terça-feira, março 17

Electricidade e magnetismo

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Uns gostam, outros suportam-nas com um sorriso e aqueles acenos que demonstram interesse. Os que são como eu ressentem tonturas. Falo daquelas conversas em família ou entre amigos, quando tudo parece girar em torno do que a avó disse, da doença do tio, do preço da gasolina, de como o almoço estava bom, mesmo bom, mas nada que se compare àquele do ano passado, na Mealhada. Vocês lembram-se? Quando a tia Aurora ao levantar-se da mesa escorregou e partiu a perna? Se fosse hoje...
Aborrecimentos assim fazem-me devanear, enchem-me de inveja de não ter vivido na Viena dos primeiros decénios do século passado, ou na Madrid da mesma época, quando a conversa de café se elevou à qualidade de verdadeira arte.
Comparando o espírito desse tempo com o meu próprio, o da gente que me rodeia, ou as graças tolas que a televisão debita, nem é preciso que chova às bátegas, como neste fim de manhã, para me pôr a olhar para o frasco de Valium com apetites de alcoólico. E vontade de me meter na cama. Com o livro que me fala de homens desse tempo, e onde encontro frases como esta de Ferenc Molnár (1878-1952): “É um mentiroso de tal ordem, que nem o contrário do que ele afirma é verdade”. E ainda esta de Egon Friedell (1878-1938): “Electricidade e magnetismo são aquelas forças da Natureza com que os que nada sabem de electricidade e magnetismo tudo explicam.”

segunda-feira, março 16

Esperança

(Clique)
Pensando bem, há sempre  boas razões para construir o ninho.
(© NU.nl/Pim Valk)

quinta-feira, março 12

O próximo

(Clique, se lê árabe) 
O próximo. Aquele que o geral das religiões manda que se lhe queira como a nós próprios, se lhe perdoe o mal que faz, o prejuízo que causa, o muito que incomoda. Que se use a esponja da misericórdia para lhe limpar o mau feitio, branquear-lhe a alma, esquecer o descaro com que, vez após vez, ele nos faz tropeçar, prejudica, dá palmadinhas nas costas ao mesmo tempo que prepara a rasteira, o golpe baixo, a intrujice.
É bico de obra querer seguir o mandamento e vermo-nos cara a cara com o pulha, pior ainda se é alguém que um dia mereceu amizade e respeito, mas caiu tão baixo na nossa consideração que ouvir-lhe o nome ou recordar-lhe as feições atrai a náusea.
Isto são pensamentos nada elevados, menos ainda pacíficos, para um começo do  dia, mas a vida nem sempre tem lugar para atitudes nobres, altruísmos, perdões.
Oferece a gente a outra face? Certo e seguro a bofetada não demora.

quarta-feira, março 11

O cruzeiro

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Sofrem ambos daquela timidez nórdica que impede a exteriorização dos sentimentos, e nos trinta anos que levam de casados nenhum deles recorda um instante em que se tenham deixado arrastar por um impulso.
As suas espaçadas cópulas anunciam-se com toques desajeitados em manhãs de domingo, ou seguem-se às bebedeiras de sábado, nunca elas foram e jamais serão assunto de conversa, comentário, ou gesto de cumplicidade, ambos a travar o desejo de descobrir o que o outro espera, se acalenta sonhos, fantasias, se lhe dói a insatisfação, qual o motivo da reserva.
Conversam sobre o trivial doméstico, têm a rotina e as contas confortavelmente arranjadas, combinam as férias um ano antes, alternando a Sicília com a África do Sul, por vezes um cruzeiro.
É o que estavam a combinar essa tarde, estudando folhetos, o computador ligado, ambos de acordo que seria interessante voltar aos fiordes de Ålesund e  Sunnmøre, irem de novo a São Petersburgo.
- Vou reservar – disse ele, ao mesmo tempo que procurava entre a papelada. Nesse momento ouviu-a repetir baixinho, como para si própria, "São Petersburgo!", mas evitou encará-la.
Tinha sido há uma vida e sabiam-no ambos, por duas vezes tivera de esperar que o camareiro saísse da cabine, mas só agora, à sua maneira, ela confessava.
 

terça-feira, março 10

Em estado de graça

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Talvez isto se aparente a um estado de graça: não me interessam as aflições da Grécia nem as da Venezuela, nada se me dá de quem vier a ser presidente da república, de quanto ganha o Ronaldo, se foi grande a excitação e houve apalpões no auditório municipal de Carrazeda de Ansiães, se o ex-PM é culpado ou inocente, quantos foram ontem os mortos na estrada, se o Apple Watch fala, o preço da gasolina, o que diz Marcelo, o livro mais vendido, que Belmiro sai e Teresa Guilherme foi insultada (quem será a dona?), que o Euribor desceu, que o tempo vai aquecer.
Isso e mais, nada me interessa. Estou em paz.

Penas luzidias de um preto retinto, o bico tão amarelo que se diria envernizado de fresco, olho maroto, ar fanfarrão, o melro pousou no parapeito do terraço e encara-me, começa o chilreio alegre de quem dá os bons-dias.

segunda-feira, março 9

O fim de todos


Começou por uma diminuta mancha na face. A meio dos trinta anos, alegre, feliz, cheia de vida, só depois de muita instância foi ao médico. Era um cancro,  tão avançado que nessa mesma hora a internaram e no dia seguinte estava a ser operada. Havia esperança, confortaram-na de que iriam fazer o possível para não desfigurá-la, nem perder o olho direito.
Uma tarde caiu de cama com gripe, piorando de tal modo que teve de ser internada, o corpo agora debilitado pela pneumonia. Um mês depois estava curada e, de novo no serviço de oncologia, perdeu a conta dos exames e dos médicos que a estudavam o seu caso.
Uma tarde houve mudança no horário, pediram-lhe que voltasse no dia seguinte.
Ao entrar estranhou que, em vez da equipa, apenas o cirurgião a esperasse.
- Nada mais podemos fazer por si – disse ele. – É um cancro extremamente agressivo. Se não fosse o tempo perdido com a gripe de certeza a teríamos salvo, mas assim...
Na passada sexta-feira à tarde reuniu os amigos e, calma, com dignidade, anunciou a sua morte. Talvez lhe reste uma semana, duas, um mês. Se o sofrimento se tornar insuportável recorrerá à eutanásia.

Éramos oito a ouvi-la. Um ou outro não pôde conter as lágrimas e foi ela que serenamente os consolou.
Embora saibamos qual o fim de todos, nada nos prepara para a despedida de quem na força da vida ouve a sua condenação à morte.

sexta-feira, março 6

Jhumpa Lahiri

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Momentos bons. Ter visto num programa de televisão uma desconhecida a falar com franqueza e inteligência sobre si própria e a sua obra, a condição de escritor, os problemas de quem se criou a falar Bengali e Inglês, ganhou o Pulitzer em 2000 e escreve agora em Italiano.
Porque a arte do conto é difícil, e seria a melhor bitola para lhe apreciar o talento, fui ler Interpreter of Maladies, de Jhumpa Lahiri. Merece os elogios. Alegro-me que esteja traduzida em Português.