quarta-feira, março 11

O cruzeiro

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Sofrem ambos daquela timidez nórdica que impede a exteriorização dos sentimentos, e nos trinta anos que levam de casados nenhum deles recorda um instante em que se tenham deixado arrastar por um impulso.
As suas espaçadas cópulas anunciam-se com toques desajeitados em manhãs de domingo, ou seguem-se às bebedeiras de sábado, nunca elas foram e jamais serão assunto de conversa, comentário, ou gesto de cumplicidade, ambos a travar o desejo de descobrir o que o outro espera, se acalenta sonhos, fantasias, se lhe dói a insatisfação, qual o motivo da reserva.
Conversam sobre o trivial doméstico, têm a rotina e as contas confortavelmente arranjadas, combinam as férias um ano antes, alternando a Sicília com a África do Sul, por vezes um cruzeiro.
É o que estavam a combinar essa tarde, estudando folhetos, o computador ligado, ambos de acordo que seria interessante voltar aos fiordes de Ålesund e  Sunnmøre, irem de novo a São Petersburgo.
- Vou reservar – disse ele, ao mesmo tempo que procurava entre a papelada. Nesse momento ouviu-a repetir baixinho, como para si própria, "São Petersburgo!", mas evitou encará-la.
Tinha sido há uma vida e sabiam-no ambos, por duas vezes tivera de esperar que o camareiro saísse da cabine, mas só agora, à sua maneira, ela confessava.
 

terça-feira, março 10

Em estado de graça

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Talvez isto se aparente a um estado de graça: não me interessam as aflições da Grécia nem as da Venezuela, nada se me dá de quem vier a ser presidente da república, de quanto ganha o Ronaldo, se foi grande a excitação e houve apalpões no auditório municipal de Carrazeda de Ansiães, se o ex-PM é culpado ou inocente, quantos foram ontem os mortos na estrada, se o Apple Watch fala, o preço da gasolina, o que diz Marcelo, o livro mais vendido, que Belmiro sai e Teresa Guilherme foi insultada (quem será a dona?), que o Euribor desceu, que o tempo vai aquecer.
Isso e mais, nada me interessa. Estou em paz.

Penas luzidias de um preto retinto, o bico tão amarelo que se diria envernizado de fresco, olho maroto, ar fanfarrão, o melro pousou no parapeito do terraço e encara-me, começa o chilreio alegre de quem dá os bons-dias.

segunda-feira, março 9

O fim de todos


Começou por uma diminuta mancha na face. A meio dos trinta anos, alegre, feliz, cheia de vida, só depois de muita instância foi ao médico. Era um cancro,  tão avançado que nessa mesma hora a internaram e no dia seguinte estava a ser operada. Havia esperança, confortaram-na de que iriam fazer o possível para não desfigurá-la, nem perder o olho direito.
Uma tarde caiu de cama com gripe, piorando de tal modo que teve de ser internada, o corpo agora debilitado pela pneumonia. Um mês depois estava curada e, de novo no serviço de oncologia, perdeu a conta dos exames e dos médicos que a estudavam o seu caso.
Uma tarde houve mudança no horário, pediram-lhe que voltasse no dia seguinte.
Ao entrar estranhou que, em vez da equipa, apenas o cirurgião a esperasse.
- Nada mais podemos fazer por si – disse ele. – É um cancro extremamente agressivo. Se não fosse o tempo perdido com a gripe de certeza a teríamos salvo, mas assim...
Na passada sexta-feira à tarde reuniu os amigos e, calma, com dignidade, anunciou a sua morte. Talvez lhe reste uma semana, duas, um mês. Se o sofrimento se tornar insuportável recorrerá à eutanásia.

Éramos oito a ouvi-la. Um ou outro não pôde conter as lágrimas e foi ela que serenamente os consolou.
Embora saibamos qual o fim de todos, nada nos prepara para a despedida de quem na força da vida ouve a sua condenação à morte.

sexta-feira, março 6

Jhumpa Lahiri

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Momentos bons. Ter visto num programa de televisão uma desconhecida a falar com franqueza e inteligência sobre si própria e a sua obra, a condição de escritor, os problemas de quem se criou a falar Bengali e Inglês, ganhou o Pulitzer em 2000 e escreve agora em Italiano.
Porque a arte do conto é difícil, e seria a melhor bitola para lhe apreciar o talento, fui ler Interpreter of Maladies, de Jhumpa Lahiri. Merece os elogios. Alegro-me que esteja traduzida em Português.
 

quinta-feira, março 5

400.000 chineses

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Para susto de muitos Amsterdam ameaça tornar-se uma Disneyland, dado o incrível aumento do número de turistas nos últimos anos .
Esplanadas, cafés, restaurantes, transportes, para tudo é preciso esperar e as filas são longas. Desde que reabriu em fins de 2013 o número de visitantes do Rijksmuseum vai perto dos 5 milhões, com dias em que o ritmo de entradas é de 2.500 por hora. No Van Gogh Museum há sempre filas à porta. Para dar uma volta pelos canais é uma espera sem fim à espera de barco.
Já sobravam russos e japoneses, mas também os chineses descobriram a Holanda em geral e Amsterdam em particular. Foram eles 250.000 o ano passado, deixando na cidade uma receita de € 6.400 milhões, a previsão é de que este ano serão uns 400.000, e de certeza que com tantos nem se dará conta, todos eles às dezenas de milhar,  dos barulhentos russos, dos diminutos japoneses e dos hooligans ingleses que na rua caem de bêbedos.
 

quarta-feira, março 4

"A Coruja Satânica"

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"Le satané hibou". Satânica, nada menos, assim chamou L'Express à coruja que continua a atacar os moradores de Purmerend, uma cidadezinha aqui ao lado. Até no Japão é notícia. Notícia são também agora os chapéus que um avisado empreendedor pôs à venda para quem se quer defender do bicho.