terça-feira, maio 26

Admiração

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De repente levanta-se, ergue os braços ao modo de um muçulmano invocando Alá, detém-se um instante, volta sentar-se e conta pelos dedos, não vá eu ter dificuldade em seguir: fulano, sicrano, beltrano.
Para que ninguém se aflija ou aborreça, passo os nomes.
Encara-me, dramatizando o gesto, elevando a voz:
- Gigantes! Pense você o que quiser, mas são gigantes! Verdadeiros gigantes!
Aceno que sim, não porque concorde, mas para que se acalme.
- E há aquele rapaz – cerra os olhos em concentração. – Aquele rapaz que possui  uma escrita maravilhosa. Se você não leu deve ler, absolutamente. Estou a ver a cara. Tem umas barbas. O outro também tem, mas não é esse. Daqui a nada lembro-me do nome. Quando me irrito ou quando parece que nem à viva força, é sempre isto… Tenho excelente memória, o problema é que não consigo, se as pessoas se mostram…
O telemóvel toca e ele atende, ouve calado de sobrolho franzido, os minutos passam. Tempo depois acena uma desculpa, que se despede, vejo-o ir por entre as cadeiras da esplanada.
Passa dos setenta e, como D. Quixote, imagina gigantes: não para combatê-los, mas para satisfazer o seu anseio de admiração.

segunda-feira, maio 25

Santo de casa ...

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A entrevista pode ser lida aqui, aqui e aqui.

domingo, maio 24

Escrita criativa

Quem estiver interessado em aprender como se faz boa figura com a roupa alheia pode ir aqui Curioso cabeçalho. O texto sem aspas. No fim, como se caído ali por acaso e a fazer de má desculpa, o abaixo assinado.
(*) O original

sábado, maio 23

Perder não importa

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Leio sobre lugares inacessíveis, gozos proibidos, ocasiões que não voltam, cumes inalcançáveis, esperanças perdidas.
Entro no sonho alheio, fascinado, e continuo a ler, seguindo o trilho de uma vida  que foi e já não é, porque a idade não perdoa, deixando a quem tudo quis e muito viveu o amargo da memória e a impiedade do tempo, a erosão do corpo, o rosário de perdas, quedas e decepções.
Mas perder não importa, o verdadeiro inferno é reservado para quem se dá conta de não ter vivido.
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O testemunho é de Andrea Stuart.

sexta-feira, maio 22

Naquela parte de mim

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"Recordo. Há vezes que manipulo sem dar conta, passo por alto o que deveria esmiuçar para ver claro no que me rodeava, no sentir de então, naquela parte de mim que por defesa sempre escamoteio. E pergunto-me: para quê? Por que remexo no que findou, um passado que a ninguém interessa, que de facto agora só a ela toca?
Mal chegado ainda, e lugares, memórias, gente, as palavras, tudo me parece de  um tempo estranho num país que nunca foi, tão enraizada tenho a vontade de eliminar, reduzir a nada, livrar-me dos fantasmas que aqui me atormentam.
Poucos compreenderão como é possível sentir-me bem num lugar que me desagrada, privando com gente que só na condição me é semelhante, no meio da qual me obrigo a uma aparência que me fez tão consumado actor que por vezes a mim próprio surpreendo, encontrando mais conforto no papel que represento do que na pessoa que sou."

quinta-feira, maio 21

A palmatória

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É profissão que com gosto, contentamento, proveito para mim e para outros desempenhei trinta e poucos anos, mas ensinar não é a minha paixão. Aprender sim, e felizmente todos os dias aprendo, não pela ganância de amealhar um capital de conhecimento, ou de me querer sentir superior pela erudição, mas pelo simples gosto da descoberta e, na medida que a cabeça que tenho mo permite, afinar o entendimento.
Por vezes, todavia, como num acesso de febre, ocorrem situações em que o mestre vem ao de cima, imagino-me então de dedo erguido, pronto a dar a este ou àquele a lição que merece. Felizmente, só raro chego ao que se poderia chamar vias de facto, deito mão à sabedoria dos provérbios, dizendo-me que não vale a pena gastar cera com ruim defunto ou, à francesa, que l'enjeu ne vaut pas la chandelle.
Mesmo assim há horas em que só por triz escapo à tentação de leccionar, de chamar os bois pelos nomes, sentindo pena de que a palmatória tenha caído em desuso.

quarta-feira, maio 20

Na "2" os locais arregalam os olhos

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Cheios de boas intenções, cosmopolitas que baste, mas genuinamente pascácios e tão entranhados de English que lhes parece de terceira ou quarta a língua que mamaram. E então, quando a terra treme os locais andam por ali de olhos arregalados e com as crianças ao colo.
Também reparei na maneira como a dama segura a chapa. Deve ter sido para o retrato, ou a coisa não tinha peso.

terça-feira, maio 19

A Alice costuma avisar



O texto que segue é ficção e data de Janeiro de 2009. Lembrei-me dele quando dias atrás me vi a tomar parte numa conversa em que, embora diferentes, o teor e os subentendidos estranhamente mo trouxeram à lembrança.


"Entro e vou sentar-me junto dos outros em volta da lareira. Quatro mulheres, dois homens. A conversa interessa-os de tal modo que mal me encaram, e ao “Boas-tardes” respondem com um breve aceno.
......................
- Esse era o Gaspar.
- Ai não era o Júlio?
- Não. Esse era o Gaspar, o que casou com a Celeste. A mais nova.
- Mas então o Júlio..
- O Júlio é o que tinha a loja de panos.
- O que foi para Angola?
- Exactamente.
- O irmão já lá estava.
- O irmão já lá estava, e continua a estar, mas dá-se mal com o clima.
- A minha sobrinha é o contrário. Só gosta de calor. E praia. Agora anda a pensar...
- Mas então o Gaspar não foi o que esteve mal dos pulmões, e depois houve um acidente qualquer....
- Não. O Gaspar teve um cancro. Dizem que se calhar...
- E a Celeste?
- Também lá está. Mas se ele falecer volta logo, porque se dá muito mal com a pretalhada.
- A minha sobrinha também não gosta nada deles. Nem os garotos. A mais novita anda sempre a pedir... Coitadinha! É muito engraçada, aquela menina!... Ajoelha-se diante da mãe, de mãos postas, Ó mamã! Vamos embora! Ó mamã! Vamos embora!... Riem-se muito com ela!
- Quanto valerá o terreno que os Macedos têm ao pé da bomba de gasolina?
- Pelo que fica atrás da farmácia deram quinze mil e quinhentos contos. Agora...
- Quanto é isso em euros? Chega aí um papel.
- Ontem na Urgência encontrei o Sebastião com a mãe. Parece que não escapa. Querem levá-la para o Porto, mas ouvi dizer...
- Também com aquela idade!
- Seiscentos e quarenta mil e...
- Não pode ser! Dá cá o papel.
- A Alice já devia ter chegado. Será por causa do irmão?
- Ela costuma avisar. Mas hoje ainda não telefonou.
.....................
Amodorrei. Depois, perdido nos meus pensamentos e hipnotizado pelas chamas, devo ter cabeceado. Levantei-me como quem procura qualquer coisa e saí sem ninguém dar conta."