segunda-feira, maio 19

Mandarins

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Conversa sobre o passado, para ele longínquo, que é grande a carrada de anos. Mas à medida que vai contando descaem-se-me os queixos, custa acreditar que, chegado àquela idade não se mostre como é, não conte como de verdade foi, mas, à maneira das anciãs que desdenham do espelho e acreditam em cremes, também ele julgue iludir com a cosmética do pensamento elevado, das atitudes nobres, do alto grau intelectual da correspondência que logo na juventude trocou, certo e seguro dos píncaros a que iria subir.
Subiu.  A Pátria, honrada com tal filho, mandará esculpir estátuas e fabricar tabuletas para as ruas com o seu nome.
Mas eu, que também venho de longe, fora que o estrabismo de que devia sofrer nos olhos provavelmente me atacou o cérebro, vejo-me a interpretar a prosápia doutro modo.
Ademais, incomoda-me a boa memória que tenho, pois guardo viva a recordação das pulhices, das sacanices, traições, golpes baixos, mentiras, denúncias, perguntando-me porque a perdeu ele, ou com que lixívia se branqueia.

terça-feira, maio 13

Felicidade às gotas


Afirmam os modestos e os medrosos que a felicidade é boa quando chega aos poucos ou em pequenas doses, provavelmente à maneira das gotas do soro fisiológico que lentamente penetram na veia do enfermo.
Outros há que a desejam repentina, um furacão, querem sentir-se arrebatados, como parece que acontece aos poetas românticos quando, depois de muita solidão e êxtase, subitamente enfrentam o objecto do seu amor.
A maioria, por certo também neste caso se comporta na forma habitual, deseja-se medianamente feliz, nada de altos e baixos, jackpots e misérias.
De facto, pouco adiantam as lucubrações, de nada valem os votos que fazemos, tão-pouco nos chega a felicidade em grande ou pequena medida. É um estado de alma.
Arrisco-me a dizer que ela só existe quando a chamamos, e ainda é preciso reconhecê-la, condão que a muitos falta.

segunda-feira, maio 12

Quem serei?


É qualidade que me falta: não me revejo no próximo, não comparo, quero-me de fora. Ando por aí esquecido da idade, do aspecto físico, há horas em que me distraio e comporto como um extra-terrestre, atribuindo-me uma invisibilidade que não tenho, imaginando que os meus olhos vêem para lá da pele alheia, o meu cérebro lê os pensamentos de quem passa. Que só não voo porque ainda não quero.
Assim fosse, assim não é. E porque me devolve à realidade, quando caio em mim, esse acordar pouco tem de agradável ou pacífico.
Tempos atrás vi-me numa reunião em que só havia idosos em avançado estado de debilidade, felizmente quase todos bem dispostos, só um ou outro caindo no hábito de enumerar mazelas e  comprimidos. O sentimento que primeiro me tomou foi de que me encontrava ali por acaso, mas logo me recompus, e participei, cavaqueei, fiz o melhor que pude para não destoar no papel de ancião.
Todavia, à saída revelou-se-me o que aponto acima: tinha convivido, participado, mas sem me rever naquela boa gente, alguma dela com bem menos anos do que eu.
Daí que o mais provável é que um dia destes me espere uma desagradável surpresa, pois também não me identifico com aqueles a quem há pouco cresceu a barba.
Quem serei, que não descubro quem sou?
Sabe você quem é?

quinta-feira, maio 8

Um segredo


Na primeira vez foi inesperado, intenso, a conjugação perfeita dos corpos e do sentir, um assombro de mistério revelado. Esqueceram a data, dispensam falar nas ocasiões em que se repete, são cuidadosos a nunca entre si, mesmo de forma velada, aludir ao segredo que partilham e os une com poder de sacramento.
Não forçam nem esperam, sabem que não lhes cabe a escolha da hora, maravilha assim aborre preparos, técnicas, habilidades, combinações. Exige pureza e ingenuidade. Exige abandono, entrega, aquele levitar feliz e raro de quando o espírito ilude o corpo.
Ambos conhecem dores, sombras, desagrados e desentendimentos, horas em que se evitam, as palavras más que deviam calar. Mas também a euforia que nasce das pequenas coisas, das atenções, dos sorrisos de cumplicidade que certas memórias chamam.
O seu dia-a-dia seria o de todos, não fosse aquele segredo que lhes foi revelado, precioso, frágil, tão de outro mundo que as palavras deste o destruiriam.

segunda-feira, maio 5

O sorriso e o sexo


Vamos lá então meter o nariz onde por pressuposto não sou chamado, e que a sisuda maioria provavelmente acha impróprio para a minha idade. Por sorte é essa uma questão do foro privado, e aqui só se tocará em generalidades, dois fenómenos apenas, mas que singularmente concorrem para a poluição mental dos meus dias: o sorriso e o sexo.
Tornou-se-me um reflexo automático: se na televisão começam aquelas bonecas loiras e arranjadinhas a sorrir para o boião de creme, o desinfectante da sanita, o caldo Knorr? Desligo. Político ou comentador a arreganhar os dentes? Desligo. Evento, concurso, a multidão aos vivas e a sorrir? Desligo. Entrevista às gargalhadas? Idem.
Com o sexo a dança é a mesma, maior ainda a ubiquidade. Explicações, estatísticas, cursos, workshops, sonhos, recalques, fetichismos,  sadomasoquismos, sombras de Grey, pederastias, incestos, bestialidades, trios, quartetos, swing, orgias…
Com filmes, televisão e internet, a oferta excede de tão longe a procura que nem se pode dizer, como nas lojas de antigamente, que é à vontade do freguês. Mulher ou homem, mesmo superdotado nos atributos, com tempo de sobra e resistência de mulo, passaria o século sem  esgotar as possibilidades do que lhe oferecem.
De modo que, caídos o sorriso e o sexo em extrema banalização, resta a pergunta se compensa sorrir e copular. Responda cada um por si, mas acerca da cópula talvez valha a pena dizer que, embora nem todos se dêem conta, é dos inesquecíveis momentos em que um casal, qualquer casal, verdadeiramente pode comungar.
O sorriso pouco importa, banalizar o sexo deveria ser crime.

sábado, maio 3

quinta-feira, maio 1

Caminhos


Com humildade o digo: porque assim me criei, me fiz, nunca a outros deixei a escolha do meu caminho, vi realizados alguns sonhos, foi-me dado viver mais que uma vida, têm-me calhado em dose dupla as alegrias e os desencantos.
Afirmações destas contêm o risco de serem interpretadas em extremos, cada um projectando nelas a própria vivência, o seu sentir, a imaginação que possui, o modo como encara a vida, até a sua idade. A este parecerão tolice, outro verá nelas arrogância, satisfação tola.
Verdade é que mal iria o mundo com cada um de nós a querer o seu carreiro. A paz e a harmonia, o desenvolvimento, a ordem, exigem o rebanho, nada de sonhos, de escolhas individuais.
Ciente disso, e às vezes parecendo que acompanho, de facto vou sozinho.