segunda-feira, janeiro 5

As palavras

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Venham elas do púlpito, da tribuna, de uma cátedra, sejam ditas num parque com os pés assentes num caixote, ou à mesa do café, de cotovelos fincados no tampo, o rosto apoiado em ambas as mãos para melhor lhes acentuar a sinceridade, isto de palavras tem demasiado que se lhe diga.
Umas vezes é candura tomá-las pelo que parecem significar, noutras é descabida a suspeita, há-as que se diriam de amor e são de ódio, algumas saem à ligeira, sorridentes, escondendo assim a confissão para que falta coragem. Palavras há que são doces, mas de picada mais venenosa do que a da víbora, noutras ouve-se a moleza da banalidade, da rotina, parecem ser ditas para que o ar se agite ou haja uma ilusão de convivência.
Há as palavras que apenas se usam para contradizer, irritar, impor diferenças, vontades, mostrar aversões. Felizmente que as há também sinceras e carinhosas, suaves à alma, ao ouvido, genuínas no tom, modo e significado.
Porque assim é, talvez devêssemos aprender de novo a falar. Com simplicidade, embrulhando menos as intenções, os interesses e os significados.  
 

domingo, janeiro 4

My Secret History

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Já antes tinha anotado aqui a vantagem, para quem escreve, de estudar a primeira página de  romances escritos por autores que realmente sabem da poda. Paul Theroux é desses.
 
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"Nasci pobre na América rica, contudo os meus instintos secretos valiam mais do que dinheiro e eram para mim uma fonte de poder. Tinha vantagens que ninguém me poderia tirar -  uma memória lúcida, sonhos brilhantes, um jeito para saber quando me sentia feliz.
Alcançava o topo da felicidade quando vivia duas vidas, e era um gosto ser capaz de esconder a segunda: a do sonhador ou do manhoso. Assim vivi os meus primeiros quinze anos. Quinze anos nesse tempo era ser jovem, mas de uma coisa tinha a certeza: os pobres não contam. E foi assim que num Verão, talvez por se sentir impaciente ou só, o meu segundo eu fez mais do que acordar e vigiar, mais ainda do que recordar. Começou a ver como um historiador e agiu em consequência. Tenho de tratar da vida, dizia-me eu."
 


sábado, janeiro 3

Compaixão


As conversas em que falamos e nada dizemos, os gritos que vêm de tão fundo e ninguém ouve, as lágrimas que o coração chora e o sorriso esconde, o ar ameno, o modo simpático. Deus nos acuda nas grandes dores e proteja no desespero, pois em nós próprios raro encontramos salvação, dados que somos à fraqueza, ao fingimento, mais atreitos a preferir a sombra à claridade, a ceder em vez de enfrentar, a mentir como criança ingénua.
O Senhor se compadeça do que por medo, ilusão, ou arrogância se julga capaz de afrontar o mundo. Pobre dele, que ignora a História e os muitos que o precederam e lhe deveriam ser exemplo.

A roda da sorte

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Por vezes, de tão desmesurada, a desgraça alheia provoca-nos um estranho sentimento de alívio, se não de segurança, pois ocupada a afligir os outros não terá ocasião para cedo nos bater à porta.
Assim fosse, infelizmente assim não é, por demais sabemos como desde o princípio dos tempos a má sorte se especializou em rasteiras, iludindo-nos com esperanças para que mais abrupta e dolorosa seja a cacetada.
Bela mulher, na força dos quarenta, o seu Natal ia ser um de alegria nos longes da Suécia onde nasceu. Mas no começo de Dezembro diagnosticaram-lhe um cancro na face, foi-lhe dito que para salvá-la era urgente remover ambos os olhos, quatro dias depois  estava cega.
Fizemos o melhor para esconder, mas para nós, seus amigos, o Natal foi sombrio. Pela tragédia, mas também, mau grado o quanto nos queremos iludir, pela certeza de como é leviana a roda da sorte.

sexta-feira, janeiro 2

Tigres

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Começo o dia em busca de novidades, dou uma vista de olhos a este meu favorito, e logo se me revira a boa disposição com o apetite que os ricos e super-ricos chineses mostram pelo "vinho de ossos de tigre", mistela que tudo cura e custa os olhos da cara em moeda soante.
E assim, semelhante aos aviários, há na China verdadeiras "fábricas" de tigres, cujos ossos, mergulhados em vinho de arroz durante três anos, resultam na bebida milagrosa.
Mas como os chineses ricos são cada vez mais, os tigres de criação não chegam para as encomendas, do que resulta uma tal matança ilegal de tigres na Índia que dentro em pouco nenhum resta. Detalhes aqui e aqui.

quinta-feira, janeiro 1

Estatísticas



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A estatística do Google deve ser fiável, pelo que há toda a razão para acreditar que o maior número de visitantes do Tempo Contado chega através destes dois blogues: Pipoco Mais Salgado e A Mais Picante. Depois deles seria compreensível que os mais visitantes chegassem aqui de Portugal, talvez dos Países Baixos, ou do Brasil. Mas não! Curiosamente o terceiro grupo vem da China, o que me leva a perguntar por que bizarria será. Os Vistos Gold? A compra da EDP?

O melhor começo

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É olhando para ontem que melhor se começa.