terça-feira, março 24

O último metro

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Em Paris, a meio dos anos cinquenta, a Guerra Mundial uma recordação longínqua e o Existencialismo no auge, oferecendo saborosas previsões das liberdades que iriam chegar, a vida dava gosto, sentia-se fundo o privilégio de ser jovem, não aceitar peias à alegria de viver.
Cada geração conhece pontos altos, mas a minha tinha razões de sobra para entusiasmo e esperança: havia mundos a descobrir, liberdades a conquistar, a noção do longe e do exótico acordava sonhos, faziam-se planos de visitas à Índia, ao Japão, aos mosteiros do Tibete, aos rios da Amazónia.

Entre amores, passeios, conversas e um ou outro percalço, íamos ganhando o pão-nosso de cada dia, logo esbanjado com a descuidada alegria de quem só conhece amanhãs que cantam e se sente abençoado com sólidas amizades.

Foi então que num fim de tarde, entre recados para cafés, telefonemas a este e àquela, alarmes, urgências, aflições, nos vimos no apartamento de Nicole que, traída por Elvira, a sua paixão, cortara os pulsos e absorvera sedativos bastantes para adormecer um cavalo.

Salvou-a o feliz acaso da concierge lhe ir entregar o correio, e a presteza com que Labib, médico e amigo de nós todos correra a acudir. Éramos agora ali uns vinte ou mais e, passado o susto, Nicole livre de perigo, tínhamos comido,  bebido, discutido, esquecidos do tempo, espantados quando alguém lembrou que àquela hora já  le balai”, o último metro, tinha passado, quem vivesse longe teria de se desenrascar. Mas a conversa continuou e, fora um ou outro que era vizinho, ficámos à conversa até que o sono pôde mais.

Camas havia duas: a de Nicole com lugar para mais dois, na outra cabiam também três, o resto teria de se acomodar onde calhasse. Fez-se uma rifa para a cama livre, coube a sorte a Raymond (encontram-no na página 15 de Mazagran), à doce Jacqueline e a este que assina.

Era Verão, o muito calor não consentia roupa, Jacqueline sugeriu deitar-se entre nós, e assim fez, depois de castamente nos beijar na face.

Dormimos de um sono, quando acordámos o Sol começava a baixar.

segunda-feira, março 23

Ser "marca"

Nada perdura, e contudo são milhões os que desejam ser "marca", pouco importando a esta se tem de fotografar o traseiro, àquela exibir-se topless, um enchendo de pingentes as orelhas, outro a garantir-se satanista encartado, todos juntos a viver a ilusão de que os achem únicos, todos juntos esquecidos do dito antigo que tudo o que é demais aborrece.
Querendo à viva força ser "marca", distinguir-se, afundam-se eles e elas num pantanal de uniforme banalidade, por vezes nem chegando a gozar os quinze – ou serão cinco? – minutos de fama que Andy Wharol profetizou, também ele "marca", também ele irremediavelmente passé, esquecido – Andy Wharol who?  – que de nada adianta a presunção nem o desejo, a ânsia de eternidade, certo e seguro que até o dia virá em que as criancinhas perguntarão o que era a Coca-Cola.
A sociedade em geral, e cada um em particular, todos ganharíamos se, juntamente com o lixo, descartássemos também a presunção de nos julgarmos únicos. Porque por muito que o repita a lei, a religião, a democracia e uma outra mãe, nunca o somos. Parecemos. Nem marca ou ferrete nos distingue, somos poeira e, doa às vaidades, à poeira voltamos.


domingo, março 22

Morrinha


Curioso, estranho afazer, este alinhavar palavras, deitadas ao ar uma manhã de domingo, para serem apanhadas – se o forem -  sabe-se lá por quem e em que estado de alma. Talvez por jovem que se pergunta que sentido, que mensagem, podem encerrar as frases soltas de um estranho. Pode ser que a mulher tenha passado por acaso e, curiosa, as vá ler até ao fim, na esperança de que transmitam uma simpatia, camaradagem, sinais de carinho. Ao indiferente bastará um relancear para saber que prosa desta não é o que procura, e o triste talvez se sinta em demasia abalado para encontrar alívio nas palavras doutrem.
E assim por diante, eu a imaginar estranhos a ler isto, supondo neles estados de alma, julgando-me capaz de despertar neste e naquele alguma simpatia, um sorriso ou, melhor do que indiferença, talvez um benévolo franzir de sobrolho.

