domingo, maio 31

Entrevista DN 29.0515



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Gosta de ir à Feira do Livro?

Gosto por razões várias, diria até históricas, pois a primeira que visitei foi a de 1947. Tinha dezassete anos, era a primeira vez que vinha a Lisboa, aquilo pareceu-me um mar de gente com montanhas de livros. Fez-me grande impressão. Tenho ideia que era no Rossio, mas não garanto.

Deve ser o autor que de mais longe vem?

Trás-os-Montes não é assim tão longe, mas creio improvável que me convidassem se acontecesse estar em Amsterdam. Felizmente, a Feira coincide com a estadia na aldeia. Devo também assinalar que a Quetzal cuida tão bem de mim que vir à Feira toma aparências de mordomia.

Já teve algum incidente na Feira que o divertisse?

Que me divertisse não será a boa expressão, antes que me surpreendeu e, por segundos, quase me fez perder as estribeiras.
Dois anos atrás, quando acabava de lhe autografar um livro, um cavalheiro de uns quarenta e poucos anos perguntou-me à queima-roupa se determinado personagem de um conto meu era baseado no seu pai que, sabia ele, eu tinha conhecido. De facto assim era, mas num relâmpago dei-me conta que se  respondesse pela afirmativa o ia desgostar, confirmando a fraca reputação do progenitor. Optei pela mentira e foi ele descansado.

As pessoas gostam de lhe dar ideias para os seus livros?

Até hoje ninguém se atreveu. Além de que me pareceria mau gosto, não garanto a delicadeza da resposta.

Qual a memória mais marcante de uma Feira do Livro.

Ver-me ali pela primeira vez em 2010, não como visitante, mas como escritor, o que sinceramente me provocou um sentimento de irrealidade, assim como quem acorda de repente e se vê num palco.

As portuguesas são muito diferentes das do estrangeiro?

Nas feiras estrangeiras nota-se talvez um convívio mais cordial entre visitantes e escritores. Em Portugal as pessoas parecem manter uma certa distância, aquela atitude de não querer incomodar.

 Sobre Pó, Cinzas e Recordações.

O que contém este livro que mais possa surpreender o leitor?

Provavelmente a franqueza, o modo directo e desinibido, o gosto da partilha. Porque ao fim e ao cabo um diário escrito para ser publicado é, de certo modo, uma forma de conversa com um interlocutor imaginário, que se pressupõe capaz de sintonizar na mesma onda.

Há situações que pretendem espicaçar o leitor. Faz de propósito ou são reais?

Se o leitor se sente espicaçado é com ele. Eu simplesmente lhe apresento o meu  dia-a-dia, o relato daquilo que faço, sinto, ou me acontece. Não há ali um  propósito de efeito, ou construção. É o passar dos meus dias, é a minha vida.

Porque teima em escrever diários num país que prefere o esquecimento à memória?

Ter escrito apenas dois não me parece teimosia. Este escrevi-o porque me pareceu que assistir à passagem para o novo milénio era um acontecimento invulgar, mas também porque o meu editor holandês achou que valia a pena reincidir.
Sinceramente não me parece que no nosso país se prefira o esquecimento à memórias, diria antes que o café e a praia oferecem atractivos que a solidão da escrita não tem.

Como é que escreve o diário. Todas as semanas?

Tal como o nome indica: todos os dias. O mesmo faço há oito anos com "Tempo Contado", o meu blogue.

Toma notas ou escreve quase em definitivo?

Creio que se escrevesse a partir de notas o leitor ressentiria o fabricado, de maneira que arrisco, mas cuidando que a prosa saia escorreita.

Disfarça os 'protagonistas'?

Nem sequer os nomes disfarço. Não faria sentido, além de que também aí o leitor se ia dar conta da falta de sinceridade, de que não se tratava de uma conversa franca, mas de uma mistificação, uma tentativa de impingir sentimentos, inventar situações. 

sexta-feira, maio 29

"Vou bem"

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Antes o silêncio do que deixar ouvir o queixume, a desilusão, a melancolia, pois também aos outros há-de ser de sobra o que os aflige. Por isso melhor é calar, esconder a mágoa, e ao corriqueiro "como vais?" dar sempre a esperada resposta, embora o "vou bem" não iluda. É apenas ruído, máscara, subterfúgio igual ao dos animais que, por defesa, escondem o ferimento.
Para sossego geral há que esconder a pena, mostrar o sorriso, ir de cabeça erguida como quem tem um propósito ou corre para uma meta.


quarta-feira, maio 27

A grande felicidade


Há algo de insólito e injusto nos momentos de grande felicidade. São intransmissíveis, desconhecem a partilha, as palavras com que se tentaria descrevê-los ficam aquém. Resultam, de facto, numa forma de solidão e abandono, como se a grande felicidade tivesse por único fim deixar aperceber uma réstia de esperança pela existência de algo mais elevado do que a condição humana.
Pede recolhimento, pudor, traz consigo a visão da nossa incrível pequenez, e ao fazer-nos melhores deixa-nos desamparados.
Sermos medianamente felizes, balançando entre um pouco de sofrimento e um pouco de satisfação, é mais conforme com a nossa natureza.

terça-feira, maio 26

Admiração

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De repente levanta-se, ergue os braços ao modo de um muçulmano invocando Alá, detém-se um instante, volta sentar-se e conta pelos dedos, não vá eu ter dificuldade em seguir: fulano, sicrano, beltrano.
Para que ninguém se aflija ou aborreça, passo os nomes.
Encara-me, dramatizando o gesto, elevando a voz:
- Gigantes! Pense você o que quiser, mas são gigantes! Verdadeiros gigantes!
Aceno que sim, não porque concorde, mas para que se acalme.
- E há aquele rapaz – cerra os olhos em concentração. – Aquele rapaz que possui  uma escrita maravilhosa. Se você não leu deve ler, absolutamente. Estou a ver a cara. Tem umas barbas. O outro também tem, mas não é esse. Daqui a nada lembro-me do nome. Quando me irrito ou quando parece que nem à viva força, é sempre isto… Tenho excelente memória, o problema é que não consigo, se as pessoas se mostram…
O telemóvel toca e ele atende, ouve calado de sobrolho franzido, os minutos passam. Tempo depois acena uma desculpa, que se despede, vejo-o ir por entre as cadeiras da esplanada.
Passa dos setenta e, como D. Quixote, imagina gigantes: não para combatê-los, mas para satisfazer o seu anseio de admiração.

segunda-feira, maio 25

Santo de casa ...

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A entrevista pode ser lida aqui, aqui e aqui.

domingo, maio 24

Escrita criativa

Quem estiver interessado em aprender como se faz boa figura com a roupa alheia pode ir aqui Curioso cabeçalho. O texto sem aspas. No fim, como se caído ali por acaso e a fazer de má desculpa, o abaixo assinado.
(*) O original