quarta-feira, janeiro 28

Achmed Aboutaleb

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Achmed  Aboutaleb(1961) nasceu em Marrocos, aos quinze anos emigrou para a Holanda, estudou mecânica, trabalhou na rádio, foi vereador de Amsterdam, depois Secretário de Estado, é desde 2009 burgomestre de Rotterdam.
Comentando nesse mesmo dia o ataque terrorista ao Charlie Hebdo, disse alto e bom som: "Os fanáticos que para aqui vieram e não querem respeitar as leis, só têm uma coisa a fazer: porem-se a andar".
Caíram-lhe em cima os políticos, os medrosos, os mornos e os bem-pensantes, todos a tremelicar da cólera de Alá.
Honrado e corajoso homem, Ahmed Aboutaleb foi de seguida à mesquita Essalam, na sua cidade, e repetiu o dito, acrescentando: "Talvez não seja agradável ouvir isto, mas é preciso pôr limites. Quero união, mas também quero limites."
Pena haver tão poucos como ele e andar tão espalhada a cobardia.

segunda-feira, janeiro 26

Contágio

Há aquelas doenças que se transmitem por picadela ou contágio, e o mesmo acontece com as decepções, os aborrecimentos, as circunstâncias de certos momentos.
Tenho ideia de que em alturas dessas seria bom podermo-nos esconder num buraco até que os maus ventos passassem, mas além de impraticável tudo nos obriga a intercambiar, interagir, participar e, fazendo das tripas coração, gastar tempo em aparências.
Não agradeço o que devia agradecer, não rio do que devia rir, ando a modos de estonteado, sem descobrir qual a ponta que ajuda a destrinçar a meada.
Fujam de mim, porque estou certo que isto se pega.

quinta-feira, janeiro 22

A findar o dia

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São muitas as vozes da partida, mas poucas como esta.

A roda de cavalinhos

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De longe a longe dá-me vontade de escrever sobre o amor, paixões, sonhos, desejos, segredos, mas logo o bom-senso manda calma, passo então à sensaboria da política, aos mortos daqui, aos escândalos de acolá, às leituras de ontem, ao que pensei de madrugada.
Verdade é que chegando a certa idade, a maioria dos homens e mulheres como que se deixa arrumar em convenções, verga-se às ideias feitas, aceita, por vezes até cobardemente deseja, a fragilidade do corpo e o definhamento das emoções. Porque é mais repousante, evita chatices, há conforto no papel que os outros querem que representemos.
De um ancião não se espera concupiscência, menos ainda que a exprima alto e bom som, avozinha que se respeite sabe de ginjeira o papel de recatada virtude.
De maneira que novos e velhos desejamos mudanças, a realização dos nossos sonhos, a liberdade das nossas fantasias, mas sentamo-nos na roda de cavalinhos das convenções, iludidos que giramos, fingindo não dar conta que a volta é sempre a mesma.
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(*) Foto de Erwin Olaf, Chess Men.

quarta-feira, janeiro 21

Carapaças


Gostaria de me libertar de algumas das carapaças com que por razões várias me cubro, mas uma coisa é querer, outra o ser capaz.
Uma delas é a arrogância com que de vez em quando recordo os piores momentos da minha vida, me digo que poucos os terão conhecido assim, e  de seguida me felicitar por ter sido capaz de verdadeiro heroísmo e tanta resistência.
Ainda bem que logo me recomponho, deixo de parafrasear o "pobre de mim" de Fernão Mendes Pinto, e de novo sinto o chão debaixo dos pés, abrando a soberba.
É certo que nunca tive a vida fácil, adundam nela as inimizades gratuitas e da espécie mais perigosa, a dos espíritos doentes. Todavia, se faço comparações, limitando-me a algumas vidas que conheço, o que ocorre à minha volta, fica-me a impressão de ser tolo e mal agradecido.

terça-feira, janeiro 20

Por que será?

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Se abrisse a boca e desse opinião ia causar tristeza, aborrecer gente, ia ter de ouvir os especialistas que tudo sabem e explicam. Por isso me fico pela pergunta:
- Qual será a razão do desinteresse da literatura pelos problemas da sociedade portuguesa? De até agora não termos tido alguém como Zola, ou mesmo só metade dele?
Portugal merecia.
 

segunda-feira, janeiro 19

Um passo em frente

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Culpado ou não, fosse José Sócrates meu amigo eu certamente o iria visitar à cadeia. Contudo, certamente também, não me ouviriam  proferir juízos e cair no ridículo de clamar a sua inocência quando abundam, se não as provas definitivas, suspeitas fundadas o bastante para mantê-lo preso.
Toda essa agitação, porém, interessa-me menos pelo que é e tem de ridículo, do que por ser  sintoma de que certa classe política parece não se dar conta de que já alguma coisa mudou e mais está para vir; que a coutada que tomaram de assalto quarenta anos atrás,e esperavam viesse a ser herdada por filhos e sicários, talvez venha a conhecer melhor destino.
Seja como for, tanto a prisão e a personalidade do ex-Primeiro Ministro, como a curiosa e ainda patente soberba do ex-DDT, além de interessantes capítulos da nossa história, funcionam como o vidro de aumento que ajuda a que melhor olhemos para nós próprios, o país que somos, a realidade que nos cerca.
À luz do que tem acontecido, bem podem os bonzos políticos e os vários "históricos" agitar-se, esbracejar, iludir-se de que ainda estão no poder. Não estão. Já o perderam. Por muito que gritem que sem eles será o caos, o poder cairá na rua, todos sabemos que assim não é. O poder cairá nas mãos doutros, mas esses terão aprendido que os Sócrates, os Soares, os vários donos disto tudo e mais alguma coisa são o passado, que será mais curta a sua margem de manobra.
Sempre é um passo em frente.
 

domingo, janeiro 18