quarta-feira, fevereiro 18

A justiça está cara

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Nada se faz sem dinheiro e a justiça está cada vez mais cara, de modo que a dada altura se terá de compor a lei.
O processo que desde Maio de 2013 decorre em Munique contra os neo-nazis da NSU (Nationalsozialistischer Untergrund), culpados de dez assassinatos e dois ataques à bomba entre 2000 e 2007, já custou mais de 30 milhões de euros. São oitenta os queixosos, cada um com direito a um advogado, e até agora não foi concedida qualquer compensação.
"Com oitenta queixosos ainda se aguenta – diz Karl Huber, o presidente do tribunal – mas se (numa situação destas) nos aparecem centenas ou milhares de queixosos não sei como vai ser".
De facto, com mais de sete milhões de imigrantes, entre eles para cima de três milhões de turcos, e Deus sabe quantas possíveis vítimas, facilmente se imagina o problema e as suas consequências.
 

terça-feira, fevereiro 17

Você, eu e os gregos

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Tem certo cheiro a telenovela a agitação em torno da Grécia. É como se à viva força nos queiram convencer de que ou a coisa vai como os gregos desejam, ou temos aí guerras e catástrofes, a Europa a desmembrar-se, a Rússia a forçar a entrada pela Ucrânia, arreganhando os dentes para a nossa fraqueza e falta de união.
Talvez venha a ser assim. Talvez pior. Pode acontecer que da Líbia aportem a Lampedusa,  não milhares, mas dezenas, centenas de milhar de infelizes que supõem haver por aqui um Far-West com minas de ouro. Não há.
A ameaça desses assusta-me, o porta-moedas dos gregos deixa-me indiferente, e que saiam ou se deixem ficar, não me faz mossa. Se a você faz, se se sente com obrigação e capacidade de a sério  propor soluções e remédios, bom proveito. Mas saiba que por muito e melhor que opine, que escreva sobre o assunto, esse esforço tem valia igual aos conselhos que, na Antiguidade, a pitonisa berrava em Delfos.
Acalme. Deixe os gregos em paz, eles há séculos que se mostram capazes de, melhor que muitos, cuidarem dos seus interesses. Mais vale que empregue todo esse esforço e saber para melhoria da terra em que nascemos.
Não lhe vou lembrar o que Eça de Queiroz (ou seria Fradique Mendes?) aconselhava que se deve fazer quando encontramos um grego.

Canalhice

"O adeus a Luísa Dacosta, que subiu às árvores até aos 50 anos"

(Expresso)

(1927-2015)
Pobre país onde assim se assinala o passamento de um escritor.
 
(Fotografia de Lucília Monteiro)

segunda-feira, fevereiro 16

Sinapismo

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Gente sisuda e mais nova do que eu, nada descobrirá de humorístico no acrónimo SYRIZA, mas quando pela primeira vez vi a bandeira não me pude conter. Synaspismós Rizospastikís Aristerás (Coalizão da Esquerda Radical), nada contra, mas para mim a graça estava, está ainda, no Synaspismós, que me traz a desagradável recordação dos sinapismos quentes (cataplasmas de farinha, vinagre, linhaça) que em criança me punham nas costas quando o tossicar era de mau agouro.

Segunda-feira

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Falamos da crise, do Ronaldo, do preso 44, do rapaz que ao fim e ao cabo era um dinamarquês  "inspirado pelos ataques de Paris". Falamos do milagre que se vai dar na Grécia, da inveja que sentimos de que lhe caiba a eles, e a mais ninguém, a segunda edição do maná.
Falamos de Judite Sousa, que "teve recaída e volta isolar-se"; do Estado Islâmico que decapitou 21 egípcios, e de um sueco, Ibrahimovic de seu nome, que combate a fome do mundo tatuando o corpo, e no-lo mostra para que se saiba como é solidário.
De muito falamos e muito escondemos, temerosos do que nos possa calhar, esperançados de que o mal caia no vizinho, ou nos franceses, ainda melhor nos alemães.
Falamos com medo da vida e porque é segunda-feira, o dia em que depois do descanso tudo pode acontecer. Falamos para ocultar o que nos sufoca.
 

sábado, fevereiro 14

A fala do medo

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Ontem em Halifax, no Canadá, a polícia prendeu três jovens que, armados, tencionavam fazer hoje um banho de sangue num lugar público. Um quarto membro do grupo suicidou-se.
O comunicado da polícia refere que as autoridades ignoram se se tratava de um ataque terrorista, acrescentando que os suspeitos pertencem a uma determinada crença religiosa.
Provavelmente iam fazer aquilo para assustar, e o mais certo é serem mórmons ou testemunhas de Jeová.

sexta-feira, fevereiro 13

Ana de Amsterdam

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Oito anos atrás. Os blogues são para mim novidade e começo um, interessado pelo que permite como meio de comunicação, mais ainda pelas surpreendentes descobertas. Há por ali talento, tolice, desvarios, infantilidade, muita poesia, cenas domésticas, cães e gatos, dores da alma, derrotas de amor. É humano, é simpático, permite uma olhadela na vida alheia sem os tropeços da intimidade, satisfaz um voyeurismo inocente.
Leitor compulsivo e curioso desde o berço, não mantenho contabilidade do tempo gasto naquilo que me interessa ou diverte, mas sei que desde então as horas de leitura de blogues excedem de longe as que dedico a revistas e jornais.
Surpresas tenho tido muitas, grandes surpresas também, como o Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo, vinda de começo pela coincidência do nome, eu a perguntar-me se seria alguém a viver perto.
Se digo que foi surpresa grande fico aquém do que ressenti. Foi um misto de admiração e pasmo, o temor que nos faz encolher quando alguém demonstra possuir a força e o carácter que obriga a olhar para o que mais fundo nos perturba; alguém que sem falsa vergonha rasga véus, dolorosamente se mostra nua e crua, a desafiar as convenções, a hipocrisia, gritando-nos que tenhamos piedade, não dela, mas de nós próprios, pelas ilusões com nos julgamos proteger, pelos amores que fingimos, a máscara que nunca desapertamos.
A mim bastava para lhe fazer vénia, mas Ana Cássia Rebelo possui ainda o dom da escrita, dom naquele sentido de tornar as palavras diferentes, mais ricas, com música nova e um conteúdo inesperado. A leitura de alguns destes textos poderá ser dolorosa pelo confronto, mas é ao mesmo tempo razão de júbilo e encanto: a língua portuguesa está ali como numa vitrina de joalheiro ou em cenário de ópera: sonora, brilhante, impondo-se pela riqueza.
A admiração impede-me de descambar em qualificativos e encómios que poderiam parecer exagerados, razão válida para subscrever por inteiro os dizeres de João Pedro George no prefácio: Ana Cássia Rebelo é "uma grande escritora, uma radiação nova na literatura portuguesa".