Nuvens cinzentas, morrinha, a humidade a escorrer nos muros, ruas desertas. Numa manhã assim, com que palavras se recordam os dias de sol?

sábado, março 21

Recordar é sorrir

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Tinham-me convidado, insistindo que não faltasse, e lá fui. Ao “Jantar dos Escritores da Esquerda”, organizado “Célula dos Escritores Comunistas” no Mercado do Povo, em Belém. Dezoito de Junho de mil novecentos e setenta e sete.
Da esquerda ou não, entre amigos, menos amigos, olás, conhecidos, desconhecidos, ilustres e menos ilustres, estavam ali tutti quanti que dum ou doutro modo tinham a ver com as Letras. Recordo Mário Dionísio, Manuel Ferreira, Jorge Reis, Isabel da Nóbrega, Eduardo Prado Coelho, José Gomes Ferreira, Baptista-Bastos, Álvaro Guerra, José Cardoso Pires...
Tirei más fotografias, ouvi isto e aquilo, com um sorriso releio algumas das anotações que fiz desse longínquo jantar.

O que o preocupava era saber em que momento iriam cantar a ‘Internacional’, porque teria de sair antes.
- Tenho de sair antes, pá, senão estou lixado! Por causa do jornal!
Inquieto, os olhos a rebolar, num sobressalto quando o Rui Nunes, agarrando-o pelo braço lhe perguntou:
- Onde é que se mija?

- "O P... quis fazer cá uma Associação dos Grandes Resistentes Antifascistas. Só desistiu pelo perigo que lhe apontei de que os mal intencionados fariam logo gracinhas com as várias associações de ‘Grandes Feridos, Grandes Mutilados, grandes isto e grandes aquilo, como há em França. Por isso é que a coisa não avançou. Uma pena!"

Num bom discurso Mário Dionísio falava de Alves Redol. Sentado ao meu lado, X., que só bebia água, levantou-se e, sem razão que se adivinhasse, apontando-me, interrompeu o orador com um grito:
- É nossa obrigação! Devemos! Temos de auxiliar os filhos dos nossos emigrantes! Esses valorosos obreiros que lá fora lutam para que...
Mas a conclusão não vinha e Mário Dionísio retomou o discurso.
Quase no fim, quando já se tinha bebido o bastante para esquecer o que nos juntara ali:
– As nossas Forças Armadas, com aqueles alamares, aqueles debruns, os galões dourados, e fitas, e palmas, medalhas...
- E uns naviozitos que se não são traineiras pouco lhes falta!
- Espera aí! Ao dizer Forças Armadas eu estava a pensar no Exército, só no Exército!
- Errado! A Marinha também é Forças Armadas, muito bem assim como os paraquedistas, os comandos, a GNR...
- A GNR?
- Pois claro! E a Guarda Fiscal, o Otelo, e o outro... aquele gordo!...
- O Ernesto Lourenço?
- Não! O Ernesto é o outro! Eu digo aquele, um que...
- O Vasco?
- Exactamente.
- Mas em termos de, digamos, neste contexto, em termos de revolução...
- Ah! Você não leu Marx, não leu o Engels!...
- Não digo que li ou deixei de ler! Nem isso aqui importa. Aliás, você interrompe-me sem saber o que vai seguir!
- Diga lá.
- Pois bem, em termos de revolução...
Mas nesse momento chegou C., muito moreno, perguntaram-lhe se vinha do Algarve.
- Do Algarve? Venho do Alentejo!
Fazendo com os dedos um V e gritando um alegre "No pasarán!", virou-nos as costas.
- Este filho da puta tem uma sorte! Vocês já viram a sueca que o gajo arranjou?

sexta-feira, março 20

Mamas e petróleo

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"Dos doze países com as maiores reservas de petróleo, apenas o Canadá é uma nação decente. A Venezuela vem em primeiro lugar, seguida da Arábia Saudita, Canadá, Irão, Iraque, Koweit, União dos Emirados Árabes, Rússia, Líbia, Nigéria, Cazaquistão e Qatar.
O dinheiro do petróleo desaparece no bolso de uns poucos, as ditaduras são trocadas por presidentes corruptos, os países árabes produtores de petróleo são meras empresas familiares. Na Nigéria apenas a população aumenta. A quase totalidade das receitas do Estado venezuelano provém do petróleo e do gás, mas os últimos presidentes têm-nas utilizado na fundação de um tresloucado socialismo. A única coisa que na Venezuela não pára de crescer são os seios. Um terço das venezuelanas tem um prótese mamal."
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Elsevier Magazine, 14.03.2015