quinta-feira, dezembro 25

Dia de Natal

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Mais do que um sentimento de vazio, abandono, ou impotência, a solidão é monstro que tortura e esmaga, negrume que nos assalta com força de coisa viva, demoníaca, e um só intento: dosear o martírio de forma a que seja duradouro.
Se hoje, Dia de Natal, você passou aqui por acaso, curiosidade, ou à falta de melhor entretém, nada lhe posso dar. Contudo, se veio por tristeza da vida, abandono ou solidão, não se deixe abater: somos muitos os anónimos que, por terem conhecido esse mal,  pensam em si, lhe desejam bem, fazem votos para que sorria ao amanhã.

terça-feira, dezembro 23

Feliz Natal


Ia ser problema responder e agradecer em separado, fugir aos lugares comuns, às frases feitas, encontrar para cada amigo e correspondente palavras originais de amizade e simpatia.
Por isso, desejando a todos uma Consoada alegre, ofereço-lhes uma receita cá de casa, que amanhã à noite virtualmente nos poderá juntar à mesa.
Feliz Natal.


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Ingredientes:

- 10 peras GieserWildeman ou qualquer outra raça dura.
- 3 garrafas de Vinho do Porto Tawny.
- 1 pau de baunilha.
- 1 pau de canela.
- 6 ervilhas de cardamomo.
- 2 saquetas de açúcar de baunilha.
- 300 gr de açúcar.
- 1 laranja grande.
- Vinagre balsâmico.

Descasque as peras, deixando o pedúnculo.
Coloque-as numa panela de esmalte. Junte o Vinho do Porto de maneira a que as peras fiquem cobertas.
Abra o pau de baunilha, raspe o interior e junte ambos ao Vinho do Porto. Junte o pau de canela, as ervilhas de cardamomo esmagadas, um pequeno gole de vinagre balsâmico, o açúcar de baunilha, os 300 g. de açúcar, a casca da laranja cortada em tiras largas.
Ponha ao lume até que levante fervura, e deixe cozinhar em fogo muito brando durante cerca de cinco horas. Quanto mais longo for o período de cozedura, mais intensos são o sabor e a cor das peras.
Retire as peras, a canela, a baunilha, as cascas da laranja, e deixe reduzir o líquido até cerca de um terço do volume.
Junto o molho às peras. Guarde no frigorífico. Sirva com gelado de baunilha, queijo Roquefort, Stilton ou Gorgonzola.

domingo, dezembro 21

Who's On Your Site?

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Sem que daí venha proveito ou benefício, mantenho este blogue gastando nele horas que roubo a outros afazeres. Em contrapartida, porém, é através dele que realizo um sonho de menino: o das garrafas que tanto quis, mas nunca deitei ao mar, as que levariam mensagens para a gente exótica que se sentiria feliz ao descobri-las nas praias de mares longínquos. Fantasias.
Creio que sou lido - o Sitemeter assinala visitas – mas de facto, como  aconteceria com as hipotéticas garrafas, é comunicação de sentido único. O que, todavia, não impede um contacto que, mau grado etéreo, nem por isso é para mim de menos valia.
Acontece que a horas mortas clico no Who's On Your Site, e me maravilho que nesse instante alguém me lê em Sydney, em Bucareste, no Porto, em Terrugem, Macau, Vialonga, Moscovo, Leiria, Seattle, Rio Tinto, Perafita.
Então, mal me dando conta, recuo por segundos à inocência da infância e quero bem a esses desconhecidos, imagino-os felizes.
 

sábado, dezembro 20

Perguntas

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Há momentos em que dentro de nós e à nossa volta se dá uma estranha mudança. Olhamos em redor em busca de um sinal, um motivo, algo que explique a transformação, mas é como se uma cortina nos oculte a nós próprios, impedindo certezas e reconhecimento, desfigurando o que julgamos ver.
Os objectos perdem a dimensão, as ideias chegam sem lógica e em bizarra sequência, nada garante o que vemos ou a solidez do chão em que os pés assentam, aos sentimentos cola-se um visgo de incerteza.
Quem sou? Que razão me tem aqui? Qual é o sentido desta insegurança?
Nesse nevoeiro são sem conta as perguntas e nenhuma tem resposta.

sexta-feira, dezembro 19

Virgindade

(Paul Gauguin - The Loss of Virginity)

Lêem-se aquelas histórias de núpcias em países remotos e sociedades bárbaras, a orgulhosa mãe da jovem esposa a pendurar na janela o lençol manchado de sangue, dando assim prova da virgindade nessa noite perdida.
Além de que vai diminuindo o interesse e a valor do símbolo, e a juventude das sociedades ditas civilizadas há muito se dá conta dos benefícios da promiscuidade, certo é que na vida, no cinema e na literatura, a problemática da virgindade e dos escolhos sentimentais e carnais da primeira cópula pouco interesse desperta.
Mas ouve-se de vez em quando uma história de núpcias burlescas, de desleixo, de bruteza, desencontros que acabam em tragédia. A que segue foi-me confidenciada há uma vida, estava esquecida, veio à tona ao ler as dramáticas núpcias que John Edward Williams narra em Stoner (*)
Esse par que conheci era estranhamente desigual. Ele, espalhafatoso, fanfarrão, indiferente ao resultado da sua jactância, enquanto ela, retraída por natureza e educação, era o oposto.
A noite de núpcias foi um drama: um a julgar-se com direitos de senhor, o outro defendendo-se da violência do assalto. A segunda noite foi idêntica. À terceira foram dormir em quartos separados, e assim continuariam até ao divórcio dois anos depois.
Essa parte tinha-ma ele contado mais tarde, de novo casado, infeliz, perplexo de que também o segundo casamento lhe corresse mal.
O que muito depois ouvi, e ele nunca viria a saber, é que temendo a violência de ser desflorada, ela pouco tempo antes tinha pedido a um cirurgião amigo que lhe cortasse o hímen, só então se dando conta que o noivo iria suspeitar que não fosse virgem. Tempo para explicar não tinha tido, e nessa noite era tarde demais.

………….
(*) Stoner é um livro a não perder.