sexta-feira, setembro 19

As novas "gajas"


Prezado D. Pipoco,
Muita confusão advém da leitura apressada e dos esconsos sentimentos do leitor! Escrevi eu de boa-fé e com apreço acerca de "coisas de gajas", sofro de imediato a sua elegante estocada que, deixe-me dizer-lhe, além de imerecida, é mal empregada neste oponente, que à fragilidade dos anos acrescenta o ferrete de emigrante, tipo de gente que, pelo que de si tenho lido, lhe merece pouca estima.
Deixemos essa e outras miudezas, vamos ao que conta. A palavra "gajo" ouvia-a eu na infância, ora com o sentido de apreço, "um bom gajo", ora significando desprezo, como em "esse gajo é um fdp". Eça de Queiroz, como pode ver,  dava-lhe o significado de compincha ou do inglês "fixer".
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Talvez porque há mais de sessenta anos vivo longe, não me tinha ocorrido que a palavra tivesse feminino, pelo que me foi novidade e muito alegrou, quando ao tornar-me leitor ávido de blogues de senhoras  descobri que não somente havia gajas, mas para meu assombro elas excediam de longe o meu conhecimento e o uso do vernáculo.
No sossego em que trabalho, tem-me acontecido, não direi corar, mas sentir um inesperado arrepio ao dar-me conta de que a tola emancipação dos anos 60 resultou numa emancipação de verdade. Porque devo dizer que a igualdade, toda a igualdade, inclusive a dos sexos, continua para mim um inestimável bem.
Abespinhou-se Vossência de me ver descarrilar, permita-me que explique e retorne a alguns blogues femininos que, além de divertido e ensinado, me têm aberto os olhos (nunca é tarde demais) para o mundo que me rodeia.
Infelizmente descontinuado, havia um, anonimadosenes.blospot.com, que pela liberdade do pensar, a franqueza do erotismo e a excelente prosa, não só conseguia assombrar-me, como contribuiu para que revesse algumas ideias e sacudisse uma ou outra teia de aranha da minha sensibilidade. Desconhecendo a autora, aqui lhe deixo prova de gratidão.
Devia calar umjeitomanso.blogspot.com , porque já lá recebi louvores, mas a senhora é incomum no estilo, na linguagem, na interpretação de informações e, last but not least, no erotismo gótico das suas histórias.
A terminar é obrigatória a menção do blogue da "gaja" onde, anos atrás, andava ela então pela Holanda, descobri a palavra: osexoeaidade,blogspot.com. O título é um achado. Incomodava-me, não a fotografia do rosto da Madame, mas o chapéu de ranchero paraguaio com que ela se cobria, felizmente trocado há pouco pela frente de um Porsche clássico.  
Outros teria a apontar e para tal aguardo hora propícia. A razão das minhas visitas ao/à (?) "sexinho" é simples: deveria dizer que vou lá para receber eflúvios, mas a verdade é singela e plebeia como o estrato a que pertenço, vou lá para cheirar um modo de vida que só conheço de ouvir dizer, um mundo de Louboutins, Blhaniks,  Dior, Chanel, Lamborghinis,  Bentleys, "gente linda", resorts e champanhe.
Vejo que exagerei. Mais uma vez dou conta que, mau grado tão longo afastamento físico, continuo um Alpedrinha e, como ele,  um "meridional, das nossas terras palreiras da vanglória e do vinho".
Creia-me Vossência att. seu.
JRC
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Este texto  pode também ser lido aqui.

Cálculos

Já nem nos computadores se pode confiar. Desde há semanas que a contagem de visitantes deste blog apresenta curiosas diferenças:
eXTReMe assinalava ontem 438, o Sitemeter apenas 334. Compreenda quem for capaz.

quarta-feira, setembro 17

De gajas e do garbo

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Prezado D. Pipoco,
Já que indirectamente me chamou à dança, deixe que lhe diga a minha estranheza pelo seu anseio de polémicas. Os tempos vão de guerras, de crueldades, mas isso acontece longe e entre povos desatinados, incapazes de resolver querelas seculares acerca da família do Profeta e questões de poderio.
Nós, gente de sensata cobardia, usamos a capa dos brandos costumes, já nos parece demais uma zanga no estacionamento ou um olhar vesgo no supermercado.
Fôssemos nós abertamente maus, que não somos, nem conseguimos sê-lo, mas também não nos podemos dizer bons. O nosso drama é sermos bonzinhos, gentilmente viscosos e escorregadios como pele de enguia, netos em linha directa de Janus, o das duas caras.
E com a gente que somos deseja Vossência duelos de florete? Levantou-se em tempos a fábula das mocas de Rio Maior, ficção semelhante à que Camilo tinha escrito de valentões armados de estadulhos a varrer as feiras de Lanhoso e do Arco de Baúlhe.Pauladas e catanadas não é connosco, e quando por acaso é vamos para um longe onde não nos conheçam, como em tempo remoto fizemos em África e no Oriente. 
Se uma ou outra imitação de duelo por aí acontece, é em ambiente perfumado, as mãos enluvadas de camurça a esgrimir penas de pavão. "Coisas de gaja", como recentemente  aprendi a dizer, interessante frase que me leva a referir a palavra "garbo" que Vossência elegantemente usou.
Estava ela tão fundo entre as ferramentas do meu artesanato, que num primeiro impulso quase abri o dicionário. Porque convenhamos: há quantos séculos deixou de haver garbo, se é que alguma vez o houve entre nós, fora da lírica de Camões?
Cordialmente seu,
JRC

