sexta-feira, fevereiro 6

Ver em grande

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Há cerca de duzentos anos que a intelectualidade portuguesa demonstra grande interesse pelo estrangeiro. Até aos anos 70 do século passado a França – valha-nos aqui a recordação de Mao-Tse-Tung – era o grande timoneiro do pensamento, das artes e da literatura nacional, o espelho onde se ansiava ver reflectida uma imagem que num e noutro caso correspondia aos sonhos, mas de modo algum encaixava na realidade.
Porque não era feita à nossa medida e de empréstimo, a fatiota, além de nos ficar curta nas mangas, como apontou uma figura célebre, tolhia-nos o andamento, impedindo-nos de ir além da imitação.
O 25 de Abril e, uma dezena e pico de anos depois, a mão que nos estendeu a Europa, puseram fim à antiga subserviência às ideias de França, dando lugar a um não menos servil anseio de visão global, idêntico ao que os psiquiatras constatam nos indivíduos que querem e não podem, e em linguagem corrente se chama a mania das grandezas.
Desse modo, em tudo o que é meio de comunicação, abundam os explicadores que, com imitada ciência e pose de seriedade, esmiuçam os arcanos da finança, as razões da política internacional, os desmandos da economia grega.
O próprio, o necessário, o de casa, pouco ou nada lhes interessa. Em vez da lupa preferem o telescópio.

quinta-feira, fevereiro 5

Manhã de fado

Aldina Duarte
Seria demorado explicar, porque é um estremecer que vem do mais longe dos meus anos de menino, o som e a dolência do fado, a primeira música que conscientemente ouvi, tão entranhado nela que me perdoo a teimosia com que continuei a tocar guitarra, mesmo quando há muito sabia que me faltava o jeito e nunca passaria de amador.
Em horas de desalento, mas também em dias bons, há por vezes em mim uma urgência de ouvir o fado, como se, estando longe, a alma me queira recordar a precisão de manter os laços que me prendem à terra em que nasci, mas que por razões várias e alguma tristeza, tantas vezes sinto  afrouxar.

quarta-feira, fevereiro 4

Temos de nos cuidar


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O muito que se lê sobre as andanças do ex-primeiro ministro, as manigâncias do ex- Pedro Cem, as aflições – "ele que se cuide" - do suposto Pai da Democracia, tudo isso conduz à inevitável conclusão de que, para lá dos prejuízos que tenham causado ao país, avulta o dano que trazem à reputação do Chico-Esperto nacional.
Incansavelmente, através dos séculos, sempre os portugueses souberam dar  provas indesmentíveis de um refinamento na traficância que talvez só entre os gregos tenha o seu igual. 
E vêm este senhores, estragam-nos a fama.
Não demorará a que por esse mundo fora se oiça dizer que Portugal já não é o que era.
 

terça-feira, fevereiro 3

Bom sinal

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Ao fim e ao cabo, sinceramente, é muito bom sinal que tudo isto da alta e baixa política nos interesse, leve a pensar, nos entretenha com a ideia de que duma ou doutra maneira participamos, influenciamos o rumo para a esquerda, o centro ou a direita, de acordo com as nossa simpatias e os sonhos que sonhamos acordados. É muito bom sinal, repito. Demonstra que nenhum desaire urgente de emprego, rendimento, paz doméstica, bem-estar ou doença nos aflige, deixando tempo e disposição de sobra para que nos ocupemos dos problemas da Europa.
 

O mesmo filme?

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Será que estou a ver o mesmo filme? É o velho e copiaram o enredo? Então vem aí uma dupla de bons, cheia de força para lutar contra os maus e, gregos ou troianos, a todos dar esperança, tornar felizes? Não podíamos, mas nesta versão vamos poder? Podemos? Será que finalmente estão a chegar os amanhãs que cantam?
Se fosse só por mim ficava no escuro a ver o filme, não saía para a rua.

 

segunda-feira, fevereiro 2

Monsieur le Président

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De visita a Paris, Ewa Kopacz, primeiro-ministro da Polónia, abraça Monsieur le Président.

domingo, fevereiro 1

Frio e Feio

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Digo-me que é do tempo, que aqui está frio e feio. Digo-me que é das notícias, que raro são boas e parecem querer que me habitue a decapitações, bombardeamentos, cobardias de toda a espécie, à aceitação do esplendor de tantos e a pobreza da maioria.
Digo-me isso e mais, procuro razões, subterfúgios, desculpas para as minhas sombras, para a visão que tenho do mundo, ao mesmo tempo dou-me conta que este especular domingo de manhã é uma demissão, uma forma de luxo, pois miséria duns, riqueza doutros, as alegrias e os horrores do mundo afiguram-se-me remotos, não têm a ver comigo, de facto não conseguem furar a carapaça que esta manhã me protege. Logo à tarde não sei.
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A fotografia é de Edwin J. Vermeulen.