quinta-feira, dezembro 24

Depois das rabanadas

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Para conversar em paz logo à noite, depois das rabanadas:

“Com os nossos devemos manter alta a craveira do amor do próximo, mas para com os outros temos a obrigação de que essa craveira se adapte à realidade.”

“Não digo: abram as portas e acabem com as fronteiras.  Certamente amo o próximo, mas à noite aferrolho a porta.”

“A generosidade não é uma função do Estado. Considerar que se devem acolher todos os refugiados demonstra ingenuidade e falta do sentido da realidade.”

quarta-feira, dezembro 23

Achar bem, achar mal

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Na Holanda, e creio que também nos países nórdicos, quem dispõe de poucos meios e, por razões de doença ou impossibilidade, passa a ser cuidado pelo estado, a lei estipula que a pessoa em questão terá de ceder parte das suas economias e, no caso de possuir casa, essa será vendida, compensando assim parte da despesa que custará ao estado.
Os bem-pensantes acham bem.

Desde a semana passada foi decretado na Dinamarca que os refugiados e a sua bagagem sejam revistados à chegada, e confiscadas as importâncias em dinheiro e outros valores que transportem, para que de certa maneira compensem o custo dos benefícios que vão receber.

Os bem-pensantes acham mal.

terça-feira, dezembro 22

Ritual


- Votos de paz e felicidade.
- A sério?
- A sério.
- Não vês? Perdeste a memória?
- Não perdi. Fecho os olhos. Votos de paz e felicidade.

sexta-feira, dezembro 18

Star Wars

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Também eu só falo do que pouco adianta, e o que escrevo conta ainda menos,  são tudo passos ao lado, nuvens de fumo, divertimentos, um fazer de conta, porque mesmo tocando ao de leve no que verdadeiramente aflige, dói fundo, o que se esconde aferrolhado, pouco sobra que dê razão a festejos, aos brados de graças a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade.
Que paz, se entre as famílias e as nações é mais a guerra? E que paz, que verdadeira e duradoura paz pode alcançar quem tem dois dedos de cabeça e olha em redor?
É mais apropriado do que parece ter Star Wars pelo Natal.

quinta-feira, dezembro 17

O caldo de galinha preta

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Cada um pensa, acredita e exprime o que lhe apetece, ninguém tem a ver com isso. Infelizmente, o problema põe-se quando amigos que sabemos excepcionalmente argutos e dotados de superior inteligência, começam a defender o indefensável, a mostrar que compreendem o absurdo, desculpam o que não pode ter desculpa, exigem aos gritos que se veja branco onde a evidência e os olhos sem cataractas só vêem preto.
Pode ser cegueira, ataque de fanatismo, acesso de loucura de que talvez um dia, o caso arrumado, se venham a curar. Pode ser também que lhes tenham dado o famoso e eficiente caldo de galinha preta, aquele que no longe dos tempos trouxemos de África, e de que também fala o Livro de São Cipriano.
Entram nele canja de galinha preta, mênstruo, rosmaninho, incenso, entranhas de sapo, um cozimento de carne de cobra e outros ingredientes que é melhor não revelar.
Consta que o faziam antigamente as mulheres de Ílhavo, e o davam a comer aos seus homens antes de saírem a pescar na Terra Nova, não fossem eles morder o anzol de alguma loira de pele macia das de lá. Na minha juventude também as do Alto Minho o davam aos maridos e aos rapazes em maré de tentação. Comido o caldo, os pobres andavam por ali como zombies, perdiam por inteiro a vontade, só viam o que queriam ver.

 

quarta-feira, dezembro 16

Brandos costumes

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Desengane-se quem me julgar de zaragatas. Não é só a idade que me faz evitá-las, mas uma aversão congénita a violência, berreiros, demonstrações de força, mais o que no comportamento toca o irracional.
Devo confessar, porém, que entre a bruteza de ucranianos aos socos no parlamento de Kiev, e os minuetes que se dançam em São Bento com abundância de Vossas Excelências, involuntariamente tendo a simpatizar com a atitude dos primeiros e a torcer o nariz a tanta cortesia.
Claro que em São Bento há debates – "acesos", como lhes chamam nos jornais – e até oposições, arrebatamentos, punhos estendidos, mas é muito para inglês ver e com palmadinhas nas costas, abraços nos corredores, piscadelas de olho de bom entendimento.
Ao fim e ao cabo nada há a fazer: desculpamos a nossa hipocrisia e a falta de espinha com a treta dos brandos costumes.