quarta-feira, janeiro 7

Quando a má sorte carrega a dose

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Vamos repetir o estribilho de que a realidade ultrapassa a ficção e, uma vez mais, mencionar as enxaquecas de que sofre o comum dos escritores em busca de enredo que lhe permita escrever o sonhado bestseller e escapar de vez ao martírio de uma inspiração que demora, e as mais vezes nunca chega.
O dia-a-dia, esse não sofre de writer's block, enredos e peripécias tem de sobra. Conte-se então o caso verídico e, pelo que sei, neste momento ainda sem desenlace.
Pai, mãe, duas raparigas ainda nos vinte, boa gente, vivendo nas alturas confortáveis em que os problemas de dinheiro se limitam ao aborrecimento muito relativo das flutuações da Bolsa, já que a base iguala a solidez das pirâmides do Egipto.
O combinado era passarem o Natal no apartamento que têm em Paris, pelo que a mãe e a filha mais nova saíram de Amsterdam na semana anterior. A má sorte fez a sua entrada quando já tinham passado Arras e, sem explicação plausível, o carro se despistou matando a mãe.
A filha escapou com ligeiros ferimentos, mas facilmente se imagina o ambiente em que passaram o Natal.
A 26 de Dezembro a má sorte voltou. A filha mais velha recebeu o resultado do diagnóstico que aguardava: no ponto em que se encontra a doença que lhe constataram terá de ser submetida a uma transplantação de células-tronco. O doador mais indicado é o pai.
Só ele, pobre e desesperado amigo, sabe que dentro em breve, imparável, a má sorte de novo lhes vai bater à porta quando se negar a ser o doador de que a filha precisa, e tiver então de confessar que nenhuma delas lhe pertence, ambas geradas por alguém que desconhece e com quem a mãe o enganou.
O enterro está marcado para de amanhã a oito.
 

terça-feira, janeiro 6

Ainda "O Rebate"


Quando em 1971 foi publicado em Lisboa, a crítica nacional viu O Rebate como um romance de menos que nada, trabalho de um autor que nem os tempos dos verbos sabia conjugar. Interessante se torna assim a opinião expressa em Praga, em Março de 1974, na revista Philologica Pragensia da Academia de Ciências Checoslovaca, demonstrando que os comunistas não somente tinham melhores olhos, mas escreviam com mais liberdade que os "coitadinhos", avassalados ao regime fascista, aos jornais do dito e à Fundação Gulbenkian.



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segunda-feira, janeiro 5

As palavras

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Venham elas do púlpito, da tribuna, de uma cátedra, sejam ditas num parque com os pés assentes num caixote, ou à mesa do café, de cotovelos fincados no tampo, o rosto apoiado em ambas as mãos para melhor lhes acentuar a sinceridade, isto de palavras tem demasiado que se lhe diga.
Umas vezes é candura tomá-las pelo que parecem significar, noutras é descabida a suspeita, há-as que se diriam de amor e são de ódio, algumas saem à ligeira, sorridentes, escondendo assim a confissão para que falta coragem. Palavras há que são doces, mas de picada mais venenosa do que a da víbora, noutras ouve-se a moleza da banalidade, da rotina, parecem ser ditas para que o ar se agite ou haja uma ilusão de convivência.
Há as palavras que apenas se usam para contradizer, irritar, impor diferenças, vontades, mostrar aversões. Felizmente que as há também sinceras e carinhosas, suaves à alma, ao ouvido, genuínas no tom, modo e significado.
Porque assim é, talvez devêssemos aprender de novo a falar. Com simplicidade, embrulhando menos as intenções, os interesses e os significados.  
 

domingo, janeiro 4

My Secret History

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Já antes tinha anotado aqui a vantagem, para quem escreve, de estudar a primeira página de  romances escritos por autores que realmente sabem da poda. Paul Theroux é desses.
 
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"Nasci pobre na América rica, contudo os meus instintos secretos valiam mais do que dinheiro e eram para mim uma fonte de poder. Tinha vantagens que ninguém me poderia tirar -  uma memória lúcida, sonhos brilhantes, um jeito para saber quando me sentia feliz.
Alcançava o topo da felicidade quando vivia duas vidas, e era um gosto ser capaz de esconder a segunda: a do sonhador ou do manhoso. Assim vivi os meus primeiros quinze anos. Quinze anos nesse tempo era ser jovem, mas de uma coisa tinha a certeza: os pobres não contam. E foi assim que num Verão, talvez por se sentir impaciente ou só, o meu segundo eu fez mais do que acordar e vigiar, mais ainda do que recordar. Começou a ver como um historiador e agiu em consequência. Tenho de tratar da vida, dizia-me eu."
 


sábado, janeiro 3

Compaixão


As conversas em que falamos e nada dizemos, os gritos que vêm de tão fundo e ninguém ouve, as lágrimas que o coração chora e o sorriso esconde, o ar ameno, o modo simpático. Deus nos acuda nas grandes dores e proteja no desespero, pois em nós próprios raro encontramos salvação, dados que somos à fraqueza, ao fingimento, mais atreitos a preferir a sombra à claridade, a ceder em vez de enfrentar, a mentir como criança ingénua.
O Senhor se compadeça do que por medo, ilusão, ou arrogância se julga capaz de afrontar o mundo. Pobre dele, que ignora a História e os muitos que o precederam e lhe deveriam ser exemplo.