terça-feira, março 10

Em estado de graça

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Talvez isto se aparente a um estado de graça: não me interessam as aflições da Grécia nem as da Venezuela, nada se me dá de quem vier a ser presidente da república, de quanto ganha o Ronaldo, se foi grande a excitação e houve apalpões no auditório municipal de Carrazeda de Ansiães, se o ex-PM é culpado ou inocente, quantos foram ontem os mortos na estrada, se o Apple Watch fala, o preço da gasolina, o que diz Marcelo, o livro mais vendido, que Belmiro sai e Teresa Guilherme foi insultada (quem será a dona?), que o Euribor desceu, que o tempo vai aquecer.
Isso e mais, nada me interessa. Estou em paz.

Penas luzidias de um preto retinto, o bico tão amarelo que se diria envernizado de fresco, olho maroto, ar fanfarrão, o melro pousou no parapeito do terraço e encara-me, começa o chilreio alegre de quem dá os bons-dias.

segunda-feira, março 9

O fim de todos


Começou por uma diminuta mancha na face. A meio dos trinta anos, alegre, feliz, cheia de vida, só depois de muita instância foi ao médico. Era um cancro,  tão avançado que nessa mesma hora a internaram e no dia seguinte estava a ser operada. Havia esperança, confortaram-na de que iriam fazer o possível para não desfigurá-la, nem perder o olho direito.
Uma tarde caiu de cama com gripe, piorando de tal modo que teve de ser internada, o corpo agora debilitado pela pneumonia. Um mês depois estava curada e, de novo no serviço de oncologia, perdeu a conta dos exames e dos médicos que a estudavam o seu caso.
Uma tarde houve mudança no horário, pediram-lhe que voltasse no dia seguinte.
Ao entrar estranhou que, em vez da equipa, apenas o cirurgião a esperasse.
- Nada mais podemos fazer por si – disse ele. – É um cancro extremamente agressivo. Se não fosse o tempo perdido com a gripe de certeza a teríamos salvo, mas assim...
Na passada sexta-feira à tarde reuniu os amigos e, calma, com dignidade, anunciou a sua morte. Talvez lhe reste uma semana, duas, um mês. Se o sofrimento se tornar insuportável recorrerá à eutanásia.

Éramos oito a ouvi-la. Um ou outro não pôde conter as lágrimas e foi ela que serenamente os consolou.
Embora saibamos qual o fim de todos, nada nos prepara para a despedida de quem na força da vida ouve a sua condenação à morte.

sexta-feira, março 6

Jhumpa Lahiri

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Momentos bons. Ter visto num programa de televisão uma desconhecida a falar com franqueza e inteligência sobre si própria e a sua obra, a condição de escritor, os problemas de quem se criou a falar Bengali e Inglês, ganhou o Pulitzer em 2000 e escreve agora em Italiano.
Porque a arte do conto é difícil, e seria a melhor bitola para lhe apreciar o talento, fui ler Interpreter of Maladies, de Jhumpa Lahiri. Merece os elogios. Alegro-me que esteja traduzida em Português.
 

quinta-feira, março 5

400.000 chineses

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Para susto de muitos Amsterdam ameaça tornar-se uma Disneyland, dado o incrível aumento do número de turistas nos últimos anos .
Esplanadas, cafés, restaurantes, transportes, para tudo é preciso esperar e as filas são longas. Desde que reabriu em fins de 2013 o número de visitantes do Rijksmuseum vai perto dos 5 milhões, com dias em que o ritmo de entradas é de 2.500 por hora. No Van Gogh Museum há sempre filas à porta. Para dar uma volta pelos canais é uma espera sem fim à espera de barco.
Já sobravam russos e japoneses, mas também os chineses descobriram a Holanda em geral e Amsterdam em particular. Foram eles 250.000 o ano passado, deixando na cidade uma receita de € 6.400 milhões, a previsão é de que este ano serão uns 400.000, e de certeza que com tantos nem se dará conta, todos eles às dezenas de milhar,  dos barulhentos russos, dos diminutos japoneses e dos hooligans ingleses que na rua caem de bêbedos.
 

quarta-feira, março 4

"A Coruja Satânica"

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"Le satané hibou". Satânica, nada menos, assim chamou L'Express à coruja que continua a atacar os moradores de Purmerend, uma cidadezinha aqui ao lado. Até no Japão é notícia. Notícia são também agora os chapéus que um avisado empreendedor pôs à venda para quem se quer defender do bicho.


