quinta-feira, julho 17

Tu sabes


- Tu sabes que te amo.
Desviando o olhar, ela baixa a cabeça, acena que sim.
- Por isso não compreendo. Custa-me tanto a …
Conhecem o muito e a força do que os une, recusam ambos nomear o que os separa.
- És generoso. Tão capaz de dar. Sei, muitas vezes tenho sentido, que para meu prazer esqueces o teu desejo, partilhas comigo o que te é estranho.
Agora é ele que desvia o olhar e baixa a cabeça.
Apertam-se as mãos, ficam assim um instante.
- Não volto a falar disto.
- Se pudesse mudar - diz ela. – Mas vem de tão longe …
Ele acena para que não diga mais, e ambos se levantam, vão continuar o que estavam a fazer.

domingo, julho 13

A minha escrita


Com a franqueza da juventude e a segurança do pouco caminho andado, diz-me ele que não aprecia a minha escrita, a acha inutilmente complicada, cheia de palavras que desconhece e provavelmente raros usam, pois mesmo os seus avós as estranham.
Sorrindo, e também francamente, digo-lhe que concordo, na verdade assim é, tenho esse gosto pelas palavras. Poderia mesmo dizer que é amor, fascínio, alegria, pouco me importa em que século remoto nasceram, se já Fernão Lopes as usava nas suas Crónicas ou D. Diniz nos seus versos.
Enquanto escrevo, muitas vezes as digo em voz alta, pelo gosto da sonoridade, da melodia, do ritmo. Atardo-me no mistério da combinação das sílabas, no bruxedo que transparece nos ditongos colocados de certa maneira; assombra-me notar que com as mesmas palavras posso dizer e desdizer, em simultâneo negar e afirmar, usá-las para malabarismos ou pesar-lhes a valia na mais sensível das balanças.
Mas ao meu jovem interlocutor nada disto adianta, explicação nenhuma interessa, e bem é que assim seja, porque nada se aprende sem oposição e rebeldia.

sábado, julho 12

Para uma jovem que se me confessou


Se vale a pena ir para lá desse longe?
Vale. Vale muito. Mas guarda segredo. São só teus e dele os sussurros, o inesperado toque dos dedos, os gestos de carinho, a troca de olhares que diz mais do que palavras. De vós ambos, apenas, são também o desejo do abismo, a rédea solta, a vontade de perdição, a febre de dar em excesso e sem peias receber, pisando medos e mandamentos, riscos, convenções.
Mas é de alvorada o instante da escolha, ao deixar a estrada onde todos cabem, e de mãos dadas seguir pelo atalho onde eles não se arriscam. 
Muitos o anseiam, raros se atrevem a aperceber os gritos insonoros da paixão.

sexta-feira, julho 11

Ser e parecer

(Clique)
Dizem-se individualistas, solitários, garantem desdenhar de ajuntamentos, romarias, povoléu. Afirmam isso e provavelmente assim é, ou convencem-se de que é. Mas para quem os vê de fora e à distância, dão a imagem de ubíquos que nunca desperdiçam oportunidade de se mostrar e marcar presença, trombeteando opiniões, fazendo comentários, "gesticulando" nas redes sociais com a pressa de quem teme perder o comboio.
Garantem odiar o rebanho, mas o que dizem, fazem e mostram é prova de que precisam do rebanho, nele existem e acham conforto.

terça-feira, julho 8

Pílulas



(Clique)
Afirmar que este povo é mais hipocondríaco do que aquele, de certeza não encerra verdade nem  prima pela exactidão, e pode acontecer que os suecos, que raro enxergam o Sol, tenham uma visão mais calma do funcionamento do seu corpo, do que os sicilianos que todo o ano o vêem brilhar.
O sueco a quem se pergunta pela saúde, encolherá os ombros e com um lacónico "Vou indo" encerra a questão, mas com o italiano outro galo canta, e a experiência recomenda evitar essa curiosidade de pura cortesia.
Antigo e civilizado povo, o italiano sofre excessiva e massivamente de hipocondria, e à pergunta banal do "Como vai?" responderá o habitante da Apúlia igual ao de Milão, enumerando um sem-fim de alergias e achaques, doenças crónicas, tosses assustadoras, borbulhas que bem podem degenerar em cancros, a suspeita de sangue nas fezes, artroses, impingens, a comichão no braço que deve ser psoríase, e assim por diante com previsões de cirurgias e ACVs.
Uma estatística recente sobre a compra de medicamentos na internet ilustra curiosas diferenças de comportamento nos povos. Assim, enquanto em 2013 os italianos encomendaram através da internet nada menos de três mil e quinhentos milhões de euros de medicamentos, e os alemães dois mil e setecentos milhões, os holandeses limitaram-se a gastar a estatisticamente miserável soma de setenta e nove milhões.
Deve-se deduzir daí que os holandeses são imunes à hipocondria? Acho que não, pois se pergunto pela saúde da maioria dos que conheço, logo eles referem moléstias e padecimentos. Mais provável é que se trate de uma questão de bom senso e amor à carteira.