domingo, julho 6

Esta tarde

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Há os comprimidos e as injecções, os endireitas, as terapias várias, as romagens a Fátima, de vez em quando o bisturi a cortar as entranhas, mas a idade conhece maleitas sem remédio, uma das que mais dói é a certeza do pouco que se aproveitou do que se teve, o irreparável do que nunca voltará.
Assim é, sabe-o quem como eu se encontra na altura de fazer essas contas, olha mais para o passado do que para o presente e, bom ou mau grado, se rende à evidência de que para a fatalidade do fim não existe alternativa.
Todavia, nem tudo são sombras. Desagradecido e mal-aventurado aquele que, como todos, menos que grão de areia, se arroga dimensões cósmicas, pois esse nunca se dará conta do que pode encerrar um sorriso, um gesto, um momento de inocência.
Esta tarde, numa rua de esplanadas e muita agitação, deixei-me tomar pela alegria alheia, senti-me inesperadamente feliz.

sábado, julho 5

Ironias


Bem me apetecia ironizar, mas sobre quem? Sobre quê?
Sobre o histriónico rústico que, às gargalhadas de vinho, põe a mulher e as dos amigos a beber por aquelas canecas de barro que têm um falo por bico e testículos no bojo?
Sobre o patego que caminha curvado, a olhar de esguelha, a falar em cicios, nunca uma opinião, nunca uma atitude, desconfiado até da própria sombra?
Sobre a poetisa de minissaia, escanzeladas tíbias, feitora de maus versos e pior prosa, que parou o tempo e vive em meados do século passado?
Sobre o tolo que discute cilindradas e "bólidos" vintage"?
Sobre o turista que só viaja para lugares exóticos, sem turistas, onde os indígenas vivem numa  simplicidade bíblica, a comida é pura, e tudo barato?
Sobre o comércio e as Letras? Sobre o escritor (holandês) que calça sapatos vermelhos como marca registada, se descobriu apaixonado pela filha, e escreveu um romance, detalhando  o seu desejo de "...violar e matar. Não! De matar e então possuir!"?
Sobre a melancolia dos corpos estirados ao sol numa praia?
Sobre as tardes de sábado?

quinta-feira, julho 3

Da superficialidade


É um mundo que apercebo nos blogues, aquele dos comentários, mas que por inteiro escapa ao meu entendimento, feito que é de fórmulas, dizeres cifrados e obscuras alegorias, querendo dar ideia de que os seus autores partilham subtilezas da vida e do pensamento reservadas para iniciados.
Talvez assim seja, mas para quem como eu está de fora, ganha aquilo um ar de bisbilhotice comadresca,  a futilidade que se imagina nos espíritos com um QI ao redor de 80, o banal das conversas sobre o tempo, a carestia, os desarranjos intestinais ou a mulher do Sousa.
A pergunta fica: que gente é aquela, que certamente funciona num emprego, tem deveres de família, vai às compras e ao teatro com ar de normalidade? Que ânsia de presença ou afirmação os move?
Será que, tendo-se em baixa estima, sentindo-se ínfimos e inúteis, se salvam dizendo: comento, logo existo?

quarta-feira, julho 2

Pecado da juventude


  (Clique)
A versão neerlandesa desde texto foi radiodifundida por "Radio Nederland" em 2 de Janeiro de 2000

