domingo, março 22

Morrinha


Curioso, estranho afazer, este alinhavar palavras, deitadas ao ar uma manhã de domingo, para serem apanhadas – se o forem -  sabe-se lá por quem e em que estado de alma. Talvez por jovem que se pergunta que sentido, que mensagem, podem encerrar as frases soltas de um estranho. Pode ser que a mulher tenha passado por acaso e, curiosa, as vá ler até ao fim, na esperança de que transmitam uma simpatia, camaradagem, sinais de carinho. Ao indiferente bastará um relancear para saber que prosa desta não é o que procura, e o triste talvez se sinta em demasia abalado para encontrar alívio nas palavras doutrem.
E assim por diante, eu a imaginar estranhos a ler isto, supondo neles estados de alma, julgando-me capaz de despertar neste e naquele alguma simpatia, um sorriso ou, melhor do que indiferença, talvez um benévolo franzir de sobrolho.

Nuvens cinzentas, morrinha, a humidade a escorrer nos muros, ruas desertas. Numa manhã assim, com que palavras se recordam os dias de sol?

sábado, março 21

Recordar é sorrir

(Clique)

Tinham-me convidado, insistindo que não faltasse, e lá fui. Ao “Jantar dos Escritores da Esquerda”, organizado “Célula dos Escritores Comunistas” no Mercado do Povo, em Belém. Dezoito de Junho de mil novecentos e setenta e sete.
Da esquerda ou não, entre amigos, menos amigos, olás, conhecidos, desconhecidos, ilustres e menos ilustres, estavam ali tutti quanti que dum ou doutro modo tinham a ver com as Letras. Recordo Mário Dionísio, Manuel Ferreira, Jorge Reis, Isabel da Nóbrega, Eduardo Prado Coelho, José Gomes Ferreira, Baptista-Bastos, Álvaro Guerra, José Cardoso Pires...
Tirei más fotografias, ouvi isto e aquilo, com um sorriso releio algumas das anotações que fiz desse longínquo jantar.

O que o preocupava era saber em que momento iriam cantar a ‘Internacional’, porque teria de sair antes.
- Tenho de sair antes, pá, senão estou lixado! Por causa do jornal!
Inquieto, os olhos a rebolar, num sobressalto quando o Rui Nunes, agarrando-o pelo braço lhe perguntou:
- Onde é que se mija?

- "O P... quis fazer cá uma Associação dos Grandes Resistentes Antifascistas. Só desistiu pelo perigo que lhe apontei de que os mal intencionados fariam logo gracinhas com as várias associações de ‘Grandes Feridos, Grandes Mutilados, grandes isto e grandes aquilo, como há em França. Por isso é que a coisa não avançou. Uma pena!"

Num bom discurso Mário Dionísio falava de Alves Redol. Sentado ao meu lado, X., que só bebia água, levantou-se e, sem razão que se adivinhasse, apontando-me, interrompeu o orador com um grito:
- É nossa obrigação! Devemos! Temos de auxiliar os filhos dos nossos emigrantes! Esses valorosos obreiros que lá fora lutam para que...
Mas a conclusão não vinha e Mário Dionísio retomou o discurso.
Quase no fim, quando já se tinha bebido o bastante para esquecer o que nos juntara ali:
– As nossas Forças Armadas, com aqueles alamares, aqueles debruns, os galões dourados, e fitas, e palmas, medalhas...
- E uns naviozitos que se não são traineiras pouco lhes falta!
- Espera aí! Ao dizer Forças Armadas eu estava a pensar no Exército, só no Exército!
- Errado! A Marinha também é Forças Armadas, muito bem assim como os paraquedistas, os comandos, a GNR...
- A GNR?
- Pois claro! E a Guarda Fiscal, o Otelo, e o outro... aquele gordo!...
- O Ernesto Lourenço?
- Não! O Ernesto é o outro! Eu digo aquele, um que...
- O Vasco?
- Exactamente.
- Mas em termos de, digamos, neste contexto, em termos de revolução...
- Ah! Você não leu Marx, não leu o Engels!...
- Não digo que li ou deixei de ler! Nem isso aqui importa. Aliás, você interrompe-me sem saber o que vai seguir!
- Diga lá.
- Pois bem, em termos de revolução...
Mas nesse momento chegou C., muito moreno, perguntaram-lhe se vinha do Algarve.
- Do Algarve? Venho do Alentejo!
Fazendo com os dedos um V e gritando um alegre "No pasarán!", virou-nos as costas.
- Este filho da puta tem uma sorte! Vocês já viram a sueca que o gajo arranjou?

