quarta-feira, junho 18

A criação literária


Ouve-se de vez em quando que a vingança se serve fria, e situações há em que, de verdade, é bom dar-se a gente um tempo de espera, não sacar logo da navalha.
Por outro lado, e embora não ofereça a mesmo alívio, no geral dos casos chega-se à conclusão de que o desdém é arma mais eficiente e de resultado duradouro.
Mas entre a facada imediata e a premeditação a longo prazo, em matéria de vingança o escritor dispõe ainda do que um amanuense chamaria "terceira via": esmerar-se num retrato do ofensor e, uma vez a obra acabada, certo que ele/ela se reconhecerá, saborear-lhe a raiva impotente.
Não me venham agora com moralidades nem preconceitos: embora a pecúnia raro seja o que deveria ser, certo é que, fazendo dela uso conveniente, a criação literária pode oferecer inesperados benefícios.

segunda-feira, junho 16

domingo, junho 15

Na Feira


Que força será a que nos leva a confidências inesperadas, sem que se lhes descubra o motivo ou delas nos venha consolo ou proveito?
Alegria da invenção? Desejo de protagonizar? Necessidade de colorir a rotina ou, por um momento, ser ponto de mira, recebendo o interesse que doutro modo não nos mostram?
O senhor sentou-se junto de mim na Feira do Livro, e estendeu o exemplar para que lho autografasse. 
Setenta bem conservados, postura marcial, esperou que eu terminasse e, recolhendo o volume, olhou-me de frente:
- Quero-lhe dizer que fui Capitão de Abril!
Habituado a surpresas maiores, pus um sorriso de circunstância e aguardei a continuação:
- Capitão de Abril e ajudante-de-campo do nosso general Spínola!
A conversa podia tornar-se interessante, mas a democracia há muito entrou boas maneiras, a senhora que aguardava vez quase que o empurrou, resmungando:
- O 25 de Abril não serviu para nada. Tivessem deixado tudo como estava, porque digo-lhe uma coisa, havia pobreza, mas ao menos nesse tempo havia alegria.
- E respeito – concluiu o senhor que seguia.

sexta-feira, junho 13

À maneira de oração


Deus abençoe e mantenha na Sua guarda as mulheres que sabem dar, as que conhecem no corpo e no espírito o significado de oferenda, as que partilham as suas emoções, os seus desejos, o seu ardor, com a livre devoção das sacerdotisas pagãs que ajoelhavam nas areias do Nilo, do Eufrates, nos longes da Índia e, em rituais milenários, consagravam a vida.
Deus se compadeça das mulheres secas de lágrimas e do coração, das que perderam os sonhos ou só conheceram pesadelos e caminham indiferentes à luz.

quinta-feira, junho 12

Comparsas


São horas de perigo, as de desencanto com o que nos rodeia, o que somos, o que nos espera.
O que então vemos não é o que poderia ser, a imaginação fica aquém, onde se queria solidez encontramos o que é pegajoso ou se esboroa entre os dedos, o chão de areia, o visgo das armadilhas.
Sábio aquele que se faz eremita e retira do mundo, privilégio que a poucos – hoje talvez a nenhuns – é dado, pois o mundo tomou conta de nós, aperfeiçoando as pinças com que nos tritura, as grilhetas que, por serem invisíveis, ganham em eficiência e mais seguramente escravizam.
São horas de perigo, porque nos sonhamos livres e sabemos títeres, já tão perdidos que nós próprios enlaçamos os cordelinhos com que o mundo nos faz saltitar. E vamos adiante, sempre adiante, na ilusão de que os pés são nossos, o caminho o que escolhemos. Na verdade nunca saímos do sítio. Giramos em torno do mesmo eixo, é a mudança dos bastidores que nos engana e faz comparsas num musical sem actores.

terça-feira, junho 10

domingo, junho 8

Monarcas


(Clique)
É de invejar o poder do Altíssimo, que tudo sabe e compreende de como os humanos reagem, o que os faz ser assim ou assado, que motivos os levam a comportamentos que desafiam o que se espera da pressuposta normalidade dos mortais.
Porque será tão corrente a negação da evidência? O que leva alguns a ignorar a precisão de  descanso que o interlocutor demonstra, quando visivelmente chegou ao limite das suas forças? Que egoismo é esse, que torna cego, como se o outro, os outros, fosse(m) apenas títeres que se manejam puxando cordelinhos?
Felizmente só acontece de longe a longe, mas de cada vez chega para desbastar uma porção grande da boa vontade precisa para aguentar os dias.
Deus nos guarde da presença e das exigências dos que só a si próprios se vêem, e se julgam monarcas de um imenso reino.

sexta-feira, junho 6

Spa & Resorts

Que responder a quem, com genuíno interesse, pergunta se já visitei aquele "Espá e Rizorte" onde os preços de fim-de-semana são convidativos e oferecem uma massagem grátis?

quinta-feira, junho 5

Um presente


É um presente que quero dar. Coisa única, minha, íntima, acarinhada durante anos. Embora seja objecto é parte de mim, contém pensamentos que tive, palavras que escolhi e alinhei. Mesmo as rasuras, as correcções, as entrelinhas, os rabiscos, têm nele significado, dão prova dos medos que me assaltam, da inconsequência dos meus sentimentos, da confusão que tão bem sei esconder.
Não é um diário, nem esboço de romance, antes o improvável documento onde confissão e  fantasia vão de par, espelhando a realidade diária, contendo também alguma coisa do mistério onírico em que por vezes nos embrenhamos e nos salva.
É ainda uma  amálgama de sentires inventados e horas de dolorosa verdade, falsas paixões, muito verdadeiros amores, promessas, destinos, aventuras imaginadas, outras que melhor seria não tê-las vivido e suportado.
Quero dá-lo, e uma decisão tomei: irá para alguém que não faça ideia do que se trata, donde ou de quem vem, e por que razão lhe cabe.

segunda-feira, junho 2

Memória eterna


Guardar seja o que for, com intuito de deixar rasto, é coisa que não faço. Tão-pouco me preocupa o destino daquilo que escrevo, pois não somente me escasseia a vaidade, mas já vivi o suficiente para me aperceber de como, à excepção de uns quantos verdadeiramente notáveis, é ilusória e passageira a fama.
Entre a estátua, o nome numa rua, e aquelas inscrições funerárias do “Ficarás eternamente na nossa memória”, a diferença é nula. Soa tudo um bocadinho simples, para não dizer de um ridículo infantil. Como há também contradição entre a certeza do “somos pó, cinza, nada”, e a ânsia de  querer que nos recordem.
Mas cá vamos andando, todos diferentes, uns querendo esconder-se do mundo, outros achando que nunca é grande bastante a sombra que projectam.