Uns trinta anos atrás,  embora tivesse então alcançado há muito o que se costuma chamar a idade do juízo, cometi o erro de escrever um livro de reflexões sobre a Holanda e os holandeses.
No decurso do decénio que já aqui tinha passado, amontoara, julgava eu, um número suficiente de observações para corroborar os meus pontos de vista, e  assim, com o entusiasmo da ingenuidade e promovendo-me a juiz, desatei a escrever sobre as muitas coisas que na Holanda me pareciam boas, senão excelentes, e sobre os traços de carácter que nos seus habitantes se me afiguravam detestáveis.
Ao contrário da minha expectativa - eu supunha que o veneno destilado me valeria meia dúzia de processos e, na hipótese pior, a extradição pura e simples -o livro continua a vender-se e partes do seu texto são ainda frequentemente citadas.
A quem não os conhece, ou conhece mal, semelhante tolerância dos holandeses às críticas que lhes são feitas deve parecer suspeita e indicar, pelo menos, uma tendência nacional para o masoquismo. Contudo, e felizmente, assim não é, antes indica um grau de respeito pelas opiniões alheias, mesmo as contundentes, que raras vezes se encontra noutros povos e noutras latitudes.
Entretanto, ciente do erro cometido no passado - e agora que levo aqui quase meio século de permanência - é de esperar que a minha visão sobre o país e o seu povo  tenha mudado. De facto mudou, mas de modo diferente daquele que eu tinha previsto, pois as coisas boas se tornaram ainda melhores, e no que respeita aquelas que então julguei más, devo dizer que é a mim que cabe a culpa de então as ter visto como tais. Já explico.
Num fim de tarde de Março de 1956 arribei a estas paragens nórdicas que nunca antes tinha visitado, supondo que dentro de duas semanas voltaria a Paris, onde então vivia, e  bem longe de suspeitar que faria aqui poiso para o resto dos meus dias.
Para um jovem de vinte e cinco anos, nascido e criado em Portugal, imbuído de  cultura latina, a Holanda era, em mais de um sentido, um país exótico e remoto. Além disso, fora o vir de Paris, que considerava um paraíso, o chegar num dia de neve e neblina deu-me de Amsterdam a impressão de que era cidade tristonha.
          Devo acrescentar que os primeiros anos da minha estadia não foram felizes e a tendência que tenho para o pessimismo também não ajudou. Desse modo,  antes de me dar conta, estava eu a barafustar contra a Holanda e contra os holandeses, projectando nela e neles culpas, defeitos e fealdades. Além disso, julgando-me original, eu ignorava ser apenas mais um numa longa série de críticos.
Por razão misteriosa, a Holanda costuma despertar emoções fortes em quem a ela chega e só a poucos deixa indiferente. Uns adoram-na, outros sentem a urgência de fugir daqui a sete pés. Os primeiros maravilham-se com tudo, desde os campos de tulipas à forma dos moinhos, desde a pintura de Rembrandt ao desenho das fachadas. Os azedos, esses logo no aeroporto ou na estação começam a resmungar e maldizer:  incomoda-os o frio, a extensão dos pólderes, o cinzento do mar, a estranheza da língua. Enjoam da comida e aborrece-os a cara das pessoas, acham os preços uma exorbitância, perdem-se no emaranhado dos canais.
Esta última categoria de visitantes mal humorados data da antiguidade e, tanto quanto se sabe, iniciaram-na os Romanos. Por volta do ano 57 antes de Cristo, ao alcançarem o delta formado pelos grandes rios que desaguam no Mar do Norte, ao qual chamariam Insula Batavorum (Ilha dos Batavos), logo eles se queixaram da humidade e de serem mal recebidos.
Desde esse tempo não passa século sem que as virtudes e os vícios da Holanda, a cor do seu céu e a fartura das suas águas não sejam examinadas à lupa por escritores e políticos, diplomatas, jornalistas ou simples viajantes.
Tanta insistência e tanta constância no observar e criticar de um pequeno país  poderá surpreender, mas o certo é que, como já antes disse, ele a poucos deixa indiferente.
O Padre António Vieira, por exemplo, escritor clássico da língua portuguesa, celebrado em Portugal e no Brasil, ao vir aqui por três vezes, entre 1646 e 1648, e ao reparar que os holandeses se deslocavam tão facilmente na terra como na água, chamou-lhes anfíbios e pareceram-lhe gente de maus fígados.
Outro português e também ele escritor, Ramalho Ortigão, publicou em 1883 o seu livro ‘A Holanda,’ onde ao longo de mais de quatrocentas páginas só se lêem elogios. Ele é a beleza das cidades, a limpeza das ruas, o funcionamento democrático do governo, o conforto dos hotéis, a amabilidade das pessoas, a riqueza dos bancos, tudo lhe parece fabuloso, idílico, exemplar e perfeito. Vista através dos seus olhos, a Holanda parece uma espécie de Shangri-La avant la lettre.
Como a lista dos simpatizantes e detractores se estende por muitos tempos e raças, não me surpreenderá se um dia ouvir dizer que na língua dos esquimós ou dos índios xavantes existem escritos que celebram a formosura dos canais de Amsterdam e outros onde se desaconselha o hábito local de consumir o arenque cru.
É como se o mundo inteiro se sentisse obrigado a ter opinião sobre a Holanda. Franceses e italianos, espanhóis e ingleses (muitos ingleses), alemães (muitíssimos alemães) gregos, turcos, indianos... Mal respira este ar e encara esta gente, aquele que chega começa a tomar notas, e Deus nos livre se jamais, devido a qualquer moda ou às facilidades da Internet, vierem a ser publicados os milhões de palavras com que milhões de particulares opinam sobra as flores e o queijo, as vacas leiteiras, os velhos mestres da pintura.