sexta-feira, março 20

Mamas e petróleo

(Clique)
"Dos doze países com as maiores reservas de petróleo, apenas o Canadá é uma nação decente. A Venezuela vem em primeiro lugar, seguida da Arábia Saudita, Canadá, Irão, Iraque, Koweit, União dos Emirados Árabes, Rússia, Líbia, Nigéria, Cazaquistão e Qatar.
O dinheiro do petróleo desaparece no bolso de uns poucos, as ditaduras são trocadas por presidentes corruptos, os países árabes produtores de petróleo são meras empresas familiares. Na Nigéria apenas a população aumenta. A quase totalidade das receitas do Estado venezuelano provém do petróleo e do gás, mas os últimos presidentes têm-nas utilizado na fundação de um tresloucado socialismo. A única coisa que na Venezuela não pára de crescer são os seios. Um terço das venezuelanas tem um prótese mamal."
………..
Elsevier Magazine, 14.03.2015
 

quarta-feira, março 18

Mau olhado

(Clique)

Diz-se que a partir de certa idade alcançamos, não somente alguma paz de espírito, mas também certa dose de sabedoria.
Falando por mim, ou a proposição está errada ou o meu caso foge à regra, pois raro passa dia em que não encontre motivo de aborrecimento ou razão para, esquecendo as conveniências e as boas maneiras, me ver a reagir com vocabulário adequado à rasteira que me passaram ou ao prejuízo que com uma aldrabice sofri.
Escusam de me recordar que a vida é de altos e baixos, que nela nem tudo são rosas, ou que também estas nos acenam com perfumes e coloridos antes de mostrarem os espinhos. O caso é que nos últimos dias tenho suportado um número tal de contratempos e desaires que a sério me inclino para a hipótese do mau olhado. E contra este, aqui fica o aviso, de nada vale a experiência dos muitos anos.

terça-feira, março 17

Electricidade e magnetismo

(Clique)

Uns gostam, outros suportam-nas com um sorriso e aqueles acenos que demonstram interesse. Os que são como eu ressentem tonturas. Falo daquelas conversas em família ou entre amigos, quando tudo parece girar em torno do que a avó disse, da doença do tio, do preço da gasolina, de como o almoço estava bom, mesmo bom, mas nada que se compare àquele do ano passado, na Mealhada. Vocês lembram-se? Quando a tia Aurora ao levantar-se da mesa escorregou e partiu a perna? Se fosse hoje...
Aborrecimentos assim fazem-me devanear, enchem-me de inveja de não ter vivido na Viena dos primeiros decénios do século passado, ou na Madrid da mesma época, quando a conversa de café se elevou à qualidade de verdadeira arte.
Comparando o espírito desse tempo com o meu próprio, o da gente que me rodeia, ou as graças tolas que a televisão debita, nem é preciso que chova às bátegas, como neste fim de manhã, para me pôr a olhar para o frasco de Valium com apetites de alcoólico. E vontade de me meter na cama. Com o livro que me fala de homens desse tempo, e onde encontro frases como esta de Ferenc Molnár (1878-1952): “É um mentiroso de tal ordem, que nem o contrário do que ele afirma é verdade”. E ainda esta de Egon Friedell (1878-1938): “Electricidade e magnetismo são aquelas forças da Natureza com que os que nada sabem de electricidade e magnetismo tudo explicam.”

segunda-feira, março 16

Esperança

(Clique)
Pensando bem, há sempre  boas razões para construir o ninho.
(© NU.nl/Pim Valk)

quinta-feira, março 12

O próximo

(Clique, se lê árabe) 
O próximo. Aquele que o geral das religiões manda que se lhe queira como a nós próprios, se lhe perdoe o mal que faz, o prejuízo que causa, o muito que incomoda. Que se use a esponja da misericórdia para lhe limpar o mau feitio, branquear-lhe a alma, esquecer o descaro com que, vez após vez, ele nos faz tropeçar, prejudica, dá palmadinhas nas costas ao mesmo tempo que prepara a rasteira, o golpe baixo, a intrujice.
É bico de obra querer seguir o mandamento e vermo-nos cara a cara com o pulha, pior ainda se é alguém que um dia mereceu amizade e respeito, mas caiu tão baixo na nossa consideração que ouvir-lhe o nome ou recordar-lhe as feições atrai a náusea.
Isto são pensamentos nada elevados, menos ainda pacíficos, para um começo do  dia, mas a vida nem sempre tem lugar para atitudes nobres, altruísmos, perdões.
Oferece a gente a outra face? Certo e seguro a bofetada não demora.