terça-feira, dezembro 22
sexta-feira, dezembro 18
Star Wars
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Também eu só falo do que pouco adianta, e o que escrevo
conta ainda menos, são tudo passos ao
lado, nuvens de fumo, divertimentos, um fazer de conta, porque mesmo tocando ao
de leve no que verdadeiramente aflige, dói fundo, o que se esconde aferrolhado,
pouco sobra que dê razão a festejos, aos brados de graças a Deus nas alturas e
paz na Terra aos homens de boa vontade.
Que paz, se entre as famílias e as nações é mais a
guerra? E que paz, que verdadeira e duradoura paz pode alcançar quem tem dois
dedos de cabeça e olha em redor?
É mais apropriado do que parece ter Star Wars pelo Natal.
quinta-feira, dezembro 17
O caldo de galinha preta
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Cada um pensa, acredita e exprime o que lhe apetece, ninguém
tem a ver com isso. Infelizmente, o problema põe-se quando amigos que sabemos excepcionalmente
argutos e dotados de superior inteligência, começam a defender o indefensável, a
mostrar que compreendem o absurdo, desculpam o que não pode ter desculpa, exigem
aos gritos que se veja branco onde a evidência e os olhos sem cataractas só
vêem preto.
Pode ser cegueira, ataque de fanatismo, acesso de loucura
de que talvez um dia, o caso arrumado, se venham a curar. Pode ser também que
lhes tenham dado o famoso e eficiente caldo de galinha preta, aquele que no
longe dos tempos trouxemos de África, e de que também fala o Livro de São
Cipriano.
Entram nele canja de galinha preta, mênstruo, rosmaninho,
incenso, entranhas de sapo, um cozimento de carne de cobra e outros
ingredientes que é melhor não revelar.
Consta que o faziam antigamente as mulheres de Ílhavo, e o
davam a comer aos seus homens antes de saírem a pescar na Terra Nova, não
fossem eles morder o anzol de alguma loira de pele macia das de lá. Na minha
juventude também as do Alto Minho o davam aos maridos e aos rapazes em maré de
tentação. Comido o caldo, os pobres andavam por ali como zombies, perdiam por
inteiro a vontade, só viam o que queriam ver.
quarta-feira, dezembro 16
Brandos costumes
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Desengane-se quem me julgar de zaragatas. Não é só a idade
que me faz evitá-las, mas uma aversão congénita a violência, berreiros, demonstrações
de força, mais o que no comportamento toca o irracional.
Devo confessar, porém, que entre a bruteza de ucranianos aos
socos no parlamento de Kiev, e os minuetes que se dançam em São Bento com
abundância de Vossas Excelências, involuntariamente tendo a simpatizar com a
atitude dos primeiros e a torcer o nariz a tanta cortesia.
Claro que em São Bento há debates – "acesos", como
lhes chamam nos jornais – e até oposições, arrebatamentos, punhos estendidos,
mas é muito para inglês ver e com palmadinhas nas costas, abraços nos
corredores, piscadelas de olho de bom entendimento.
Ao fim e ao cabo nada há a fazer: desculpamos a nossa
hipocrisia e a falta de espinha com a treta dos brandos costumes.
terça-feira, dezembro 15
"O nosso gajo"
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Desde há tempos, almas bem intencionadas, mas ingénuas, sussurram-me
que aproveite a ocasião, porque "o nosso gajo" é único, nunca se viu semelhante personagem, dava um grande romance.
Escuto com o sorriso da simpatia, e tenho a bondade de não
contradizer, mas não lhes explico o motivo do meu desinteresse, fora que acho a
modo de abuso que alguém, embora com as melhores intenções, venha sugerir o que
devo plantar na minha horta.
Há ainda o facto de que, por muito complexa que seja a
pessoa, emaranhadas as suas andanças e araganças, pouco trabalho daria
encontrar na história, na literatura, e mesmo no dia a dia, quem lhe leve a
palma.
O caso é que são sem conta os que vivem no fascínio do
imediato: nada sabem do que foi, não lhes interessa o que será, supõem que o
mundo acorda com eles e se deita à mesma hora.
segunda-feira, dezembro 14
A luta de classes
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A luta de classes, terrível, silenciosa, envergonhada, a que se sente na pele e Marx não estudou, mais dramática do que a das sociedades, rebenta em silêncio nas famílias em que os pais, com sacrifícios, privações, aceitando vergonhas, conseguiram elevar os filhos ao patamar social que para eles tinham sonhado, e descobrem pouco a pouco, noutras ocasiões a modos de bomba que explode, que traziam o inimigo nas entranhas.
Ao acaso das conversas, em momentos de fraqueza e
desespero, ouvem-se então confidências
que arrepiam, meias palavras que encerram tanto drama como os clássicos do
teatro, vemos os olhos humedecer-se, não de lágrimas, mas de espanto e das indizíveis
dores da alma.
Nada custa imaginar tragédias, distrai o vivê-las confortavelmente
diante da televisão, mas ai de nós
quando um pai ou uma mãe, sentindo que o fim se aproxima, nos toma por
confessor.
domingo, dezembro 13
Viva a rainha Máxima
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Há quem se aflija por tudo e por nada, fale do que não sabe,
meta o nariz onde não é chamado, tome ares de perito quando melhor seria fechar
a boca.
Levantou-se há tempos na Holanda uma diminuta controvérsia
acerca da maneira como em banquetes a rainha Máxima segura o copo. Afirmavam os que "sabem", que era uma vergonha
vê-la pegar no copo de uma tão proletária maneira. Olhasse para o presidente da
China e aprendesse.
Ora acontece que o pé do cálice teve a sua origem na
necessidade de evitar que o odor das mãos (antigamente nem sempre limpas) influísse
nos eflúvios do vinho. A maneira real é a aprovada pelo bom senso, a etiqueta, e a certeza da higiene.
Por isso e mais, viva a rainha Máxima.
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