E eu, na minha inocência, a supor que poucos se teriam debruçado sobre a Holanda e os holandeses!
A desculpa que julgo ter, é que o que no passado escrevi me dá a impressão de ter sido obra de um outro eu e feito numa outra vida. Porque agora, no começo da velhice, quando o leio, e embora o não possa repudiar, a surpresa que me causa é de tal ordem que logo aquilo me parece de um estranho e dá vontade de sem demora começar a corrigir.
Porquê? quererá o ouvinte saber.
Pela simples razão de que, julgando que escrevia sobre a Holanda e o seu povo, eu, inocente e jovem, estava apenas a escrever sobre mim próprio.
O aborrecimento que me causava a monotonia do pólder, e que eu supunha fosse universal, decorria apenas de que até então os meus olhos só se tinham deliciado com montanhas. Depois, falador por natureza, custava-me a aceitar o laconismo dos meus novos vizinhos, que respondiam sim ou não quando, pelo menos, eu esperaria deles um discurso. E vindo do sol, doía-me o mau tempo e o frio, que me davam a impressão (errada) de ser este clima pior que o da Lapónia.
E imagine-se: os holandeses só comiam bacalhau fresco! Desconheciam o bacalhau salgado! Odiavam o alho! Faziam cada dia, não duas, como eu, mas apenas uma refeição quente! E mesmo essa, em vez de o ser à noite, segundo a (minha) regra, comiam-na ao dar as seis horas!
Por ninharias assim, logo os cataloguei como culinariamente bárbaros. Além disso, em vez de vinho, bebiam leite à refeição. Leite! Atirei-lhes o anátema! Povo que se confortava com bebida tão insípida, merecia ser excomungado, expulso para todo o sempre do grémio das nações civilizadas.
Eram os holandeses vivíssimos no comércio, na indústria, nas finanças?  Primavam eles na Economia e na Medicina, nos estudos da Física e da Astronomia? Davam cartas na ciência de administrar um país? Eram superiores na agricultura, na pesca, na construção naval, no arranjo do território, na aplicação das leis?
Sim, em tudo isso apareciam em primeiro plano. Mas desconheciam o bacalhau salgado, bebiam leite à refeição, falavam pouco, não gostavam de alho. Semelhantes miudezas, examinadas através da impertinência da minha juventude, levaram-me a ser feroz.
Claro que os não insultei, pois o respeito que se deve ao nosso semelhante mo impediria. Mas ri-me deles, fiz da zombaria o meu cacete, fui cruel nas comparações. A leviandade com que então os descrevi, causa-me agora, tarde demais, algum remorso. Infelizmente, como os nossos antepassados romanos já sabiam, mas eu tarde demais viria a acreditar, verba volant, scripta manent, (as palavras voam, o escrito permanece), e como o editor não me deixaria tirar dos escaparates um livro que se continua a vender, recebo eu, pelas vias travessas do negócio, a paga do meu leviano julgamento.
Entro numa livraria e logo o livro me encara, é quase como se apontasse a dedo aos circunstantes: ‘Olhem! Ali vai o malfeitor!’
Mas pior que a eventual acusação de leviandade, o facto do livro se continuar a vender, ser lido e mesmo citado, levantou ultimamente em mim a suspeita de que o interesse que ele desperta nos holandeses, talvez não seja motivado pela curiosidade de descobrirem o que deles pensa um português, mas apenas porque lhes apetece rir. Que, aos seus olhos, os juízos com que julguei molestá-los, não passam de tontarias cómicas, pois críticas melhor fundadas e cumprimentos mais elegantes, já eles os receberam ao longo dos séculos.
Metendo a mão na consciência, tenho de conceder: gostar de leite e não apreciar o bacalhau nem o alho, não são razões válidas para desqualificar um povo, mas simples diferenças de hábito. Mesmo essas, o tempo generosamente se encarregará de ir fazendo com que desapareçam. Eles ainda não comem bacalhau salgado, mas começam a apreciar o alho e já bebem vinho. Por minha parte, se continuo a detestar o leite, verdade é que há muito só faço uma refeição quente ao dia e as mais das vezes sento-me à mesa às seis horas.
Ao fim e ao cabo, pergunto-me, onde encontrei eu trinta anos atrás, a autoridade para fazer julgamentos cortantes e ter opiniões ‘definitivas’ sobre a Holanda e os holandeses? Terá sido apenas pecado da juventude? Penso que não.


terça-feira, julho 1

As palavras


Tive isso com as palavras desde que aprendi a ler. O sentimento de magia e mistério, o assombro de com elas criar, mudar, torná-las arma de arremesso, dar-lhes a leveza clássica da pluma ou da aragem; mentir com a verdade, criar um mundo, uma batalha, uma tragédia, soprar vida nos mortos.
Esse sentimento durou, parecia tornar-se segunda natureza, poder de varinha mágica, mas o tempo tudo muda, e se o assombro que as palavras me causam permanece, tenho ideia de que já não sou eu quem as invoca, nelas manda e eventualmente força, são elas que agora  se impõem, me tornaram vassalo, ditam a ordem e o andamento, me levam a aceitar que possa haver alguma verdade na afirmação pessoana de que "o poeta a si assiste".
Alguma. Provavelmente diminuta, talvez apenas a precisa para confundir, mas insuficiente para confirmar.