e ele ficara um bocado a ouvi-lo, foi quando lhe disse que gostava
muito das suas ideias e raro perdia a oportunidade de vê-lo na televisão.
Está decidido. Vai-lhe escrever, recordando o encontro, a
simpatia, informá-lo de que lhe deu o seu voto, que se sente feliz com a
extraordinária vitória. Extraordinária e retumbante. Anota num papel, não vá
esquecer: extraordinária e retumbante. Talvez as escreva em maiúsculas. Cinquenta
e dois porcento. Nunca visto. Excelência? Excelentíssimo Senhor Presidente da
República? Caro Professor Marcelo é mais simpático, familiar, só que talvez
pareça um bocadinho… Mas que lhe vai escrever vai, assegurando que está indefectivelmente à disposição, e tem muito
presente as boas palavras que lhe mereceu em Bragança.
Numa segunda carta falará da Alzira. A rapariga não
consegue emprego, mas tem uma licenciatura em "Animação e Produção Artística",
e em Belém há festas,
eventos, recepções…
" Excelentíssimo Senhor Presidente da
República,"
Olha as palavras que acabou de escrever e sorri. Esperará
uma semana, talvez duas, o que ainda não decidiu é se lha manda pelo correio ou
vai a Lisboa entregá-la em mãos.
sexta-feira, janeiro 22
Perguntas
(Clique)
Que mensagem trazia o cão preto, todo carinho e festas, que me apareceu no sonho?
Que disseram os olhos da estranha ao fitar-me na rua?
Donde virá a inquietude que me toma olhando o relógio, se
não espero ninguém?
Por que recordo agora o que ambos chamávamos amor e era apenas
uma invenção do nosso pouco sentir?
Donde vem este cansaço da alma, a iludir-me que carrego o
peso do mundo?
O que causará a aparição dos rostos que quero esquecer e a
memória insiste em chamar?
Traí, fui perdoado. Por que não se cala o remorso?
.............
A imagem é de Miguel Scheroff.
quinta-feira, janeiro 21
Porque será?
(Clique)
A limpar o pó fui encontrá-lo entre os cerca de sessenta Livres de Poche espalhados
aqui e ali. Não recordo que o tenha lido, o título nada me diz, o que sobretudo
me surpreende é tê-lo comprado em São Paulo, numa altura em que a minha vida
era uma de muita azáfama e grandes preocupações. Procura de distracção por
certo não foi, menos ainda necessidade de leitura, que para isso me faltava vagar e vontade.
Mas por quê, então? E porque será que a memória eliminou o momento?
quarta-feira, janeiro 20
Ettore Scola
(Clique)
Há pessoas para com quem tenho dívidas impossíveis de pagar e Ettore Scola (10.05.1931 - 19.01.2016) é uma delas. Três dos seus filmes : C'eravamo tanto amati (1974); Brutti sporchi e cativi (1976); Una giornata particolare (1977) tiveram sobre mim um indescritível impacto.Vi-os não sei quantas vezes, descobrindo sempre algo novo, dando-me conta de como me influenciavam, ensinando-me a importância do justo detalhe, da sobriedade da descrição, do depuramento das emoções. Depois deles nunca o estilo da minha escrita seria o mesmo.
segunda-feira, janeiro 18
Confissões
(Clique)
Confissões há que não faço porque, dando tempo à reflexão, concluo que aos olhos doutrem o resultado provavelmente será o contrário do desejado.
Calo algumas por receio, não vão julgar que me tomo por
eleito, com sensibilidade mais fina e craveira alta. Por vezes fecho a boca no
último instante, ao dar conta que ainda
as palavras não saíram todas, mas já o sorriso ou o esgar do outro me diz que
tem opinião feita e sairei a perder.
De modo que me vejo num constante baloiço entre o desejo de
comunicar, contar, confessar, e o temor de que o resultado não seja o que
espero, talvez até se mostre contraproducente. É assim que, julgando-me falador
passo por macambúzio, embora talvez nenhum dos qualificativos seja exacto e antes
me caiba o de fala-só.
sábado, janeiro 16
Não estás só
(Clique)
Pudesse eu dar-te a mão, aliviar a dor, ser para ti quebra-mar. Estivesse no meu poder oferecer-te esquecimento, horas de paz, razões de esperança, guiar-te até ao porto de abrigo onde, largando âncora, voltasses a encontrar repouso.
Olhas a rua e não compreendes o burburinho, a agitação, as
razões daquela alegria, das pressas, dos sorrisos. É a que tão bem conheces, nela
moras, mas que transformada pela melancolia parece estranha, uma aonde não
pertences, cheia de desagradáveis surpresas e vagas ameaças.
Ficarás à janela,
absorta, perguntando-te o que terá acontecido para mereceres um destino de
tantas sombras e falto de esperança, um em que as manhãs não são de luz, mas
sempre de névoa.
Porque a dor ainda te prende de nada adianta gritar que não
cedas ao desconsolo, deixes a janela, saias à rua. Mas, sabe-se lá, talvez te
voltes e ao encarar-me dês conta de que não estás só.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







