segunda-feira, janeiro 19

Um passo em frente

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Culpado ou não, fosse José Sócrates meu amigo eu certamente o iria visitar à cadeia. Contudo, certamente também, não me ouviriam  proferir juízos e cair no ridículo de clamar a sua inocência quando abundam, se não as provas definitivas, suspeitas fundadas o bastante para mantê-lo preso.
Toda essa agitação, porém, interessa-me menos pelo que é e tem de ridículo, do que por ser  sintoma de que certa classe política parece não se dar conta de que já alguma coisa mudou e mais está para vir; que a coutada que tomaram de assalto quarenta anos atrás,e esperavam viesse a ser herdada por filhos e sicários, talvez venha a conhecer melhor destino.
Seja como for, tanto a prisão e a personalidade do ex-Primeiro Ministro, como a curiosa e ainda patente soberba do ex-DDT, além de interessantes capítulos da nossa história, funcionam como o vidro de aumento que ajuda a que melhor olhemos para nós próprios, o país que somos, a realidade que nos cerca.
À luz do que tem acontecido, bem podem os bonzos políticos e os vários "históricos" agitar-se, esbracejar, iludir-se de que ainda estão no poder. Não estão. Já o perderam. Por muito que gritem que sem eles será o caos, o poder cairá na rua, todos sabemos que assim não é. O poder cairá nas mãos doutros, mas esses terão aprendido que os Sócrates, os Soares, os vários donos disto tudo e mais alguma coisa são o passado, que será mais curta a sua margem de manobra.
Sempre é um passo em frente.
 

domingo, janeiro 18

sábado, janeiro 17

Pela monarquia

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No meio da bandalheira dos Sócrates, Varas, Loureiros, advogados mafiosos, dos "históricos" senis que são Charlie, dos traficantes e trafulhas, dos deputados patetas, dos governantes incompetentes, do dono disto tudo e sus muchachos, e mais, muito mais, palavra que não é pela merecida simpatia do casal, mas pelo sólido das instituições e o excelente funcionamento da maquinaria do Estado: são muitas as horas em que me sinto monárquico.

sexta-feira, janeiro 16

O chá da cobardia

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Cineasta, colunista, enfant terrible, Theo van Gogh (1957-2004) pagou com a vida a crença que tinha de viver numa sociedade em que a liberdade não era conceito vão, mas uma certeza enraizada no mais fundo das instituições e das convicções, algo tão genuíno que só um espírito doente o poria em dúvida.
O marroquino que o degolou, e lhe deixou cravada no peito a faca a segurar uma mensagem de ódio, veio dar prova que a liberdade em que Van Gogh acreditava era coisa do passado e muito na Holanda tinha já fundamentalmente mudado. Ridicularizando o credo dos que ele chamava "fodilhões de cabras" e, tal Sancho, ingenuamente pensando que lutava contra gigantes, Van Gogh não se deu conta do poder do inimigo, da traição dos que com ele deviam ser solidários, de como uma sociedade se espelha nos que a governam.
Pouco tempo depois do assassinato, o então burgomestre de Amsterdam (felizmente o actual é doutra têmpera) foi de visita a uma mesquita, para tomar chá com o imã e os fiéis, no propósito de "acalmar os ânimos".
Acalmar os ânimos? Será possível descer mais baixo? Virar tudo do avesso? Será que o medo e a cobardia dão cegueira? Que teremos de pedir perdão a quem nos mata?  
 

quinta-feira, janeiro 15

A liberdade e o medo

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Há quem deteste a liberdade, há quem dela abuse, outros acreditam que só a sua própria é a verdadeira e, se não for a bem será a mal, sentem-se no direito de impô-la aos demais.
Vivo na Holanda há quase sessenta anos, sempre em Amsterdam, e a ambos, o país e a cidade, sinto que pertenço, acato as suas leis, respeito os costumes, admiro as garantias que a todos são dadas para uma vida digna.
Nada me impede a crítica, e ricos, poderosos, humildes, brancos, pretos, amarelos, corcundas  atletas, homens, mulheres, hermafroditas ou transgéneros, de todos me sinto igual, a todos respeito.
Na cidade somos oitocentos mil, mais de metade estrangeiros, vindos dos quatro cantos do mundo e nascidos em cento e setenta e oito países diferentes. Marroquinos são uns setenta mil, os turcos cinquenta mil.
Não data da semana passada, vem de longe, vinte anos ou mais. O desequilíbrio. O medo. O avanço das comunidades islâmicas, as imposições que conseguem fazer, aproveitando a lei, mas aproveitando também a cobardia de quem manda.
A tensão aumenta, e se bairros como Slotervaart e Osdorp, onde domina a comunidade muçulmana, se podem considerar luxuosos se comparados às banlieues parisienses, o ambiente pouco difere. Os incidentes raciais no centro estão a ser diários: ora é um jovem muçulmano que ameaça de pistola, ora um holandês que cospe na cara de uma mulher vestida de burka, um grupo de marroquinos que terroriza os passageiros num eléctrico, holandeses que colam nas janelas os cartazes do PVV, o partido de Wilders que quer a extradição dos marroquinos criminosos ou ilegais.
A semana passada, num discurso que fez no seguimento dos assassinatos em Paris, o burgomestre de Rotterdam, Achmed Aboutaleb (marroquino de nascença) disse alto e bom som o mesmo que Wilders: "Para quem não respeita a lei, só há um caminho, é ir embora."
Vale a pena olhar a fotografia acima, porque representa um espírito libertário que, temo eu, irá desaparecer numa cidade e num país que tão livres se querem.
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© Martin Alberts
 

quarta-feira, janeiro 14

Rainha do sarcasmo


A razão do nosso encontro era outra, mas tínhamos festejado os seus cinquenta e oito anos dias antes e, como por acaso, ele levou a conversa para as questões de afectos, as dúvidas que se  têm quando se aproxima a velhice, o temor dos falhanços, a insegurança dos amanhãs.
E de súbito uma inesperada confissão: - Quer você crer que até hoje só fui para a cama com três mulheres? Quase nos sessenta e só três mulheres? Não vai acreditar, pois não? Neste tempo e só três! A prostituta que me desvirginizou, uma namorada que pelos jeitos desapontei, e a Elvira.
Fez uma pausa, como se aguardasse a minha opinião, mas à cautela fiquei-me pelo sorriso que,  discreto , tanto poderia significar espanto como um convite ao desabafo.
- Pois é verdade. Três. Às vezes a Elvira…
Tenho de confessar que a certo momento deixei de ouvi-lo, tanto por falta de interesse como pela pressa em que me encontrava, mas distraído também pela recordação da sua esposa.
Elvira é russa, conheceu-a em São Petersburgo quando lá esteve num congresso, e pelos jeitos, entre o quase sexagenário e a mulher a meio dos trinta, foi paixão fulgurante.
Não vem ao caso o detalhe da fortuna de um, menos ainda os arrebatamentos eslávicos da outra, engenheira química dada a mudanças de humor tão inesperadas e violentas como certas experiências de laboratório.
Pertinente aqui é a de uma desavença de que por acaso fui testemunha. Ignoro o motivo, mas lembro que, embora entre ambos o tom tivesse subido, o inglês, a língua em que comunicam e ambos falam na perfeição, ainda permitia certo decoro. Até ao momento em que, esquecendo a minha presença, ele lhe atirou:
- You are terrible, Elvira! Soon it's going to be impossible to live with you!
- How soon?
Grande Elvira. Rainha do sarcasmo.