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terça-feira, setembro 16

As belas histórias de amor

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Belas histórias de amor? Pode dizer-se que abundam e delas temos notícia desde que alguém se deu ao trabalho de contá-las no Velho Testamento.
A primeira de que tive conhecimento e recordo foi a de Jacob e Raquel, as outras desapareceram submersas no oceano de paixões que fui encontrando na Literatura, no Teatro, no Cinema, na Ópera e na Televisão. Acidentalmente posso lembrar um nome, a Laura de Petrarca, Cleópatra, Greta Garbo, Jean Harlow, tantas e tão esquecidas outras, mas o que aqui vem ao caso não são as paixões inventadas, romanceadas, sim as pessoais, as únicas e genuínas. As raríssimas que não se vivem em anos mas em dias, por vezes em momentos, as que nada têm a ver com as da ficção, nem lhe imitam os episódios, menos ainda os diálogos, mas ressaltam entre dois seres como faísca e literalmente os atiram para o Nirvana ou o Inferno, que em momentos desses nada importa o destino, só conta o delírio.

domingo, setembro 14

O coqueiro

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É de mau agouro e contranatura a paz que há décadas, talvez quase um século, reina nas Letras portuguesas.
Entre os que a elas se dedicam, e os que as analisam e comentam, há muito desapareceu a máscula troca de murros e insultos, não há notícia de rixas de café, ameaças, duelos, roubo de amantes ou acusação de desvios. Tudo se mostra estranhamente sereno, cortês, cordial, mesmo a birra entre o prócere que aguardava o Nobel, e o felizardo que o recebeu, se limitou a uma breve e indirecta troca de resmungos.
Semelhante calmaria forçosamente trará resultados funestos, não se descortina  jovem literato que, ansioso de novidade e mudança, se encoraje a  desempenhar o papel clássico do elefante na loja de porcelana.
Uma situação destas não pode de facto continuar, é doentia, anormal, toca o absurdo.
Escreveu A. um péssimo romance classificado com uma única estrela? Pareceria justiça, mas na prosa acompanhante o crítico desfaz-se em louvores e ditirambos, cita a estreia do cujo, prevê o êxito da próxima opus.
Deu a jovem B. simultaneamente à luz um bebé e cento e dezanove páginas de recordações da sua infância em Aguiar da Beira, estremecem os plumitivos, excitados com a promessa do excepcional talento.
É péssimo sinal. Entre louvores, abraços, demasiado respeito pelos ídolos e encorajamentos de infantário, vão-se as Letras portuguesas serenamente afundando num charco de banalidade, em parte alguma se descortina o crítico azedo e competente que dê ao coqueiro a forte e muito precisa sacudidela.

sábado, setembro 13

Diáfanos e perfeitos

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Devíamos ser só espírito, diáfanos e perfeitos como os anjos da nossa imaginação, mas o Criador achou divertido meter-nos num envelope e, talvez para que admiremos que Ele de facto tudo pode, cria-nos todos diferentes, os milhares de milhões que somos desde Adão e Eva, e os que iremos sendo até que Ele decida pôr termo à experiência.
Esse envelope, sabemo-lo alguns, é um sem fim de incómodos e aflições, pouco nos é poupado entre a constipação e a má nova do cancro terminal. Ao mesmo tempo, sacanice divina, é desse mesmo envelope que retiramos grandes prazeres, alegrias, as emoções que nos fazem sentir únicos.
Únicos, sim, mas chega sempre o momento em que, os corajosos defronte do espelho, os outros fechando os olhos, nos perguntamos se "aquilo" somos nós.
Creio que os jovens e os inocentes ouvirão a resposta afirmativa. Dos outros não sei. De mim próprio devo dizer que o corpo é uma companhia que lavo, visto, alimento, mas com quem não falo e prefiro não ver. Infelizmente não sai do meu lado.
 

sexta-feira, setembro 12

As tais

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Espírito inocente, mau grado um doutoramento em Filologia Clássica, solteirona, corpulenta, vivaz, D. Rosa que Deus tenha veio muitos anos passados de visita a Amsterdam,  no seu pitoresco dizer, “a primeira incursão à estranja”.

Com ela visitámos os canais, os museus, os moinhos, os campos de tulipas, Marken, Volendam, o Palácio da Paz em Haia, as ruas de Delft, e mais, cansativamente mais, para quem como nós, passado meio século já vezes sem conta fez de guia.
Comemos com pauzinhos no Nam Kee, com garfo e faca os trinta e dois pratos de Rijsttafel da incomparável cozinha indonésia do Tempo Doelo. Comemos arenque cru. Fizemos como Ramalho Ortigão quando aqui esteve, e fomos beber genebra ao diminuto Wijnand Fockink. Levámo-la a jantar ao clube literário Arti et Amiticiae, onde Ramalho também jantou, e onde noutra ocasião tínhamos convidado Saramago.
Foi já na sobremesa que D. Rosa, a modos de puxão de orelhas,  disse que lhe tínhamos mostrado muita coisa, mas não o que ela gostaria tanto de ver.
- A Biblioteca? A Casa de Anne Frank? A Casa de Rembrandt?
- As mulheres. As tais.