terça-feira, fevereiro 17

Canalhice

"O adeus a Luísa Dacosta, que subiu às árvores até aos 50 anos"

(Expresso)

(1927-2015)
Pobre país onde assim se assinala o passamento de um escritor.
 
(Fotografia de Lucília Monteiro)

segunda-feira, fevereiro 16

Sinapismo

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Gente sisuda e mais nova do que eu, nada descobrirá de humorístico no acrónimo SYRIZA, mas quando pela primeira vez vi a bandeira não me pude conter. Synaspismós Rizospastikís Aristerás (Coalizão da Esquerda Radical), nada contra, mas para mim a graça estava, está ainda, no Synaspismós, que me traz a desagradável recordação dos sinapismos quentes (cataplasmas de farinha, vinagre, linhaça) que em criança me punham nas costas quando o tossicar era de mau agouro.

Segunda-feira

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Falamos da crise, do Ronaldo, do preso 44, do rapaz que ao fim e ao cabo era um dinamarquês  "inspirado pelos ataques de Paris". Falamos do milagre que se vai dar na Grécia, da inveja que sentimos de que lhe caiba a eles, e a mais ninguém, a segunda edição do maná.
Falamos de Judite Sousa, que "teve recaída e volta isolar-se"; do Estado Islâmico que decapitou 21 egípcios, e de um sueco, Ibrahimovic de seu nome, que combate a fome do mundo tatuando o corpo, e no-lo mostra para que se saiba como é solidário.
De muito falamos e muito escondemos, temerosos do que nos possa calhar, esperançados de que o mal caia no vizinho, ou nos franceses, ainda melhor nos alemães.
Falamos com medo da vida e porque é segunda-feira, o dia em que depois do descanso tudo pode acontecer. Falamos para ocultar o que nos sufoca.
 

sábado, fevereiro 14

A fala do medo

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Ontem em Halifax, no Canadá, a polícia prendeu três jovens que, armados, tencionavam fazer hoje um banho de sangue num lugar público. Um quarto membro do grupo suicidou-se.
O comunicado da polícia refere que as autoridades ignoram se se tratava de um ataque terrorista, acrescentando que os suspeitos pertencem a uma determinada crença religiosa.
Provavelmente iam fazer aquilo para assustar, e o mais certo é serem mórmons ou testemunhas de Jeová.

sexta-feira, fevereiro 13

Ana de Amsterdam

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Oito anos atrás. Os blogues são para mim novidade e começo um, interessado pelo que permite como meio de comunicação, mais ainda pelas surpreendentes descobertas. Há por ali talento, tolice, desvarios, infantilidade, muita poesia, cenas domésticas, cães e gatos, dores da alma, derrotas de amor. É humano, é simpático, permite uma olhadela na vida alheia sem os tropeços da intimidade, satisfaz um voyeurismo inocente.
Leitor compulsivo e curioso desde o berço, não mantenho contabilidade do tempo gasto naquilo que me interessa ou diverte, mas sei que desde então as horas de leitura de blogues excedem de longe as que dedico a revistas e jornais.
Surpresas tenho tido muitas, grandes surpresas também, como o Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo, vinda de começo pela coincidência do nome, eu a perguntar-me se seria alguém a viver perto.
Se digo que foi surpresa grande fico aquém do que ressenti. Foi um misto de admiração e pasmo, o temor que nos faz encolher quando alguém demonstra possuir a força e o carácter que obriga a olhar para o que mais fundo nos perturba; alguém que sem falsa vergonha rasga véus, dolorosamente se mostra nua e crua, a desafiar as convenções, a hipocrisia, gritando-nos que tenhamos piedade, não dela, mas de nós próprios, pelas ilusões com nos julgamos proteger, pelos amores que fingimos, a máscara que nunca desapertamos.
A mim bastava para lhe fazer vénia, mas Ana Cássia Rebelo possui ainda o dom da escrita, dom naquele sentido de tornar as palavras diferentes, mais ricas, com música nova e um conteúdo inesperado. A leitura de alguns destes textos poderá ser dolorosa pelo confronto, mas é ao mesmo tempo razão de júbilo e encanto: a língua portuguesa está ali como numa vitrina de joalheiro ou em cenário de ópera: sonora, brilhante, impondo-se pela riqueza.
A admiração impede-me de descambar em qualificativos e encómios que poderiam parecer exagerados, razão válida para subscrever por inteiro os dizeres de João Pedro George no prefácio: Ana Cássia Rebelo é "uma grande escritora, uma radiação nova na literatura portuguesa".


 

quinta-feira, fevereiro 12

50 Sombras de Grey

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Para a estreia, ontem, foram cento e dez mil os holandeses que correram a ver 50 Sombras de Grey, mas numa tão desmesurada percentagem de mulheres que um bom número de cinemas organizou exclusivas Ladies Nights, deixando os homens de fora.
Bom proveito a todos os que, incapazes de imaginação ou sem coragem de se assumir, precisam de sonhos de empréstimo.
Recordando: na Paris da minha juventude havia na Rue d'Anvers uma modesta livraria com um pequeno estoque de literatura erótica. A proprietária e a  empregada, ambas à volta dos trinta, observavam discretamente a pinta de quem folheasse as obras do Marquês de Sade ou se detivesse nas edições ilustradas de Belle de Jour, Vénus dans le Cloître, Le Jardin des Suplices e semelhantes. Se a impressão fosse positiva faziam saber com inteligentes rodeios que, homem ou mulher, o interessado encontraria no primeiro andar os atributos precisos para satisfazer as suas fantasias e, à escolha, uma delas desempenharia o papel desejado.
Fiz uma reportagem que me pareceu sensacional, infelizmente ninguém a quis publicar. Nada ganhei, mas pude dar uma olhadela num mundo genuíno que me deixaria sem curiosidade para as imitações no género 50 Sombras de Grey.