Feliz aquele

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Feliz aquele que com razão se orgulha da sua pátria. Com a minha sofro. Dói-me a dobrar quando com ela me envergonham, apontando-lhes os males, a pobreza, a corrupção, o desleixo, a desigualdade, a falta de esperança, o triste futuro. Depois, ao dar-me conta de que não vejo como desculpá-la ou defendê-la, dói-me mais ainda.
 

terça-feira, março 3

Um canal em Amsterdam

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A menina é chamariz. Ia passando no canal uma tarde de ventania, graciosa realidade que de certeza perturbará os censores. A ver vamos. Quem quiser ter a impressão de que também a viu, o sítio é aqui. A da menina não, apenas as fotografias do canal, o Prinsengracht, são de Roeland Koning.

segunda-feira, março 2

A camisa de forças


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Domingo. Por grande excepção, e porque nem sempre consigo escapar à camisa de forças do trato social, lá fui ontem como que de rastos, o almoço substancial prolongado num sem fim de risos e conversas.
Voltei KO, dormi nove horas de enfiada, e recordando ocasiões semelhantes fui-me à procura deste velho texto:

Sem ser o que se chama um bicho-de-buraco, também me não posso considerar medianamente sociável, pois fora possuir uma capacidade limitada para o convívio, a minha paciência suporta mal a maioria das conversas.
Francamente, não me interessa saber o que este e aquele ressentiram ao visitar as Pirâmides, ou qual é agora o preço do capuccino nas esplanadas dos Champs-Elysées. Menos ainda que na praça de São Pedro, com vinte e cinco mil outros, tenham recebido a benção do Santo Padre. Que a sogra tenha sido operado a um quisto no pescoço ou que, devido à escandalosa subida dos preços, já não valha a pena comprar casa de férias na Dordogne.
De visitas são poucas as que gosto, mas os jantares, que sempre me foram um momento agradável do dia, nalgumas ocasiões, e com certos convivas, estão-se-me a transformar em martírio.
Fadiga da idade, impaciência inata, o caso é que as mais das vezes, depois de horas à mesa, não consigo evitar que o meu rosto revele o aborrecimento, que os olhos procurem o vazio, o cérebro se me enevoe e a língua recuse participar na conversa.
Transformo-me num macambúzio anfitrião, o que pelos jeitos não afecta esses hóspedes. Indiferentes ao meu humor, eles continuam a contar do Papa e da Dordogne, e do quisto, e da má qualidade da hortaliça, e do que viram ontem na televisão. Incansáveis, repetem as Pirâmides, o preço do cappucino, recordam a pontada que uma vez lhes deu à saída do teatro, remoem os seus pequeninos interesses. Mostram as botas que, regateando, compraram em Lisboa por dez réis de mel coado. Desfiam com minúcia as razões da queda do índice da Bolsa...
Duas, três, cinco, as horas arrastam-se, a minha cabeça oura, revira-se-me o estômago, falta-me o ar. Sinto-me exausto, derreado pelo contraditório esforço de permanecer cortês e disfarçar a misantropia.
 

sábado, fevereiro 28

"Nieuw Amsterdam"

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"Nieuw Amsterdam" 1938  -  "Nieuw Amsterdam" 2014.

Um bilhete de A. Alçada Baptista

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sexta-feira, fevereiro 27

Cogito ergo sum?

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De nada adianta dizer estou aqui, em carne e osso, presente, olhos abertos, repetindo que existo. Bem posso gritá-lo, este ou aquele distraidamente dará conta, logo esquecendo, confundindo o meu grito com o seu, imaginando ecos.
Quanto mais tempo existo mais estranha se me torna a percepção do semelhante e de mim próprio, toma-me o receio – de facto o pânico – que vivo a imitar, a supor, iludindo-me que vou por um caminho, negando que há muito não mexo, se é que jamais me dei conta de realmente existir, participar, pertencer.
Sinto-me no mundo, mas acorrentado a ele, estranha cadeia que, embora virtual, é a que mais dolorosamente prende, exigindo a morte como preço da libertação.

quinta-feira, fevereiro 26

quarta-feira, fevereiro 25

O sêlo fiscal

Haverá quem se lembre? Quem tenha saudades dele? - Clique

Uma carta de Mécia de Sena

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